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17/01/2017

A NÃO CRÔNICA DA NÃO LITERATURA

Por A.Lima


Crônica é literária menor, descartável. Com ressalvas ao texto de conteúdo inquestionável, como fizeram os escritores-viajantes da antiguidade nas suas apreciações sobre os eventos mais significativos, ou dos grandes autores que, em algum momento, exercitaram o gênero sem qualquer prejuízo à sua obra propriamente dita.

Faço alusão, claro, a essa patomima midiática dos decadentes de agora, todos donos de estratégicas colunas nos jornalões falidos, TV e internet.

A bem dizer, crônica nem deveria agregar-se à literatura do modo como propõe a crítica de resultados, sob aplauso desses embromeiros que teimam em orná-la com imagens miraculosas e outros penduricalhos, na vã tentativa de que se transformem em obra consumível.

Tais artifícios, aliás, além de não promoverem o texto, conforme muitos tolos imaginam, ainda o transformam naquela coisa híbrida, indolor: nem conto nem crônica.

Isso, evidentemente, também sem desmerecer um Oto Lara Rezende ou o festejado Rubem Braga, que por sinal se constitui o melhor exemplo dessa hibridez a que me referi, dado que confeccionava textos interessantes, porém sem demarcar onde ocorreria em cada um a ruptura entre realidade e ficção e que interesse isso poderia despertar nas gerações futuras.

Ou seja: RB fez a chamada escrita descartável, com estilo, ainda que tivesse sido ele um eficaz correspondente de guerra e observador atento da vida carioca, mas o oposto do próprio Oto - dono de refinada ironia - e mais distante ainda de João do Rio, que se tornou a melhor referência do seu tempo entremeando boa literatura a um texto de pura curtição, provavelmente pouco preocupado em fazer registro histórico com aquele rico material que hoje configura seus livros.

Obs. Isto que o amigo acaba de ler não é crônica, muito menos literatura. Apenas um texto internético. Grato pela atenção.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

11/01/2017

PERFIL DE UM BODE ACADÊMICO

Ilustração de A. Lima

O dia em que o bode Ioiô comeu a fita inaugural do cine mais famoso da terra de Alencar

Por ALimaS

O bode Ioiô deu as caras por essas bandas de Fortaleza no ano da pior seca que assolou o Estado do Ceará (1915), vendido por um retirante a uma empresa inglesa, instalada na praia de Iracema, por nome Rossbach Brazil Company. 

Sentindo-se desprezado - jogado que fora num cantão apenas para limpar o mato que crescia ao redor do prédio -, o bode, um dia, em descuido do guarda, resolveu se deslocar até a Praça do Ferreira, mais diretamente até o Café Java, onde se reuniam desocupados e artistas, ou artistas desocupados, tanto faz. Ambiente, portanto, mais que adequado ao bode, já afeito às vadiagens.

Furão que só, o bicho foi logo se enturmando com a rapaziada, dando uma chifradinha na pança de Raimundo Cela, que, naturalmente, muito satisfeito por aquele afago inesperado, logo lhe serviu uma dose de pinga - engolida pelo bicho no ato, sem cuspida nem arrepio. Sopa no mel!

Ioiô não largou mais a galera. Esteve em todas. Participou de solenidades, saraus, tertúlias, concertos proporcionados pelo maestro Henrique Jorge; frequentou o teatro, escutou muito compenetradamente os sonetos de Álvaro Martins, os apólogos de Antonio Sales, até que um dia, de pura sacanagem, comeu a fita inaugural daquele que se constituiria logo depois o cinema mais frequentado da terrinha (Cine Moderno), deixando a moçada de orelha em pé. Mesmo assim foi perdoado e continuou na pândega. 

Comentam que o caprino - muito jeitoso -, também paquerou algumas dondocas e chegou a receber homenagens da Câmara Municipal de Fortaleza, incrustando-se definitivamente na vida cultural de nossa amada Fortaleza. Um feito de tal modo extraordinário, que até hoje, um século depois, o bicho ainda alimenta a inspiração e verve de nossos melhores cronistas - esses circunspectos senhoras que habitam o imaculado templo da Academia Cearense de Letras. 

Depois de muitas peripécias, o bode, infelizmente, bateria a caçoleta, não sem antes ter enchido a pança de pinga, junto com alguns poetas de menor fama, que o teriam forçado a rabiscar algo para a posteridade, friccionando sua pata no mosaicão da praça do Boticário. E não sem as merecidas honras que lhe seriam prestadas por uma comovida urbe, em forma do empalhamento pelas mãos do melhor artesão da terra de Adolfo Caminha,  e um lugar de destaque no Museu Histórico e Antropológico do Estado do Ceará. Mas a história não termina aqui, não, meus camaradas.

Um belo dia, como diria aquele narrador cabra da peste, um sujeito lá da terra do nosso padim padre Cícero, todo cheio de moral, assentou os fundilhos de seu filho caçula no espinhaço do impoluto Ioiô - supondo que o bicho fosse apenas apetrecho de um fotógrafo de feira, fragmentando imediatamente a relíquia e, mais afrontoso ainda, caindo na gargalhada como se tivesse cometido um delito insignificante: "vixe, não deu tempo nem de fazer a self com o bode" - vociferou o sacana, sob apupos de alguns presentes que conheciam bem a trajetória do Ioiô. 

Se não tivesse corrido a tempo, teria apanhado mais que galinha para largar o choco.
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Obs: Proibida a reprodução deste texto, no todo ou em parte, sem a minha autorização.

O Poder arbitrário da Palavra Escrita

A História que jamais será contada

ALima

O insensato busca o poder para imbuir-se da falsa sensação de eternidade, mesmo sabendo que, tanto quanto ele, sucumbirá a obra que por ventura vier a produzir, não sendo essa suficientemente meritória.

Mata pelo poder. Destrói. Trai. Corrompe e se deixa corromper. 

Não me refiro apenas ao poder da grana e das armas - se bem seja esse último o que eleva o outro à condição de opressor máximo da humanidade. Faço alusão a mais terrível e devastadora de todas as tiranias, que emana de sutil sistema supostamente essencial ao desenvolvimento da raça: o poder da palavra escrita, com toda sua descomunal teia disseminadora de farsas no mundo globalizado, seja através de livros, jornais e revistas impressos ou qualquer outro tipo de mídia que surja no rastro das tecnologias mais avançadas, a exemplo da própria internet. 

Um universo, portanto, que tanto poderá nos trazer algum benefício, quanto nos arruinar de modo irreversível, dependendo tão somente do interesse de quem o manipula. 

Começa por ser um poder que estabelece as obras que serão publicadas, assim como os autores a serem legitimados ou destruídos. 

O poderoso segmento da imprensa, por exemplo, escolherá o tipo de notícia a ser direcionada ao grande público ou desse sonegada, assim como os motores de busca da internet determinarão o modelo de texto que deve ou não ser lido no mundo virtual. 

Observem que até os softwares são programados para limitarem o texto do cidadão que pensa: ao digitar um artigo qualquer, mal você começa a desenvolver seu raciocínio, a máquina informará que você está se excedendo em palavras. Um texto como este, por exemplo, jamais será lido pelo grande público internético. No máximo dois ou três navegantes o abrirão por acaso, numa pesquisa aleatória. Enquanto isso, a tolice proferida por um midiático qualquer, com propósito único de induzir ao consumo ou formar a falsa opinião, levará a milhares de acessos. E todo esse descalabro, evidentemente, com ares de legalidade, vez que endossado pelos mandatários de outros poderes não menos espúrios, o que nos mostra claramente o quanto de informações preciosas nos tem sido sonegadas ao longo da história, nos levando a conceber idéias distorcidas sobre os fatos mais relevantes que delinearam a trajetória humana.

Imaginemos o quanto a humanidade teria registrado em papiros desde 3200 anos de Cristo, quando o homem obteve o domínio da escrita e passou a contabilizar os seus produtos, arrecadações, ao mesmo tempo em que também se desenvolvia no mundo alguma forma de pensamento artístico ou filosófico em que muitos se davam às anotações desses fatos como processo natural da evolução do indivíduo. Tudo isso, claro, para que, dois mil e tantos anos depois, outro sujeito tivesse a sublime ideia de criar uma magnífica biblioteca que pudesse abrigar toda essa substância cultural produzida até então, longe de imaginar que um sacripanta lhe arrebataria o poder e simplesmente destruiria tudo, sob alegativa de que nada daquilo teria qualquer valor para as gerações futuras.

Quando o cara mandou tocar fogo na Biblioteca de Alexandria, certamente não exercitava ali apenas o seu poder arbitrário, satisfazendo assim alguma de suas taras. Queria, mais que isso, estabelecer um conceito, implementar uma ideia. Apagar da história tudo aquilo que fosse contrário ao seu próprio pensamento. Uma monstruosidade cujo malefício para a humanidade jamais poderia ser dimensionado em toda sua extensão. Ora, se o tirano preservou apenas os trabalhos de meia dúzia de pensadores, o que nos garantiria que não houvesse ali naquele precioso acervo destruído outros filósofos da mesma envergadura desses, porém com outra visão do mundo?! Quantos poetas épicos, sábios, profetas ou mesmo simples e sinceros observadores das coisas do seu tempo teriam realmente escapado daquela insanidade?

Se fizermos ligeiro retrospecto sobre a História da Literatura na era dito moderna, ou da Filosofia e das artes de um modo geral, qualquer estudioso será capaz de enumerar todos os movimentos e correntes, em qualquer parte do mundo, inclusive com citação de seus signatários, autores e livros mais representativos, embora isso em nada nos assegure que estejamos diante do melhor e mais representativo de uma época.

Conclusão: nada sabemos da verdadeira história da humanidade e por isso mesmo temos sido presas fáceis dos tiranos da palavra ao longo do tempo.

THOMAS É BOB, DYLAN É THOMAS

Por Astolfo Lima


Dylan Thomas, o poeta galês com quem Bob Dylan associou-se no nome e no sentimentalismo, começou a fazer poesia, de ouvido, ainda criança, dado que o pai costumava recitar-lhe Shakespeare antes mesmo que aprendesse a ler.

Assim como Bob, ou a exemplo de Thomas, ambos detestavam o ensino convencional das escolas, abrindo exceção apenas para a língua inglesa e a literatura - exercícios em que se tornariam exímios malabaristas, cada um a seu modo, porém guardando, os dois, fortes semelhanças na eclosão de seus respectivos sentimentos.

Com 18 anos, por exemplo, Thomas já havia escrito a parte mais substancial de sua poesia, como se sentisse uma necessidade quase absurda de proferir num só fluxo tudo aquilo que o inquietava. Mais contido, porém não menos obstinado na construção de sua obra, Bob Dylan com essa mesma idade vislumbrou o folk como mais adequado que o rock tradicional para escoar seus versos de largo curso. 

Com vinte anos, já em Londres, Thomas ganha um premio de poesias e publica seu primeiro livro: 18 Poemas, obtendo grande sucesso. É quando Bob, na mesma idade, resolve incorporar Dylan à sua alma, abdicando ao próprio nome, que seria mera imposição familiar, uma vez que não escolhera se chamar Robert Allen Zimmerman.

Sobre essa opção, Bob Dylan daria a seguinte explicação em sua auto-biografia:
"Eu havia visto alguns poemas de Dylan Thomas. A pronúncia de Dylann e Allyn era parecida..." E por aí segue Dylan na sua justificativa, até concluí-la com estas palavras: "A primeira vez que me perguntaram meu nome em Saint Paul, instintiva e automaticamente soltei: 'Bob Dylan'".

Embora entrasse em rota de colisão com a escrita de seus contemporâneos mais renomados, T S Eliot e W.H. Auden, o lirismo intenso e emotivo de Thomas, por vezes beirando o romantismo, não passaria despercebido aos cultores  da boa poesia, até pelas nuances que também perpassavam o surrealismo inglês ou algo assim. Emoção. Pura emoção e espontaneidade, assim como na música de Bob. À margem das questões sociais e intelectuais propugnadas por Auden e Eliot, mas não menos significativa e intensa.

O Nobel a Bob Dylan, portanto, é válido porque também contempla a poesia de Dylan Thomas.

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12/12/2016

O EXPERIMENTO DE MACHADO DE ASSIS E EDGAR ALLAN POE

Por Astolfo Lima


Depois de ler “O Experimento do Dr. Pena e do Professor Abreu”, de Edgar Allan Poe, Carolina se aproximou de Machado de Assis e disse, a sorrir: “gostaria muito que você escrevesse um conto assim”.

Machado mirou a esposa, por sobre o pince-nez, recolheu o livro que ela lhe oferecia e respondeu que na primeira oportunidade cuidaria de ler aquela história que tanto a impressionara.

Quinze dias depois, Machado entregaria à Carolina os originais de O Alienista, com a seguinte observação: “Talvez Edgar Allan Poe quisesse dizer isto”.

Portanto, caríssimo leitor, se o amigo já teve a oportunidade de ler os dois contos aqui referidos, saiba que jamais passou pela cabeça do genial Machado de Assis plagiar Edgar Allan Poe. Nosso mestre apenas aceitou a provocação de sua amada Carolina, assim como já o fizera quando na feitura do Memórias Póstumas de Brás Cubas” ou “Dom Casmurro”.

O bruxo do Cosme Velho não precisaria se valer de temas alheios para construir belas narrativas, mesmo porque suas cópias, nos diferentes temas imagináveis, seriam sempre mais atraentes que os originais de qualquer escritor. Só Machado sabia como conceder picardia a suas histórias, envolvendo-as com refinada ironia, bem ao gosto do destinatário.

O Alienista, portanto, não é o traslado perfeito de "O Experimento do Dr. Pena e do Professor Abreu", conforme apregoam os aficionados por Edgar Allan Poe. Os dois mestres apenas tomam um hospício como ambiente central de suas tramas, sendo que na narrativa imaginada por Machado as personagens serão, desde logo, captadas como surreais, espalhafatosas ou engraçadas, deixando no leitor a expectativa de um desfecho suave, ao passo que, em Poe, ficará no ar, desde o primeiro instante, todo um clima sombrio, com personagens tensas, em que o final, invariavelmente, deverá ser trágico.

Diz Allan Poe, logo de cara, no seu conto O Alienista: "Durante o outono de 18... (tempo remoto, provavelmente uma época de grande infortúnio – suponho) visitei as províncias do sul da França...". Aqui, Machado suaviza: "As crônicas da Vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos..." (algo semelhante às agradabilíssimas estórias de Troncoso).

O Hospício de Poe instala-se em um bosque espesso, ao pé de uma montanha (que sugere medo). O de Machado, na Serra do Mar, em acolhedora província.

O personagem central no conto de Poe (Sr. Mailard) é um cavalheiro, aspecto nobre, maneiras finíssimas, um certo ar de gravidade que cultivava simpatias e infundia respeito, um homem que fizera longo estudo da fisiologia da loucura. Ou seja, um cara imprevisível inserido em um ambiente estranho.

Já o personagem de Machado (Dr. Bacamarte) era filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas, e também estudara minunciosamente a patologia cerebral. Ou seja: uma figura caricata, inofensiva e posta na trama apenas para nos divertir.

O estabelecimento de Poe fora organizado de modo a evitar ali o emprego de qualquer tipo de castigo (Sistema de Brandura), o que leva o leitor a supor que atrocidades ocorrerão a qualquer momento. O Dr. Bacamarte também tinha o seu sistema, porém esse, desde logo, se percebe que é apenas um desvario de seu formulador.

Nos dois contos há uma rebelião, que levará a nada, posto que as pessoas agem muito mais pela vaidade, o bem estar pessoal. Poucos são aqueles que realmente se doam por uma causa coletiva.

A galeria de doidos, no geral, equipara-se nas duas narrativas: o doido por amor, o visionário, o engraçado, aquele que faz discursos como se fora Cícero, o que propõe revoluções como se fora um general, o aparentemente bom do juízo que na verdade é o mais maluco de todos, e assim vai.

Ao final, a mesma mensagem: os fracos de caráter serão sempre a grande maioria em qualquer sociedade; os bons, muito poucos. Outra: é mais fácil corromper um justo (que são poucos) do que consertar um canalha (que forma a grande massa do gênero humano).

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11/12/2016

ENCONTRO DE WOODY ALLEN COM MACHADO DE ASSIS, EM PARIS

Conto de Astolfo Lima

Woody Allen enganchou na cara o par de óculos aro de tartaruga com lentes pretas na espessura do fundo da garrafa de champanha da qual sorvera dois goles minutos antes em reunião extremamente desnecessária e idiota com editores suecos e enfiou-se porta adentro do refinado antiquário, no Quartier Latin, em Paris. 

Queria, antes de tudo, safar-se dos curiosos. Permanecer incógnito e bem distante das aporrinhações por autógrafos e elogios pífios sobre sua obra cinematográfica, que, a bem dizer-se, jamais considerara grande coisa.

De início, Woody Allen postou-se diante de uma imitação perfeita de Picasso pendurada na parede, que, em rápida avaliação, considerou bem superior ao original, e logo em seguida acenou para jovem e elegante senhorita que acabara de atender a um casal de velhos norte-americanos.

"Quanto custa?" – indagou Woody, em francês, quase sem sotaque, constatando no ato que seu disfarce estava perfeito, dado que a jovem lhe responderia seca e profissionalmente como se estivesse diante de um pauvre acheteur

Por instantes, Allen até sentiu ímpetos de avançar sobre o pescoço da moça e dizer pausado no seu branquíssimo pé de ouvido: "Olha, eu sou Woody Allen! Eu dirigi Broadway Danny Rose; por acaso conhece?! Preferiu, porém, ser apenas mais lacônico que o habitual: 

"Ok, eu pagaria mais por essa peça; reserve!".

Um tanto sem graça, Woody dirigiu-se ao salão que abrigava belíssimas estantes, todas repletas de livros raros. Foi quando deparou a luxuosa edição de Mémoires Posthumes de Braz Cubas, traduzida por Adrien Delpech e publicada pela Garnier no ano da graça de 1911. 

Impressionara-o muito mais a encadernação de época, que propriamente a obra, cujo escritor jamais ouvira falar em todas suas andanças e gastanças por esse mundão de inutilidades várias. Ainda assim, Allen começou a folhear o livro, momento em que arrancou bruscamente os óculos da cara no sentido de enxergar melhor, denunciando assim sua verdadeira identidade. 

"Mon Dieu, c'est Woody Allen! Quelle agréable surprise!" –  proferiu a mocinha de antes, sacando não se sabe de onde um caderninho e lhe solicitando um autógrafo.

Woody nem ouviu. Parecia atordoado com a breve leitura daquele autor marginal. Apenas exclamava, baixinho, para si mesmo: "pu ta que pa riuuu!", em inglês ou francês, não vai ao caso. Em determinado momento, Woody Allen já nem sabia se sorria ou soluçava de emoção diante da descoberta que considerou simplesmente fantástica. Então fez as duas coisas ao mesmo tempo, sem melindres: riu e chorou, perguntando-se como ele e o restante do mundo haviam ignorado por tanto tempo um artista tão genial como Machado de Assis.


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10/12/2016

VICTOR HUGO VIU EM RIMBAUD UM MERO SHAKESPEARE INFANTIL

Por Astolfo Lima


Ao adentrar a loja do armeiro Jerome, Paul Verlaine cambaleava um pouco, o que causaria certa preocupação no velho amigo com quem costumava passar horas a conversar sobre armas antigas. 

Gestos um tanto arrebatados e voz claudicante, o poeta disse estar precisando de uma boa arma, no que o dono da loja lhe indicou bela pistola Bunney 1852, supondo que Verlaine buscasse apenas mais uma peça para sua coleção particular, o que fazia com frequência. 

Jerome só começou a desconfiar de que algo grave poderia se embutir naquela atitude do amigo quando o poeta solicitou razoável quantidade de munição. De todo modo, fez-lhe a venda, acreditando que Paul estaria apenas embriagado, como de costume. 

Outros testemunhos, entanto, afirmam que Verlaine mão estava bêbado ao adquirir a tal arma e muito menos quando desferiu um tiro à queima-roupa contra Arthur Rimbaud, atingindo-o de raspão. Encontrava-se simplesmente corroído pelo ciúme, que o fizera inclusive abandonar a esposa Mathilde juntamente com o pequeno Jean, filho único do casal, em quem o enfurecido Paul ainda aplicaria piparotes, antes de se retirar para cometer o tresloucado gesto.

A versão de embriaguez só ganha importância pelo fato de que Rimbaud pôde dominar facilmente o colega, tomando-lhe a pistola antes que fizesse o segundo disparo, acertando depois dois chutes no seu traseiro e vociferando: "Sert de leçon, bâtard d'une figue!". 

Uma colocação – diga-se – que também coincide com afirmações de Mallarmé, Paul Valéry, Albert Samain e vários outros vates alucinados que costumavam acompanhar les amants em atormentadas noites absínticas. 

Mal explicado no sucedido, apenas o fato de Verlaine ter sido preso por tentativa de homicídio, mesmo não havendo denúncia formal contra si, enquanto Rimbaud partia livre no rumo da África, abdicando de uma até então vitoriosa trajetória poética, se bem que um tanto chamuscada naquele momento pela irônica declaração de Victor Hugo, que vira em Rimbaud um mero Shakespeare infantil.

Sobre esse desfecho melancólico, aliás, a crônica mundana da época também tem a sua interpretação, que evidentemente não pode ser dada como definitiva: Rimbaud ficara bastante deprimido com as declarações de Hugo, sim, porém o motivo real que o levara à fuga para outro continente atendia a um interesse de ordem meramente pecuniária: o jovem Arthur Rimbaud achava que negociando armas e traficando escravos, logo enriqueceria, podendo dessa forma dedicar-se em tempo integral à sua poesia.

Só não contava com a garra traiçoeira do destino, que o arrebataria no instante em que preparava sua grande cartada.

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08/12/2016

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: A CABRA DO CHICO DA MATILDE

Por Astolfo Lima


O biscateiro Chico da Matilde morava lá pras bandas do Buraco da Gia, mas era frequentador assíduo da nossa rua, onde gozava de boa reputação por encarar sempre os piores serviços sem nunca reclamar, mesmo que o pagamento não fosse lá essas coisas. Quisesse desentupir uma fossa, remover um entulho ou cavar uma cacimba, bastava dar um toque, patrocinar-lhe uma meiota de pinga e estava resolvido o problema.

Tratava-se de um caboclo parrudo, já meio velho, desdentado e manco duma perna, porém mais disposto que a gota serena. Só andava com uma peixeira enfiada no cós das calças, e ai daquele que se metesse a besta com qualquer morador do bairro. O próprio Zé Bacurau, que se dizia samango aposentado e vivia de caguetar todo mundo no distrito policial, falava manso com Chico da Matilde. O codinome era uma referência ao fato de Chico viver amancebado com uma ex-rapariga do velho Farol do Mucuripe que se notabilizaria mais tarde como grande conselheira do lar e cartomante. Casamento encrencado, onda de chifre ou falta de grana, era só consultar a Matilde e ela daria as coordenadas na hora.

Um dia, lá pelo ano em que Roberto Carlos estourava nas rádios com a música Splish Splash, Chico da Matilde apareceu na bodega do Juarez arrastando uma cabra véa magra que havia recebido como paga de um serviço, e anunciando que iria engordá-la para, depois, reunir a rapaziada e comerem a dita cuja com cachaça, em vista do que já estavam todos convidados, da mesma forma como aceitaria na boa - disse - qualquer oferta de capim, casca de feijão ou milho. Zeca, o carga-torta de sempre da nossa turma, querendo derrubar o serviço do Chico da Matilde, disse que ele estava a fim mesmo era de cevar a bicha as custas dos otários, para vendê-la mais tarde na feira do sítio Bom Futuro.

Pelo sim, pelo não, verdade é que todo mundo passou a ajudar na nutrição da cabra, a essas alturas já devidamente alojada numa casa velha abandonada da rua de cima. Pepe Oião - o maior biriteiro da paróquia - não podia ver um montinho de grama pela rua que ia logo arrancando, para alimentar a dita cuja. Às vezes invadia os jardins da vizinhança para quebrar plantas, como fez na casa da Perpétua, arrancando um pé de taioba pelo tronco e sendo expulso a vassouradas.

Outros papudinhos conseguiam milho recolhendo dos descarregamentos no mercado São Sebastião, de modo que a cabra logo ganhou peso, sendo até batizada com o sugestivo nome de Bola de Neve. Ou seja: prontinha para o abate, mas sem que o Chico se manifestasse. A turma dando em cima, e ele saindo sempre pela tangente, enquanto Zeca atiçava os ânimos dizendo que Chico da Matilde ainda tinha a cara de pau de desfilar toda tarde arrastando a bicha por uma corda, como se estivesse querendo apenas exibir a qualidade da mercadoria. Para envenenar ainda mais, disse que no dia anterior vira Chico no maior papo com o Crispim, dono do açougue, tudo levando a crer que estariam negociando Bola de Neve. Foi o suficiente. Os biriteiros, todos revoltados, arquitetaram logo um plano para sequestrar a cabra.

Por coincidência, esse entrevero se deu em vésperas da queima do Judas, e naquele tempo a parte mais interessante desse festejo, em nosso bairro, além da leitura do testamento, lógico, era o furto de penosas nos quintais dos conhecidos. Toda a turma se mobilizava e cada garoto recebia uma tarefa: uns se encarregavam de conseguir plantas para o sítio; outros, de encontrar o pau da forca, e outros mais da nada gloriosa missão de furtar galinhas, o que geralmente ocorria nos quintais de nossas próprias casas.

Acontece que naquele dia (sempre tem um porém nessas ocasiões mais graves) todo mundo havia redobrado a vigilância em seus poleiros, e assim acabaria sobrando para quem? Para Bola de Neve, claro. Covardia das covardias, de modo que me recuso à narrativa de detalhes. 

Só sei que depois do justiçamento do boneco de pano, rolou a maior comilança e beberança no terreiro do Zé Bigode, sem a presença de Chico da Matilde, que passara a noite toda cavando uma fossa la no Jardim América. Quando deu as caras já estava sabendo do sucedido e todos esperando que aprontasse a maior araca, ainda mais porque vinha "queimado', camisa aberta, deixando à mostra o cabo da "12 polegadas", e ainda rangendo os dentes. Mas qual o quê! Chico da Matilde apenas encarou a moçada, meio cambaleante, e soltou esta: "Arre égua, negada, foi muita covardia. Num deixaram pra mim nem a fuçura..."

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01/12/2016

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: BETO PÉ DE ANJO

Por Astolfo Lima


Quando Beto Pé de Anjo apareceu na bodega do Juarez às quatro da tarde, todo produzido e com sua radiola portátil debaixo do braço, a negada imaginou logo que a tertúlia se daria dali há pouco. 

O bicho vinha enfiado num blusão de couro, óculos escuros aro de tartaruga cobrindo metade da cara, calça Far-West de cano estreito e sapatinhos de camurça branca, mais parecendo um rabo-de-burro, se bem fosse o Beto um pacato boa vida, filho dum galego que possuía pra mais de mil e oitocentos fregueses no cartão, ou seja: enquanto o velho abastecia meia Fortaleza de chitas e morins, Beto Pé de Anjo papocava grana no varejo, desviando aqui e ali uma faturinha, de modos que vivia patrocinando bailes, papando as cabrochas do Tiradentes e fazendo inveja aos lisos. 

Pensem num cabra pra gostar de tertúlia! Não perdia uma, fosse onde fosse, levando sempre sua vitrola e expressivo repertório de long-playings e compactos duplos, em que se destacavam Paul Anka, Neil Sedaka e Elvis Presley; de brasileiros, apenas Cely Campelo e Carlos Gonzaga. Atentem: quando falo em tertúlia, não me refiro à reunião de literatos, mas a bate-coxas, também conhecido vulgarmente como mela-cuecas, em luz negra, que se realizavam em clubes suburbanos de Fortaleza ou em casas de amigos - um modismo muito gostoso nos gloriosos anos de minha primeira juventude.

Animados, os caras foram logo cercando Pé de Anjo e querendo saber onde se daria o evento, enquanto as mocinhas da vizinhança também se aproximavam, todas já planejando o traço que dariam em seus pais quadradões, ouvintes de Nelson Gonçalves e que detestavam ver as filhas nos embalos de fim de semana, sobretudo na companhia de desocupados que nem nós. 

Beto fazendo mistério, tirando casquinha numa e noutra menina, distribuindo chicletes e dizendo finalmente que a festa daquele sábado seria na sua casa mesmo, já que os pais haviam viajado para o interior, mas só começaria no horário de sempre: oito da noite. Quanto ao fato de estar ali, com a radiola, tão cedo, era porque tinha algo a mostrar pra rapaziada, e foi  logo colocando o toca-discos em cima do balcão da mercearia, em seguida jogou um bolachão no prato e, antes de acionar o play, proferiu, todo orgulhoso: "vou mostrar pra vocês a nova sensação do momento no mundo todo. Aqui no Brasil, até agora, a novidade só chegou ao Rio de Janeiro, mas consegui o disco com um amigo meu lá do Montese. Por enquanto vou apresentar apenas alguns passos, ok?".

"Ei, pera aí, que esculhambação é essa aqui no meu estabelecimento?" - gritou de lá o Juarez, sem um pingo de moral e começando a "se abrir" quando Pé de Anjo mandou descer uma rodada de  coca-cola pros parças, uma carteira de continental e uma quartota de douradinha pro Zé Bigorna, o biriteiro mais gente fina que havia no bairro, originário dos melhores troncos genealógicos da loura desposada do sol, mas que, infelizmente, perdera a batalha pra cachaça. Passava ele o dia todo executando serviços insignificantes a troco de moedinhas com que alimentava o próprio vício. Um resto de dignidade, talvez, informação genética - coisas assim. As senhoras de bem, da rua de cima, lhe davam marmitas e roupas. À noite, Zé Bigorna se recolhia a casa imunda que lhe restara de herança, porém essa é outra história.

Mal a vitrola começou a troar Let's Twist Again, Beto Pé de Anjo deu rápida quebra de asa e iniciou o mexe-mexe, com os pés semi-colados ao chão, para um lado e outro como se estivesse esmagando barata, alternando movimentos rápidos e lentos, o corpo em requebros, subindo e descendo que nem uma carrapeta, braços frenéticos, traseiro encolhendo e arrebitando, o suficiente para que o Pirrita dissesse bem alto que aquilo ali era dança de baitola. "Tá com inveja, né, seu fela da puta - respondeu Beto Pé de Anjo fazendo sinal de "espera pra ver", mas sem perder o ritmo.

"Ora, inveja. Onde já se viu dança sem ser agarrado com mulher e fungando no cangote? Isso aí é viadagem, isto sim" - rebateu Pirrita se afastando de fininho, pois é certo que Beto Pé de Anjo não deixaria barato aquela afronta, ainda mais sendo proferida no meio de tantas cocotinhas...

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24/11/2016

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: A FITINHA VERMELHA DO RONIVON

Por Astolfo Lima


No dia em que Ronivon sumiu, todo mundo ficou suspeitando de todo mundo na nossa rua.

Tratava-se de um siamês manhoso que usava fitinha vermelha no pescoço e era o xodó da Perpétua, uma coroa encardida que discutia com os vizinhos e costumava rasgar bolas a canivetadas, tantas caíssem no seu quintal.

"Se essa rapariga rasgar uma bola minha, eu dou fim nesse gato réi aviadado" - dizia o Zeca, um carga-torta da nossa rua, sem se tocar que poderia se perder pela boca larga.

Outro muito íntimo do bichano era o Seu Filó, um aposentado da RVC, que gastava o tempo coçando os respectivos, sentado num banco da bodega do Juarez, onde colhia as novidades e fazia reminiscências da Fortaleza anos quarenta/cinquenta e suas assombrações lá pras bandas da Estação Luís Felipe, quando ele ainda manobrava uma velha maria-fumaça.

Mal amanhecia o dia, Seu Filó dava logo as caras na bodega, um casarão parede-meia com a casa da referida Perpétua e também extensão dos aposentos de Ronivon, que vinha pelos fundos, passeando por entre as prateleiras, na maior intimidade, para se aboletar sobre os engradados de grapete e guaraná Wilson.

Ô bicho famoso! - dizia o Seu Filó, alisando Ronivon. O gato dava recuo de cabeça e erguia uma das patinhas, numa espécie de aversão natural àquele afago besta, ou, sei lá, talvez até por premonição, se é que um felino possua a mesma capacidade sensorial dos humanos, e também se fizesse sentido a má fama do velho Filomeno de que muito apreciaria um ensopado de... gato.

Tudo papo-furado, creio, se bem que Seu Filó criasse em sua casa vários bichanos e vez por outra convidasse os papudinhos para uma rodada de cachaça  Colonial regada a carne de bode, o que só reforçava a suspeita de que ele, na verdade,  fazia apenas a engorda dos animais, para depois, crau, como se fosse carne de criação.

Pelo sim, pelo não, embora tenha sido eu um atento observador de tudo que ocorresse no quadrilátero que ia da minha casa, passando pelo terreiro da Dona Maroca, subindo a rua dos campos até chegar ao mercado, prefiro ficar neutro, mesmo porque muitos personagens de minhas crônicas da primeira juventude ainda permanecem vivinhos da silva, graças a Deus, e não quero me complicar.

Verdade, contudo, é que uma reca de indivíduos vivia de olho no Ronivon, fosse por apreciar a sua altivez, fosse por odiar a dona, ou fosse ainda por interesse de ordem meramente pecuniária, vez que naquela gloriosa quadra da vida suburbana fortalezense era comum aparecerem por aqui alguns circos caindo aos pedaços, todos com suas magníficas atrações, geralmente leões já um tanto relapsos às ordens do domador, porém famintos e insaciáveis.

Por uma dessas fatídicas coincidências, no dia em que Ronivon desapareceu, uma companhia de nome estrambólico acabava de erguer mastro num descampado das proximidades, e correra boato de que os donos estariam pagando cinco cruzeiros por gato vivo ou morto.

Uma balela, provavelmente; ou não? De todo modo, o que importa é que o gato estava sumido, a Perpétua no desespero, e uma ruma de suspeitos.

Zé Bacurau - um véi careca que vivia metido num terno branco e se dizia autoridade não se sabe de quê e que tomara para si a incumbência de caguetar no Distrito Policial qualquer coisa que considerasse fora dos conformes em nosso bairro, a exemplo de briga de galos, jogo de baralho na esquina do Juarez, malhação de Judas etc, já se pusera à disposição de Perpétua, para investigar o caso e punir o criminoso. A propósito do Zé Bacurau, tenho uma historinha sensacional em que foi protagonista, e que narrarei em outra oportunidade. Mas voltemos ao que interessa.

Certa manhã, quase dois meses depois do sumiço de Ronivon, Zeca apareceu na bodega dizendo que tinha visto o gato numa casa lá no Campo do Pio.

Conversa - gritou de lá o Seu Filó, informando que gato não se acostuma em casa estranha. Se fosse ele, já teria voltado.

Juarez, que geralmente só fazia gargalhar com as histórias que rolavam em seu estabelecimento, desta vez emitiu sua opinião: faz sentido, sim, o bicho pode estar desorientado; melhor chamar a Perpétua.

Nem precisou, a coroa logo apareceu, agoniada, querendo ir à residência onde Ronivon fora visto pela última vez. Zeca argumentou ser a casa de difícil acesso, que o dono era brabo, mas se Perpétua lhe desse dez mangos, ele iria buscar o "bichim". "Eu dou quando você voltar",  disse Perpétua, roendo a unha, porém o carga-torta queria a grana no ato e não teve jeito.

Horas depois apareceu o Zeca, muito suado e trazendo uma trouxa pendurado às costas. "Deu trabalho, mas consegui" - foi logo valorizando.

Perpétua, trêmula, avançou imediatamente na sua direção, abrindo a boca do saco. Para quê! O bicho fez um fuuuuuuuuuuuu raivoso, "azunhando" o braço da coroa e desembestando no rumo da Bezerra de Menezes.

Alvoroço medonho. Uns dizendo que não se tratava de Ronivon; outros afirmando que sim; Juarez se abrindo; Zeca se mandando de fininho; e Perpétua, desolada, constatando apenas que o bicho não carregava mais a fitinha no pescoço.

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