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Leia isto e muito mais!

A Literatura no Ceará

Letras e Rabiscos na Terra de Manezim do Bispo

Fragmentos de um livro em preparo




Escritores Ao Sopro da Maria-fumaça


Por ALimaS


A literatura no Ceará desenvolveu-se através de consórcios, se bem que os escritores mais talentosos, quase sempre, optassem pela carreira solo. Grupos ou corriolas (no bom sentido, claro) que se reunirem em clubes, associações de classes ou mesmo em torno de uma autoridade, como ocorreu logo em seus primórdios, por volta de 1813, quando rapazes bem posicionados na sociedade provinciana passaram a frequentar assiduamente o palacete governamental para tecerem loas ao Sr. Manoel Inácio de Sampaio.

Versejadores de ocasião: alguns, de boa índole, embora fracos no mister de construir versos; outros, provavelmente, de olho nas benesses do Estado - uma prática, aliás, que haveria de se estender de pai para filhos, compreendendo velho tronco genealógico de quatro ou cinco famílias a abarcarem simplesmente tudo na Terra do Comendador Luís Sucupira, desde os postos estraté…
Postagens recentes

Lacunas - Poema foto-dilacerante de ALimaS

LACUNAS

Poema foto-dilacerante de ALimaS


o verso difuso do poeta
perpetua-se em giz
pauta o infortúnio
dilacera a razão
promove o delírio
e morre

a lágrima insopitável da musa
eleva o sentimento
poda cicatrizes
cristaliza neurose
subverte o riso
e vive

a intrepidez do poeta
é desesperança
dos lírios e malmequeres
petúnias e dálias
todos os brotos por ventura recorrentes
e flui

o efluxo delituoso da ninfa
corrompe a reflexão
o silêncio
a inquietude
qualquer gesto de benevolência
e vinga

o lirismo magno do poeta
fragmenta melancolia
embevece a rima
dimensiona a própria áurea
depois se espedaça
como vidro

madrugada
ela desliza o lençol sob minha insensatez
beija-me a paz
e se recolhe a outro dormitório
faz antes um gesto de despedida
como se fugisse para o céu
sentisse que o nosso reencontro só se dará
muito tempo depois
já à mesa
para o café

fique - rogo-lhe
não temamos a noite interminável
terá de volta o meu riso - prometo
mesmo sem a contrapartida do seu
até pela desnecessidade das fo…

O MISTERIOSO SUMIÇO DE DONA GUIDINHA DO POÇO

Por ALimaS

Os originais de "Dona Guidinha do Poço", obra vigorosa de Oliveira Paiva, permaneceram por mais de meio século na obscuridade, correndo de mão em mão, depois de terem sido confiados a Antonio Sales para que fossem publicados no Rio de Janeiro - o que, infelizmente, jamais ocorreria em tempo, por conta de misterioso sumiço.

Não fosse pela obstinação de Lúcia Miguel Pereira, afamada pesquisadora de literatura, que os resgataria mais tarde das mãos de Eurico Facó e logo recomendaria sua publicação pela editora Saraiva, abrindo a série "Romances do Brasil", em 1952, o país, hoje, provavelmente, não saberia da existência desse escritor genial.

O romance Dona Guidinha do Poço é de tal magnitude criativa, que, mesmo tendo permanecido sequestrado por tanto tempo, não perdeu seu vigor, mantendo-se até os dias atuais como uma das narrativas mais empolgantes de toda a fase naturalista no Brasil.

Nela, o ritmo exato que se deve conceder aos relatos extraídos da crôn…

BUKOWSKI NUTRIA-SE DE POEMAS SUJOS E PROSTITUTAS DEPRAVADAS

Conto de Astolfo Lima

Aos treze anos, Bukowski disse, numa roda de garotos, que só haveria de se sentir plenamente realizado no dia em que acertasse uma bordoada de jeito na fuça do seu encardido genitor, um casca-grossa que costumava espichar-lhe o couro para escoar frustrações que lhe permeavam a vida chinfrim. "Let it be!"
Vociferou esse seu intento enquanto os colegas, um a um, perfilavam anseios mais brandos: um querendo se tornar aviador quando crescesse; outro, maquinista de trem; outro mais, artista de cinema, cantor de blues ou boxeur, e assim sucessivamente, como ocorre naquela fase inconsequente e pueril de todo adolescente. 
"Assim farei, ainda que necessite dar o fato como lastimável acidente doméstico, em que, postando-me ao corredor da casa, armado com fornido taco de beisebol, simularei rebatidas de bola como se desejasse não mais que aperfeiçoar jogadas para marcar presença no colégio, onde todos me discriminam por conta de minha pouca habilidade nesse …

THOMAS É BOB, DYLAN É THOMAS

Por James Kafka

Dylan Thomas, o poeta galês com quem Bob Dylan associou-se no nome e no sentimentalismo, começou a fazer poesia, de ouvido, ainda criança, dado que o pai costumava recitar-lhe Shakespeare antes mesmo que aprendesse a ler.
Assim como Bob, ou a exemplo de Thomas, ambos detestavam o ensino convencional das escolas, abrindo exceção apenas à língua pátria e a literatura - exercícios em que se tornariam exímios malabaristas, cada um a seu modo, porém guardando, os dois, fortes semelhanças na eclosão de seus respectivos sentimentos.
Com 18 anos, por exemplo, Thomas já havia escrito a parte mais substancial de sua poesia, como se sentisse uma necessidade quase absurda de proferir num só fluxo tudo aquilo que o inquietava. Mais contido, ainda que não menos obstinado na construção de sua obra, Bob Dylan com essa mesma idade vislumbrou o folk como mais adequado para escoar seus versos de largo curso, descartando de vez o rock tradicional. 
Com vinte anos, já em Londres, Thomas ga…

A Fortuna Derivada do Livro-brinquedo

Por James Kafka


Livro por metro quadrado
Vinte anos trabalhando com livros. Primeiro como vendedor de enciclopédias, em plena ditadura, porque era essa a única forma de livrar algum sem que precisasse mostrar documentos, carteira assinada, essas coisas. Expulso da Armada, por conta de minhas idéias contrárias a ordem vigente, sem lenço nem documento, era pegar ou largar. 
 O gosto pelos livros, contudo, já era coisa antiga, embora fosse eu apenas um cara metido a cometer versos capengas e tudo mais como todo jovem quando conhece a primeira namorada e começa a escrever umas coisas. 
Pensei: vou unir o útil ao agradável. Deu no que deu. 
Depois da aventura pelo mundo das enciclopédias, resolvi trabalhar com livros fora de catálogos, antigos, obras raras, sobretudo aquelas que as viúvas põem no lixão quando o marido embarca para a terra do nunca, se não forem antes devorados pelos cupins (os livros, claro). 
Experiência, portanto, em lidar com livros de papel, tenho alguma; não digo de es…