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RAPSÓDIA RUBRA

Por ALimaS


Quando Karl Marx previu a morte do Capital e o advento de uma sociedade voltada para as artes, quis dizer: "voltada para o software".
Somos atores e plateias previamente elaborados, virtuais e infinitos.
Dispersos do nosso próprio tempo.
Ou inseridos em todos.
A cultuar mitos.
Ou destituí-los.
E divagar em ideias já estabelecidas.
Válidas ou fraudulentas.
O destinatário de uma obra nem sempre será receptivo ao que lhe tenta dizer o artista.
Literatura não é arte de entretenimento.
Todo artista caminha sobre o vértice que separa a sensatez da loucura.
Impossível determinar quem seria lúcido ou parvo na presente quadra da nossa história.
O tolo, geralmente, vocifera que escreve para a posteridade.
O sábio vislumbra a posteridade.
Erasmo de Roterdã já previa os desvarios da raça humana através dos tempos.
E o supremo papel que a cada um de nós teria sido reservado.
Por força da nossa estupidez ou sabedoria.
Na absurda epopeia da vida os mistificadores só se acercam de palhaços genuina…
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ENCONTRO DE WOODY ALLEN COM MACHADO DE ASSIS, EM PARIS

Conto de A. Lima




Woody Allen enganchou na cara o par de óculos aro de tartaruga em lentes pretas com a mesma espessura do fundo da garrafa de champanha da qual sorvera dois goles minutos antes em reunião extremamente desnecessária e idiota com editores suecos, e enfiou-se porta adentro no refinado antiquário do Quartier Latin, em Paris. 
Queria, antes de tudo, safar-se dos curiosos. Permanecer incógnito e bem distante das aporrinhações por autógrafos e elogios pífios à sua obra cinematográfica, que, a bem dizer-se, jamais considerara grande coisa.
De início, Allen postou-se diante de uma imitação perfeita de Picasso pendurada de modo estratégico numa parede bordô, que, em rápida avaliação, considerou bem superior ao original, e em seguida acenou a uma jovem e elegante senhorita que acabara de atender a um casal de idosos norte-americanos.
"Quanto custa?" – indagou Woody, em francês, quase sem sotaque, constatando no ato que seu disfarce estava perfeito, dado que a jovem lhe …

A NÃO CRÔNICA DA NÃO LITERATURA

Por A.Lima


Crônica é literária menor, descartável. Com ressalvas ao texto de conteúdo inquestionável, como fizeram os escritores-viajantes da antiguidade nas suas apreciações sobre os eventos mais significativos, ou dos grandes autores que, em algum momento, exercitaram o gênero sem qualquer prejuízo à sua obra propriamente dita.

Faço alusão, claro, a essa patomima midiática dos decadentes de agora, todos donos de estratégicas colunas nos jornalões falidos, TV e internet.

A bem dizer, crônica nem deveria agregar-se à literatura do modo como propõe a crítica de resultados, sob aplauso desses embromeiros que teimam em orná-la com imagens miraculosas e outros penduricalhos, na vã tentativa de que se transformem em obra consumível.

Tais artifícios, aliás, além de não promoverem o texto, conforme muitos tolos imaginam, ainda o transformam naquela coisa híbrida, indolor: nem conto nem crônica.

Isso, evidentemente, também sem desmerecer um Oto Lara Rezende ou o festejado Rubem Braga, que por…

PERFIL DE UM BODE ACADÊMICO

O dia em que o bode Ioiô comeu a fita inaugural do cine mais famoso da terra de Alencar
Por ALimaS
O bode Ioiô deu as caras por essas bandas de Fortaleza no ano da pior seca que assolou o Estado do Ceará (1915), vendido por um retirante a uma empresa inglesa, instalada na praia de Iracema, por nome Rossbach Brazil Company. 
Sentindo-se desprezado - jogado que fora num cantão apenas para limpar o mato que crescia ao redor do prédio -, o bode, um dia, em descuido do guarda, resolveu se deslocar até a Praça do Ferreira, mais diretamente até o Café Java, onde se reuniam desocupados e artistas, ou artistas desocupados, tanto faz. Ambiente, portanto, mais que adequado ao bode, já afeito às vadiagens.

Furão que só, o bicho foi logo se enturmando com a rapaziada, dando uma chifradinha na pança de Raimundo Cela, que, naturalmente, muito satisfeito por aquele afago inesperado, logo lhe serviu uma dose de pinga - engolida pelo bicho no ato, sem cuspida nem arrepio. Sopa no mel!

Ioiô não largou…

O Poder arbitrário da Palavra Escrita

A História que jamais será contada

ALima

O insensato busca o poder para imbuir-se da falsa sensação de eternidade, mesmo sabendo que, tanto quanto ele, sucumbirá a obra que por ventura vier a produzir, não sendo essa suficientemente meritória.

Mata pelo poder. Destrói. Trai. Corrompe e se deixa corromper. 
Não me refiro apenas ao poder da grana e das armas - se bem seja esse último o que eleva o outro à condição de opressor máximo da humanidade. Faço alusão a mais terrível e devastadora de todas as tiranias, que emana de sutil sistema supostamente essencial ao desenvolvimento da raça: o poder da palavra escrita, com toda sua descomunal teia disseminadora de farsas no mundo globalizado, seja através de livros, jornais e revistas impressos ou qualquer outro tipo de mídia que surja no rastro das tecnologias mais avançadas, a exemplo da própria internet. 
Um universo, portanto, que tanto poderá nos trazer algum benefício, quanto nos arruinar de modo irreversível, dependendo tão somente do…

THOMAS É BOB, DYLAN É THOMAS

Por Astolfo Lima

Dylan Thomas, o poeta galês com quem Bob Dylan associou-se no nome e no sentimentalismo, começou a fazer poesia, de ouvido, ainda criança, dado que o pai costumava recitar-lhe Shakespeare antes mesmo que aprendesse a ler.
Assim como Bob, ou a exemplo de Thomas, ambos detestavam o ensino convencional das escolas, abrindo exceção apenas para a língua inglesa e a literatura - exercícios em que se tornariam exímios malabaristas, cada um a seu modo, porém guardando, os dois, fortes semelhanças na eclosão de seus respectivos sentimentos.
Com 18 anos, por exemplo, Thomas já havia escrito a parte mais substancial de sua poesia, como se sentisse uma necessidade quase absurda de proferir num só fluxo tudo aquilo que o inquietava. Mais contido, porém não menos obstinado na construção de sua obra, Bob Dylan com essa mesma idade vislumbrou o folk como mais adequado que o rock tradicional para escoar seus versos de largo curso. 
Com vinte anos, já em Londres, Thomas ganha um premio…

O EXPERIMENTO DE MACHADO DE ASSIS E EDGAR ALLAN POE

Por Astolfo Lima


Depois de ler “O Experimento do Dr. Pena e do Professor Abreu”, de Edgar Allan Poe, Carolina se aproximou de Machado de Assis e disse, a sorrir: “gostaria muito que você escrevesse um conto assim”.
Machado mirou a esposa, por sobre o pince-nez, recolheu o livro que ela lhe oferecia e respondeu que na primeira oportunidade cuidaria de ler aquela história que tanto a impressionara.
Quinze dias depois, Machado entregaria à Carolina os originais de O Alienista, com a seguinte observação: “Talvez Edgar Allan Poe quisesse dizer isto”.
Portanto, caríssimo leitor, se o amigo já teve a oportunidade de ler os dois contos aqui referidos, saiba que jamais passou pela cabeça do genial Machado de Assis plagiar Edgar Allan Poe. Nosso mestre apenas aceitou a provocação de sua amada Carolina, assim como já o fizera quando na feitura do Memórias Póstumas de Brás Cubas” ou “Dom Casmurro”.
O bruxo do Cosme Velho não precisaria se valer de temas alheios para construir belas narrativas, me…

VICTOR HUGO VIU EM RIMBAUD UM MERO SHAKESPEARE INFANTIL

Por Astolfo Lima

Ao adentrar a loja do armeiro Jerome, Paul Verlaine cambaleava um pouco, o que causaria certa preocupação no velho amigo com quem costumava passar horas a conversar sobre armas antigas. 
Gestos um tanto arrebatados e voz claudicante, o poeta disse estar precisando de uma boa arma, no que o dono da loja lhe indicou bela pistola Bunney 1852, supondo que Verlaine buscasse apenas mais uma peça para sua coleção particular, o que fazia com frequência. 
Jerome só começou a desconfiar de que algo grave poderia se embutir naquela atitude do amigo quando o poeta solicitou razoável quantidade de munição. De todo modo, fez-lhe a venda, acreditando que Paul estaria apenas embriagado, como de costume. 
Outros testemunhos, entanto, afirmam que Verlaine mão estava bêbado ao adquirir a tal arma e muito menos quando desferiu um tiro à queima-roupa contra Arthur Rimbaud, atingindo-o de raspão. Encontrava-se simplesmente corroído pelo ciúme, que o fizera inclusive abandonar a esposa Math…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: A CABRA DO CHICO DA MATILDE

Por Astolfo Lima


O biscateiro Chico da Matilde morava lá pras bandas do Buraco da Gia, mas era frequentador assíduo da nossa rua, onde gozava de boa reputação por encarar sempre os piores serviços sem nunca reclamar, mesmo que o pagamento não fosse lá essas coisas. Quisesse desentupir uma fossa, remover um entulho ou cavar uma cacimba, bastava dar um toque, patrocinar-lhe uma meiota de pinga e estava resolvido o problema.
Tratava-se de um caboclo parrudo, já meio velho, desdentado e manco duma perna, porém mais disposto que a gota serena. Só andava com uma peixeira enfiada no cós das calças, e ai daquele que se metesse a besta com qualquer morador do bairro. O próprio Zé Bacurau, que se dizia samango aposentado e vivia de caguetar todo mundo no distrito policial, falava manso com Chico da Matilde. O codinome era uma referência ao fato de Chico viver amancebado com uma ex-rapariga do velho Farol do Mucuripe que se notabilizaria mais tarde como grande conselheira do lar e cartomante. Ca…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: BETO PÉ DE ANJO

Por Astolfo Lima

Quando Beto Pé de Anjo apareceu na bodega do Juarez às quatro da tarde, todo produzido e com sua radiola portátil debaixo do braço, a negada imaginou logo que a tertúlia se daria dali há pouco. 
O bicho vinha enfiado num blusão de couro, óculos escuros aro de tartaruga cobrindo metade da cara, calça Far-West de cano estreito e sapatinhos de camurça branca, mais parecendo um rabo-de-burro, se bem fosse o Beto um pacato boa vida, filho dum galego que possuía pra mais de mil e oitocentos fregueses no cartão, ou seja: enquanto o velho abastecia meia Fortaleza de chitas e morins, Beto Pé de Anjo papocava grana no varejo, desviando aqui e ali uma faturinha, de modos que vivia patrocinando bailes, papando as cabrochas do Tiradentes e fazendo inveja aos lisos. 
Pensem num cabra pra gostar de tertúlia! Não perdia uma, fosse onde fosse, levando sempre sua vitrola e expressivo repertório de long-playings e compactos duplos, em que se destacavam Paul Anka, Neil Sedaka e Elvis Pre…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: A FITINHA VERMELHA DO RONIVON

Por Astolfo Lima


No dia em que Ronivon sumiu, todo mundo ficou suspeitando de todo mundo na nossa rua.
Tratava-se de um siamês manhoso que usava fitinha vermelha no pescoço e era o xodó da Perpétua, uma coroa encardida que discutia com os vizinhos e costumava rasgar bolas a canivetadas, tantas caíssem no seu quintal.
"Se essa rapariga rasgar uma bola minha, eu dou fim nesse gato réi aviadado" - dizia o Zeca, um carga-torta da nossa rua, sem se tocar que poderia se perder pela boca larga.
Outro muito íntimo do bichano era o Seu Filó, um aposentado da RVC, que gastava o tempo coçando os respectivos, sentado num banco da bodega do Juarez, onde colhia as novidades e fazia reminiscências da Fortaleza anos quarenta/cinquenta e suas assombrações lá pras bandas da Estação Luís Felipe, quando ele ainda manobrava uma velha maria-fumaça.
Mal amanhecia o dia, Seu Filó dava logo as caras na bodega, um casarão parede-meia com a casa da referida Perpétua e também extensão dos aposentos de …

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: DUDA PEITO DE POMBO, O CRAQUE QUE O VOZÃO NÃO TEVE

Por Astolfo Lima


Duda Peito de Pombo batia o maior bolão nas peladas do nosso bairro e abraçava o grande sonho  de defender as cores do Ceará Sporting Club, o time que durante minha primeira juventude teve Gildo no comando do ataque, o maior centroavante que já pintou em terras alencarinas, de modo que não sobrava pra nenhum outro time do Estado, nem mesmo para o Tricolor do Pici, também timaço, com Mozar infernizando as defesas adversárias.
Para terem ideia do poderio alvinegro, naquele tempo o Náutico do Recife chegou por aqui expelindo a maior goma, gabando-se de ter despachado os melhores times do nordeste com sua poderosa linha de frente formada  por Nado, Pita e Lala, e tomou uma acachapante goleada, lá no velho PV da placona do guaraná Wilson com seu garoto do placar logo abaixo anotando um gol em cima do outro.
Duda jogava entre a molecada na faixa dos treze, quatorze anos e era tido por todos da nossa turma como "vei", embora dissesse ter apenas dezessete. Uma incóg…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: SARARÁ INVOCADO

Por Astolfo Lima

Doca estava repetindo ano pela terceira vez e essa seria sua última chance de se tornar gente, no dizer do próprio paí, um sujeito rústico que vendia miúdos de boi escanchado na garupa dum burro, a propagar pelas ruas as delícias de sua panelada. Já dera, inclusive, ultimato ao filhão: "se exe fio duma égua não se aprumar, vai trabaiar mais eu no "curri". Referia-se ao abatedouro da Prefeitura.
Doca, nem aí. Gostava mesmo era de aprontar contra os meninos de menor tope. Abria sorrisão cafajeste, aplicava chave de braço no primeiro pivete que encontrasse pela frente, dava-lhe uma rasteira e depois apoiava um dos joelhos no peito do garoto, erguendo o braço, punho cerrado, como se fosse desferir um soco na cara do infeliz. Tudo encenação. Queria mesmo era exibir seus incisivos podres, enquanto eu ficava de longe, injuriado, louco para intervir, mas cadê coragem de enfrentar aquele sarará corpulento e ignorante? Melhor ficar quieto e maquinar um plano, par…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: O PLAYBOY DA ALDEOTA

Por Astolfo Lima


Zé Bacurau andava mais afável ultimamente, algo raro num casca-grossa raivoso que tentava impor moral denunciando no Distrito Policial qualquer besteira que ocorresse no bairro. É que sua filha Zilá estava de namoro firme com o Valdecir, um ricaço da Aldeota, amigo de vários figurões da alta sociedade fortalezense, inclusive do prefeito. 
Mal apareceu em nossa rua, sob pretexto de procurar terreno para compra, o tal sujeito foi logo se enturmando com os frequentadores da bodega do Juarez, onde passou a comparecer nos fins de semana, oferecendo birita aos papudinhos, distribuindo balas pros meninos, e, claro, ganhando aos poucos todas as fanzocas de Wanderley Cardoso que havia nas imediações, inclusive a filha única do referido Bacurau, para desespero dos marmanjos mais velhos que babavam pela gostosona.
Zilá era, de fato, uma princesa: morena de olhos verdes, longos cabelos, corpo de sereia como se dizia naquele tempo, e também namoradinha secreta de nós outros, broch…