Pular para o conteúdo principal

O Monstro que Devora Esculturas de Bronze e Ergue Castelos de Areia

Por ALimaS

A sabedoria popular cunhou o brocardo definitivo: "Quer ser bom, morra!". Referência perfeita às injustiças que geralmente fazemos aos visionários, grandes heróis e artistas com os quais muitas vezes privamos sem captarmos, de logo, a dimensão moral e intelectual de cada um, só passando a cultuá-los depois que partem e viram unanimidade nacional. Vai-se o homem, fica a fama - conforme diria aquele poeta que desejava morrer numa batucada de samba.

Com relação ao livre pensador Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, não poderia ser diferente. Muitos de nós da sua geração, por pura ignorância ou comodismo, perdemos a noção ou nos omitimos quanto a grandeza de sua obra e do artista, enquanto ambos ainda estavam bem ali, palpáveis e abertos ao nosso aplauso mais espontâneo, sem aquele entusiasmo estéril que por certo sufocaria o poeta. Culpa nossa? De todo, não! Do monstro que devora esculturas de bronze e ergue castelos de areia: a mídia.

Há artistas, entanto, que são talhados para a mídia. Ajustam-se como luva à estrutura descomunal que se ergue para escoar, em larga escala, o sub produto da falsa indústria do entretenimento e suprir a demanda daquilo que convencionamos chamar cultura de massa; descartável e milionária. Não era o caso de Belchior, alvo apenas de um flerte momentâneo, enquanto ainda lapidava sua obra, por volta dos anos 70 e 80, o que serviria, aliás, como mote para que alguns analistas mais afoitos carimbassem esse período como ápice e epílogo na carreira do poeta. Monumental equívoco - ressalte-se. A referida quadra coincide apenas com a conclusão da obra do poeta, que será eterna. O fato de ter permanecido ou não na mídia é outra história. 

Como poderia, em algum momento, ter perdido o brilho um artista que lega à posteridade uma obra de tamanha relevância, a ponto de ter merecido só agora caudalosos elogios das mais variadas procedências? Esperavam o quê? Que Belchior tivesse permanecido meio século alimentando a mídia com factoides musicais somente para manter viva a chama do consumo fonográfico, que, por tabela, também alimenta animadores de palco, crônica mundana e ajuda a vender coca-cola?! Ora, direis: perdeste o senso? Se um artista dá por concluída sua obra, não é justo imaginarmos que ela esteja incompleta e que podemos exigir mais, ou que ele acabou. Seria como apegar-se à convicção de que Homero deveria ter escrito duas Odisseias; Dante ter repetido A Divina Comédia com os poetas que ficaram de fora na primeira; que Shakespeare poderia ter feito nova rodada de sonetos ou ter escrito Romeu e Julieta II.  

Só comunga com o pensamento enviesado de que se o artista não estiver na mídia é porque perdeu a validade, aqueles que vêem, digamos, um astro como Roberto Carlos, com mais de 70 anos de idade, ainda hoje em plena atividade (o que é louvável), porém se repetindo à exaustão. Sem nenhum demérito para com o artista, mas sem perdermos de vista que o Rei da Jovem Guarda apenas se repete para suprir a demanda, vez que sua obra mais relevante também se conclui nos anos 70 e 80, assim como as de outros artistas do mesmo quilate: Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Ivan Lins, Chico Buarque e tantos mais. Conclui-se a obra, não porque seus autores tenham envelhecido ou se tornado insignificantes ou ainda porque tivessem perdido a inspiração. Absolutamente não! Todos esses artistas que mencionei já estão entre os melhores na galeria da MPB. Simplesmente concluíram suas obras nos anos 70 e 80, sendo que alguns optaram por permanecer no mercado, e também porque, evidentemente, essa permanência seria benéfica à indústria do entretenimento. Caetano Veloso, por exemplo, há meio século não sai da mídia. Produzindo novos sucessos? Não, apenas divulgando sua excelente obra, já concluída, e criando pequenos fatos extra-musicais, por mera curtição, ao mesmo tempo em que Roberto Carlos, também por curtição, creio, se transformaria no Papai-noel da Globo.

É recorrente no maravilhoso mundo da música um fenômenos interessante, que me fez inclusive escrever, tempos atrás, ligeira reflexão a que denominei "Fragmento Perfeito". É quando um compositor/cantor, ao acaso, descobre uma pepita musical e a canção explode nas paradas, alcança todas as camadas sociais, até que se esgota, deixando no artista, mais que a frustração, uma necessidade quase absurda de repetir o êxito, o que acaba por levá-lo a compor novas músicas parecidas, feitas de retalhos daquela, por vezes até desvirtuando sua originalidade. Verdadeira paranoia, porque ele jamais fará outra música igual, com o mesmo fragmento que penetrou a alma do ouvinte e que permanecerá para sempre, a exemplo do que são até hoje algumas partículas dos Beatles para os de minha geração. Em resumo: se o artista tiver talento, ele  criará outras canções tão espetaculares quanto aquela, cada uma com seu fragmento mágico, sua vida própria. Nunca, porém, em número elevado - bom que observemos isso! O grande artista, no máximo, legará dez ou quinze canções à posteridade. Caso de Belchior e demais artistas que já citei até aqui.

Fernando Pessoa refletia que 90% de toda a literatura que se produzia no mundo jamais chegaria ao destinatário. No futuro, cada povo agruparia em coletâneas o conteúdo mais relevante de seus artistas, preservando, intactas, apenas as obras históricas mais relevantes. Vale isso também para a música. Tudo de melhor qualidade que produzimos no século XX em nosso país, inclusive a música erudita, caberia folgadamente num pendrive de 2 GB. Um fenômeno só nosso? Não! No mundo todo é assim. Antes da Revolução João-Gilbertiana, na década de 1960, quando passamos a produzir uma música mais refinada e tipo exportação, até nos Estados Unidos, que sempre produziram uma música de altíssima qualidade, a coisa estava meio estagnada em Elvis Presley e Frank Sinatra, que desdobravam o Jazz/Soul, com maestria, em inúmeras vertentes, em busca da renovação, que viria precisamente com a nossa Bossa-nova e, mais tarde, com a invasão britânica dos Beatles e assemelhados, transformado tudo no imenso pop universal que prospera até hoje. 

Na obra de Belchior é possível pinçar dez pepitas. Únicas. Originais. Belas. Inimitáveis. E é justamente nessa impossibilidade de ser imitada  que reside a sua  qualidade. Quem ousaria apropriar-se de temas que esculpiram "Apenas um Rapaz Latino-Americano", "Como Nossos Pais" ou a "Divina Comédia Humana", sem risco de cair no ridículo?

Além de não poder ser imitada, a música de Belchior não tem tempo determinado nem data específica, muito embora incorpore elementos que nos levam a variadas reflexões que se adequariam a muitos lugares, fossem essas reflexões de cunho filosófico ou político-social. Com fragmentos dessas canções poderíamos compor uma sinfonia pop-filosófica, a qualquer tempo, em diferentes culturas. Mesmo a parte mais facilmente assimilável na música de Belchior, aquela que deixa a profundidade de lado e se concentra apenas nos acordes simples e na beleza harmônica da composição, é de superior qualidade. Fosse Belchior norte-americano, teria superado Bob Dylan.

Postagens mais visitadas deste blog

BUKOWSKI NUTRIA-SE DE POEMAS SUJOS E PROSTITUTAS DEPRAVADAS

Conto de Astolfo Lima

Aos treze anos, Bukowski disse, numa roda de garotos, que só haveria de se sentir plenamente realizado no dia em que acertasse uma bordoada de jeito na fuça do seu encardido genitor, um casca-grossa que costumava espichar-lhe o couro para escoar frustrações que lhe permeavam a vida chinfrim. "Let it be!"
Vociferou esse seu intento enquanto os colegas, um a um, perfilavam anseios mais brandos: um querendo se tornar aviador quando crescesse; outro, maquinista de trem; outro mais, artista de cinema, cantor de blues ou boxeur, e assim sucessivamente, como ocorre naquela fase inconsequente e pueril de todo adolescente. 
"Assim farei, ainda que necessite dar o fato como lastimável acidente doméstico, em que, postando-me ao corredor da casa, armado com fornido taco de beisebol, simularei rebatidas de bola como se desejasse não mais que aperfeiçoar jogadas para marcar presença no colégio, onde todos me discriminam por conta de minha pouca habilidade nesse …

T S ELIOT E AS EMANAÇÕES DELITUOSAS DE CHARLES BAUDELAIRE

Por Astolfo Lima


O casamento de T. S. Eliot e Vívien estava rachado desde 1922, porém os dois ainda se digeriam sob a mesma plataforma até o início da década de trinta. 
Ela, com fortes sinais de instabilidade mental, que se acentuara muito ao vir a público sua infidelidade ao marido, com Bertrand Russell. Eliot, insensível às coisas supostamente vãs, e uma crueldade que por vezes atingia pessoas mais próximas, como a desfeita a Ezra Pound, logo após o amigo adverti-lo de que "mutilar" as 92 linhas de "Death by Water", transformando-as em mísera estrofe, não fora ideia das melhores. 
Indignado com a intromissão do ex-amigo, Eliot simplesmente vociferou que o discurso de Pound apenas o incentivara a fazer as coisas do seu próprio jeito. 
O poeta Eliot, a esse tempo, como todo astro de maior envergadura, transitava entre seus pesadelos mais íntimos e a quase obsessão de agrupar em uma mesma arquitetura os emanações delituosas de Baudelaire, os slides etéreo-emblemáti…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: O PLAYBOY DA ALDEOTA

Por Astolfo Lima


Zé Bacurau andava mais afável ultimamente, algo raro num casca-grossa raivoso que tentava impor moral denunciando no Distrito Policial qualquer besteira que ocorresse no bairro. É que sua filha Zilá estava de namoro firme com o Valdecir, um ricaço da Aldeota, amigo de vários figurões da alta sociedade fortalezense, inclusive do prefeito. 
Mal apareceu em nossa rua, sob pretexto de procurar terreno para compra, o tal sujeito foi logo se enturmando com os frequentadores da bodega do Juarez, onde passou a comparecer nos fins de semana, oferecendo birita aos papudinhos, distribuindo balas pros meninos, e, claro, ganhando aos poucos todas as fanzocas de Wanderley Cardoso que havia nas imediações, inclusive a filha única do referido Bacurau, para desespero dos marmanjos mais velhos que babavam pela gostosona.
Zilá era, de fato, uma princesa: morena de olhos verdes, longos cabelos, corpo de sereia como se dizia naquele tempo, e também namoradinha secreta de nós outros, broch…