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Leonardo Mota e Seu Jornal

LEOTA E O JORNALISMO DO SERTÃO

Matéria Publicada do Almanaque do Ceará 1948

Achamos oportuno transcrever de um jornal de Sobra1 (edição de 8 de Dezembro de 1934, o artigo abaixo da autoria de nosso saudoso conterrâneo, o escritor Leonardo Mota, no -qual ele descreve com chiste que lhe era peculiar, as reminiscências da vida de seu jornalsinho GAZETA DO SERTÃO, publicado em 1913, na cidade de Ipú, onde então exercia o cargo de Promotor Público. Ei-Io:

O JORNAL faz anos hoje. Quantos? Dois, apenas. Mas, como os estudantes que "galgam" ele não diz que completou dois anos e, sim, afirma todo ancho que foi promovido ao terceiro ano do curso, quero dizer, de vida ...
É, pois, o aniversário de um petiz da imprensa cearense. Mas, petiz num gênero existencial em que ao atingir dez primaveras a gente já fala em longevidade, e, ao beirar os vinte janeiros, já se é macróbio.
Dois anos! O infante se criará, vencido que já foi o arriscado período da dentição. Somente quem já fez jornalismo no sertão pode avaliar o que de vitória existe no interior cem edições de um semanário.
Não vejo profissão que exija maiores perdicados de cordura e de tolerância que a de ser jornalista na roça.
Com licença do Exmo. Senhor Interventor, direi que com a minha "Gazeta do Sertão", mantive a mais perfeita "equidistancia entre os partidos". Isso ocorria, ao tempo das sangrentas lutas que tanto conturbaram a vida estadual e se epilogaram com a deposição do presidente Franco Rabelo. Era dificílimo deixar de tomar poslçao na refrega, mas, a "Gazeta" se aguentou sem pender para qualquer das facções em luta. Noticiava, serena e indistintamenta, os acontecimentos, sem a preocupação a quem quer que fosse. Pois, ainda assim, resmungavam os politicoides matutos, e eu era acoimado sucessivamente de rabelista" e "marreta". Se hoje os "rabelistas" me torciam a cara e os "marretas'" me traziam nas palmas das mãos, no dia imediato, eu me encontrava em estado de graça com os asseclas de Marcos Franco, e esconjurado pelos sequazes de Tomaz Cavalcanti.
Felizmente, havia espíritos eqilibrados que compreendiam o meu empenho em só servir á causa coletiva. O engenheiro João Tomé, por exemplo, que então nem sonhava com o relevo que veio a ter no partidarismo cearense, escreveu que o meu jrnalsinho se altera "a um nivel jamais atingido por nossa Imprensa".
Hoje em dia, com as facilidades de comunicação faz-se sem grande esforço um bom jornal no interior do Estado. O "busilis" era no meu tempo, quando as malas postais, com as novidades do resto do mundo, chegavam ao Ipú, uma ou duas vezes por mês. Havia lá, porem, uma turma de bachareis inteligentes e camaradas. Graças a eles, eu lia todos os jornais e revistas do Rio de Janeiro. E condensava em notas, comprimidas em quatro ou cinco linhas, todo o fartissimo noticiario da secção "Cá e Lá". Houve números que continham mais de uma centena dessas informações sempre interessantes.
O jornal era feito quase todo por mim, de vez que Abilio Martins, que me prometêra coadjuvar-me seriamente, se limitou ao rabisco de três ou quatro croniquetas brejeiras, sob o pseudonimo de "Kiamil".
O mais divertido estava em que o meu jornal de Ipú era composto e impresso em Sobral, na oficina tipográfica de Carlos Rocha. As provas iam e vinham pelos trens e sempre de "buchechas", porquanto naqueles bons tempos não se usava ajudar o governo gastando dinheiro com selos de correio.
A folha semanal tem isto de vantajoso: propiciando tempo bastante para escrevermos refletidamente, sem as improvisações intempestivas do labor quotidiano, e, sobretudo, nos habilita para a conquista de um estilo individual. Isso de escrever, como tudo mais, é questão de treinamento, de disciplina mental. Sei de mim que nunca perdi tempo em espiolhar dicionários, á cata de palavras bonitas e sonoras, para as engastar nas minhas garatujas. O que tortura é achar o que dizer. O modo de dizer é o menos, desde que a simplicidade é o unico remigio de alguem se fazer legivel. O verdadeiro jornalista não se socarre de arrebiques literários.
De tudo isso, estão compenetrados os meus talentosos e estimáveis confrades que fazem "O Jornal". De tudo isso, e mais, de elementar bom senso para o lançamento de uma folha inspirada por indiscrepante critério e compostura.
A data de hoje é festiva para eles e ás festas do O JORNAL prezeirosamente me associo.

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