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Jáder de Carvalho Traça Ligeiro Perfil do Barão de Studart

CASOS & COUSAS

JÁDER DE CARVALHO

(Publicado no seu Jornal, Diário do Povo, em janeiro de 1956)

Era baixinho, vermelho, de olhos de aço polido. Os cabelos, muito brancos e lisos, quase desapareciam sob a cartola preta e lustrosa, que ele usava diariamente, como imposição natural do fraque de abas longas e casemira inglesa.

Falava ciciando, exibia qualidades de perfeito cavalheiro e, no seu gabinete, era sempre um homem curvado sobre a mesa, onde examinava documentos, comparava datas, esclarecia fatos. Na vida social, cumpria religiosamente os deveres de cidadão e, à margem do seu grande labor de pesquisa histórica, tinha tempo a gastar com os pobres, em sociedades de fins filantrópicos.

Não possuiu o talento e muito menos a intuição sociológica de João Brígido.

Na segurança do método do trabalho, superou Antônio Bezerra e Joaquim Catunda. Quanto a Capistrano de Abreu, não cabe qualquer paralelo entre os dois: o campo de ação do autor dos "Capítulos de História Colonial" era muito mais vasto e mais complexo. Ademais, em Capistrano sobravam qualidade criadoras, o que faltava, lamentavelmente, no Barão de Studart. Ambos pisam, porém, o mesmo terreno e vivem sob clima igual, quando se trata de paciência, honestidade e amor à exatidão.

Na obra de Studart não se encontra o que sobeja na de João Brígido: material, e do melhor, para os sociólogos. O Barão é seco e sóbrio no esclarecimento e na informação. O dado histórico sai-lhe das mãos sem roupa de gala. Ao passo que, no historiador, antropogeógrafo, panfletário e jornalista de O Unitário e de "Ceará - Homens e Fatos", se os acontecimentos históricos não surgem exatos e certos, a época da sua ocorrência é magistralmente descrita e, muitas vezes, genialmente interpretada.

Ao Barão deve o Ceará este milagre: a possibilidade de escrever-se com exatidão a sua história. Foi ele quem a retificou, eliminando-lhe as obscuridades que afetam a obra de Catunda, Brígido e Bezerra. Sobre ela já se assenta  a "Pequena História do Ceará", de Cruz Filho', e os trabalhos propriamente históricos de Joaquim Alves, Carlos Studart Filho, Renato Braga, Raimundo Girão e outros estudiosos.

A pesquisa paciente e constante em arquivos brasileiros e, muito principalmente, no tombo  lusitano, deram ao escritor cearense a possibilidade de por a história de nossa terra em situação de privilégio, em relação às dos demais Estados, onde não se forjou, até os nossos dias, um pesquisador a Barão de Studart. Somente uma honrosa exceção podemos registrar: a de Gonçalves de MeIo Neto, em Pernambuco. Na verdade, se bem que agindo em área menos ampla - a invasão holandesa -, o historiógrafo de Recife, em "Tempos dos flamengos", ombreia com o seu colega cearense no tocante à paciência e amor à verdade.

Capistrano, sob o aspecto acima focado, foi o Barão de Studart do Brasil. Infelizmente um e outro já fazem falta em nosso país, onde se volta a escrever história de carregação e ainda com esta desvantagem: já não existe a graça, a acuidade, a intuição científica do grande João Brígido, fonte perene dos cronistas e dos sociólogos do Ceará.

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