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EIS O CARA


Por ALimaS

Caro Lay de Oliveira Silva:


Queira receber a tardia retratação desse escritor menor, que, despido de qualquer ressentimento, deseja tão somente prestar reverência ao gênio maior - no caso você. 

É que só agora vim a compreender que a verdadeira literatura contemporânea está sendo produzida por sua nobre pessoa, aqui na Internet. São suas fabulosas crônicas de costumes, seus jocosos e exuberantes relatos e sua extrema delicadeza no trato com as senhoritas e rapazes daquele notável site de quinhentos colunistas, no qual desponta o amigo como figura de proa, que estão dando vida à Grande Rede. Não fosse você, caro amigo, hoje não mais haveria sites de literatura na Internet.

Diante, portanto, de fato tão gratificante para a Cultura Nacional, e quem sabe de toda a América Latina (talvez do mundo), nada mais me restava senão curvar-me a sua pessoa e lhe pedir desculpas por minhas inconsequentes investidas sobre sua prosa magnífica. E que a plebe literária não veja nesse meu humilde ato de contrição qualquer demérito para com todos os demais escribas menores que ainda supõem estar escrevendo para a posteridade. Qual o que, amigo!!! Somos todos nós outros, míseros defensores da literatura escrita no papel, não mais que seres dispersos no tempo, completamente alheios ao verdadeiro significado da boa escrita que ora se produz. Frente ao seu texto magistral, Guimarães Rosa, hoje, mais pareceria um mero colegial empolgado com as primeiras descobertas. Não, não há exagero em minha fala, creia! Percorrendo os labirintos que você desvenda com os seus escritos deliciosamente internéticos, só irei encontrar parâmetros em Kafka e James Joyce. Palidamente, diga-se.

Perdoe-me, pois, por esse inominável absurdo em não ter concebido logo num primeiro instante como legítimas essas suas infindáveis incursões pela prosa de amenidades, escalafobética e indolor. Da mesma forma que também peço remissão pela veemência de minha crítica aos que fizeram de você o verdadeiro bastião da intelectualidade pós-pós.

Você é o cara, grande Lay! E que todos me ouçam nesse brado por justiça. Só assim poderei redimir-me completamente desse equívoco monumental, eu que não almejaria amargar mais tarde um arrependimento que seria ainda mais terrível para minha precária biografia. Quem haveria de me absolver pelo fato de ter sido contemporâneo do maior gênio da literatura moderna, sem que o registrasse em meus parcos escritos? Não, não! Eu jamais me perdoaria. Se algum pecado eu vier a cometer com relação à sua obra, não será o da omissão quanto à sua inquestionável qualidade, pode ter certeza. Daí que faço pública essa retração através da Internet, na ânsia de que fique gravada em html para o todo e sempre em todos os computadores do universo.

Com o seu texto magnífico, meu caro Lay de Oliveira Silva, abrem-se novas vertentes em toda a nomenclatura literária, algo que nenhum outro escritor, em qualquer época, ousaria decifrar. E isto digo sem receio de incorrer em equívocos. Por mais que eu busque nos recônditos (uma expressão sua, desculpe-me!) do inconsciente, não consigo vislumbrar similitude - mesmo entre os grandes expoentes no gênero - para essa sua descoberta admirável, qual seja, a literatura híbrida, de efeito rápido, descompromissada, totalmente internética, porém com forte conteúdo humanístico. E observe que ao longo de exaustivos anos me venho debruçando no estudo aprofundado de todos aqueles que ousaram na tentativa de desvendar as lacunas da alma, seus delírios e a inutilidade da raça humana perante Deus. Você é o cara, sim!



Para qualificar obra tão instigante e significativa como essa que você ora nos brinda, só mesmo recorrendo a uma terminologia que o amigo tanto usa, com muita graça e discernimento: "Divina e angelical". É isso. Percebeu agora a angústia de um escriba menor como eu? Que outros vocábulos exprimiriam com maior exatidão a qualidade que desejo atribuir ao seu texto? E veja, por outro ângulo, quão penoso se faz ao indivíduo comum, a ousadia de querer equiparar-se aos grandes. Na tentativa de ilustrar este meu insipiente discurso, furto de você singelos adjetivos, insiro-os aqui, porém não consigo o mesmo efeito que só você seria capaz quando os alinha em suas belíssimas composições internéticas. Postos aqui, dessa forma aleatória, eles soam falso; mesclam-se de uma vulgaridade ímpar, não é verdade? Como partículas de suas notáveis composições, contudo, a terminologia "divina e angelical" adquire uma fulguração inteiramente virtual, moderna, megabáitica, que a nada mais se poderia comparar, nas Letras daqui e de além-mar, como você também diz com tanta propriedade - ainda que rime.



Nas suas crônicas, que o amigo, modestamente, trata por contos, a forma como você descreve os ambientes e expõe os pequeninos fatos do cotidiano, é qualquer coisa de extraordinária. Os ébrios e alucinados que você tão bem pincela como criaturas normais; a referência a fatos distantes que nem mesmo a crônica de época conseguiu captar; a citação de escritores medíocres que você resgata como magistrais, ensejando a que a crítica dispersa reavalie conceitos; a descrição de estranhos ambientes, o enfoque de taras desconhecidas até mesmo por Freud... Ah, são tantas e tantas as qualidades da sua escrita, que eu necessitaria ser um Nelson Oliveira para enumerá-las com maior precisão. O que dizer, por exemplo, da riqueza de detalhes nas coisas mais insignificantes que você lapida???!!! A descrição precisa do personagem que surge na trama sem que entendamos jamais o porquê da sua existência, e que da mesma maneira some, sugerindo insondáveis mistérios??!! Magistral. Você é o cara, Lay! 

Se mais não me estendo na análise temática de sua escrita, será porque temo incorrer naquilo que você mais abomina: o lugar-comum. Digo-lhe, porém, do meu fascínio pela perfeição técnica dos seus textos. Além dos gerúndios e da repetição supostamente exagerada dos pronomes relativos, o que neles mais me chama a atenção é uma seqüência interminável do conectivo "e" que você sempre põe em prática até nas sua graciosas notinhas de mural. À primeira vista, têm-se a impressão de lapso estilístico; lendo-os, contudo, com mais vagar, logo se verifica a real função que exercem no contexto de toda sua obra: ritmo, harmonia, e notadamente o respeito do artista para consigo mesmo ao não se permitir o mais leve desvio de estilo. E, aqui - veja! -, não faço referência àquele compasso monótono da valsa, já experimentado por outros prosadores e até pelos poetas. Não, não e não! O que se sente, ao longo da leitura de qualquer texto seu, é uma cadência desordenada, propositadamente desordenada, como se estivesse o amigo sempre a sugerir a trajetória absurda de um mesmo personagem ilógico em cada um de seus diversos conto-crônicas (ou vice-versa). Um achado. Do mesmo modo interessantíssimo é o exagero nas frases burocráticas, as interjeições (abominadas por nós outros, tolos prosadores), os "quês" distribuídos a esmo, sem respeitarem nunca a verdadeira função que devem exercer nas orações; os ecos, os longos períodos. E o que dizer das preposições, da fartura de artigos e de pronomes oblíquos, da concordância verbal que não concorda, aparentemente?! Ah, grande Lay! Você subverte a gramática não como licença poética, mas, ainda assim, confere originalidade a tudo que escreve. Através dessas pequenas sutilezas é que fica bem caracterizado o seu método verdadeiramente revolucionário de fazer literatura. É indiscutível: Você é o cara, ilustríssimo Lay! 



Um grande abraço.


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