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A louvação de asnos transbordantes e universais

Ilustração do James

Por ALimaS

Erasmo de Roterdã, o sábio que vislumbrou a inversão de valores que se tornaria trágica no século da modernidade.

Gratificante rever com olhos da maturidade aquilo que nos escapa ao tempo em que ainda não imaginamos ser a vida tão somente esse teatro surrealista de agora, com seus astros e plateias previamente elaborados e infinitos - do modo, aliás, como já observara Erasmo de Roterdã, captando os desvarios da raça humana e o supremo papel que teria sido reservado a cada um de nós, por força da nossa estupidez ou sabedoria.

Em O Elogio da Loucura, escrito no século XVI, o sábio já vislumbra esse mundo absurdo de agora, em que o grande farsante/mandatário só se permitiria cercar de palhaços genuinamente palhaços que o fizessem gargalhar/esquecer a monstruosidade de sua própria alma. No máximo, daria aval à louvação dos imbecis veramente imbecis que endossassem sua vilania. 

Muito mais que a crítica mordaz a uma sociedade apodrecida, do seu tempo, prevê ele os desdobramentos da loucura e suas diferentes máscaras ao decorrer dos séculos.

Erasmo nos insere num cenário de asnos transbordantes e universais, em que devemos, todos, celebrar a loucura como deusa absoluta da felicidade, e amaldiçoar a Sapiência degenerada e inútil dos poetas e filósofos.

Nessa comédia arbitrária porém perfeitamente lógica, o ser iluminado seria apenas aquela figura grotesca e indesejável, taciturna e ridícula, ultrapassada e triste; um estraga-prazeres terminantemente proibido de frequentar os salões distintos, proferir suas aleivosias em público ou discutir política.

Mais que um pensador antenado com seu tempo, Erasmo foi o cara que desconfigurou conceitos secularmente enraizados em todas as sociedades do mundo e estabeleceu profecias vãs.

Um cura ferino que declinou ao convite de se tornar Cardeal, para não se privar de suas reflexões. Do mesmo modo que ignorou Lutero, que também desejava cooptá-lo para sua causa.

Um livre atirador que vislumbrou um mundo louco que teria o seu clímax exatamente agora neste século XXI.

Traçando, de forma genial e inapelável, todas as diretrizes que norteariam a parafernália ora vigente, em que o mentecapto da visão do sábio seria, tanto para a plebe enlouquecida como aos olhos dos áulicos, o grande formulador da felicidade a ser conquistada.
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