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O MISTERIOSO SUMIÇO DE DONA GUIDINHA DO POÇO

Por ALimaS

Os originais de "Dona Guidinha do Poço", obra vigorosa de Oliveira Paiva, permaneceram por mais de meio século na obscuridade, correndo de mão em mão, depois de terem sido confiados a Antonio Sales para que fossem publicados no Rio de Janeiro - o que, infelizmente, jamais ocorreria em tempo, por conta de misterioso sumiço.

Não fosse pela obstinação de Lúcia Miguel Pereira, afamada pesquisadora de literatura, que os resgataria mais tarde das mãos de Eurico Facó e logo recomendaria sua publicação pela editora Saraiva, abrindo a série "Romances do Brasil", em 1952, o país, hoje, provavelmente, não saberia da existência desse escritor genial.

O romance Dona Guidinha do Poço é de tal magnitude criativa, que, mesmo tendo permanecido sequestrado por tanto tempo, não perdeu seu vigor, mantendo-se até os dias atuais como uma das narrativas mais empolgantes de toda a fase naturalista no Brasil.

Nela, o ritmo exato que se deve conceder aos relatos extraídos da crônica mundana, sem que se estabeleça delineamentos entre o fictício e o real ou que suas personagens e respectivas atitudes sejam tediosas e previsíveis a ponto de desestimularem o leitor logo no primeiro capítulo, como é comum com relação a quase todos os livros daquela fase.

Na maestria com que Oliveira Paiva manuseia as palavras, aliás, é onde reside o diferencial entre obra de arte e o mero folhetim caboclo que focalize o amor ilícito de uma mulher casada por seu sobrinho.

Os múltiplos e espontâneos recursos estilísticos que Oliveira emprega na obra, o viés psicológico que captura na dupla personalidade de uma poderosa mulher dos sertões, que, se por um lado é assassina, por outro também é a senhora do único poço d'água que socorre os sedentos retirantes da seca, fazem de Dona Guidinha uma obra singular.

Toda uma perfeita construção literária que chega mesmo a se sobrepor à triste realidade do fato em si, no caso o adultério, seguido pelo bárbaro crime, que na crônica corriqueira dos sertões não mereceria punição maior diante da seca atroz que mutila povoações inteiras e onde quem detém o controle de um mísero veio d´água será sempre o senhor da razão (ou a senhora, no episódio em tela).

Oliveira Paiva, portanto, mais que escrever um livro tecnicamente perfeito e original, construiu uma das mais significativas personagens da ficção brasileira de todos os tempos, que, a meu ver, estaria no mesmo nível de Capitu, em termos de fixação no imaginário da literatura, embora personalidades distintas. Uma mulher cega de paixão, capaz de amar com a mesma intensidade com que rebateria uma infâmia ou resguardaria seu nicho - como num poema de Jáder de Carvalho.

Mas voltemos ao sumiço da obra. O que teria ocorrido, de fato, com os originais de Oliveira Paiva? Por que não foram publicados imediatamente se o escritor já havia demonstrado todo o seu invulgar talento em jornais e revistas de Fortaleza, sem mencionar a sua marcante atuação na Padaria Espiritual, onde, aliás, a figura de proa passada à posteridade haveria de ser Antonio Sales, o homem a quem Oliveira confiara sua obra-prima?! Mera fatalidade? Sei não...

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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