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A Literatura no Ceará

Letras e Rabiscos na Terra de Manezim do Bispo

Fragmentos de um livro em preparo




Escritores Ao Sopro da Maria-fumaça


Por ALimaS


A literatura no Ceará desenvolveu-se através de consórcios, se bem que os escritores mais talentosos, quase sempre, optassem pela carreira solo. Grupos ou corriolas (no bom sentido, claro) que se reunirem em clubes, associações de classes ou mesmo em torno de uma autoridade, como ocorreu logo em seus primórdios, por volta de 1813, quando rapazes bem posicionados na sociedade provinciana passaram a frequentar assiduamente o palacete governamental para tecerem loas ao Sr. Manoel Inácio de Sampaio.

Versejadores de ocasião: alguns, de boa índole, embora fracos no mister de construir versos; outros, provavelmente, de olho nas benesses do Estado - uma prática, aliás, que haveria de se estender de pai para filhos, compreendendo velho tronco genealógico de quatro ou cinco famílias a abarcarem simplesmente tudo na Terra do Comendador Luís Sucupira, desde os postos estratégicos da administração pública, passando pelos cartórios, altos escalões do Judiciário, terras mais produtivas, casas legislativas e, naturalmente, a imprensa e os pseudos órgãos culturais. Ou seja: a rígida divisão de classes.

Nos salões distintos e tertúlias domingueiras, nenhum artista do escalão inferior, ainda que em alguns momentos a periferia literária cearense viesse a revelar talentos inquestionáveis, como foi o caso de Ramos Neto, um modesto e retraído sonetista que produziu ininterruptamente desde 1905 a 1944, publicando em todos os jornais e revistas da capital, mas que seria ignorado de forma sistemática pelos senhores que distribuem crachás em troca de louvações inúteis, conforme atestaria Edigar de Alencar em esclarecedor artigo publicado em 1961 no Almanaque do Ceará.

Por não cortejar figurões, não requerer legitimidade à porta de academiazinhas, Ramos Neto morreria na obscuridade, junto com seus preciosos inéditos, sem que figurasse jamais numa mísera coletânea chapa-branca. "Teve o destino inglório dos sonhadores, cujos versos jazem para sempre na vala triste das gavetas ou na cova ignorada dos velhos periódicos." - nas palavras do atento articulista acima citado.

Sina, aliás, também reservada a Carlos Teixeira Mendes (o Teixeirinha), um modesto funcionário público que passou 50 anos produzindo versos. Isso sem mencionar Holanda Cunha, Alvaro Bomilcar e muitos outros que ainda farei desfilar no decorrer desta narrativa. Gente que embora atrelada a sobrenomes respeitáveis na consolidação cultural do nosso Estado, em outras áreas, também sucumbiria no mais completo anonimato... (aqui aparecerão várias citações sobre autores boicotados).

A partir da segunda metade do século XIX, a febre de grêmios literários, almanaques e outras publicações periódicas atingiria proporção tal na terra de Justiniano de Serpa, que o competente Barão de Studart teve que enfeixar tudo numa brochura de duzentas e tantas páginas, o que seria válido sem dúvida, não apenas pelo registro histórico, mas sobretudo para que nos porões dos arquivos públicos da província ficasse alguma coisa à disposição de pesquisadores mais audazes sobre o verbo corrosivo do fantástico Padre Verdeixa, assim como dados referentes à Academia Francesa de Rocha Lima, Tomás Pompeu, Capistrano de Abreu; indicações a respeito da Padaria Espiritual de Antonio Sales, Adolfo Caminha, Rodolfo Teófilo e Oliveira Paiva, e também alusivas ao Centro Literário, que abrigava figuras do porte de Farias Brito, José Albano, Álvaro Martins e Papi Júnior...
(aqui um ensaio sobre os livros mais relevantes dos autores citados).

Essa febre de associações literárias, contudo, referia-se, na sua grande maioria, a dissidências de outras dissidências. A debandada de moços de uma mesma casta, entreveros momentâneos de grupinhos, todos com suas posições políticas pouco definidas e apetite voraz por franquias chapa-branca: uns, engajando-se na boa à oligarquia de plantão, guarnecendo o território conquistado com unhas e dentes; outros, querendo detonar aqueles para também se posicionarem melhor; aqui e ali, um ilustre e autêntico representante da raça, como foram Soriano Albuquerque e Joaquim Pimenta, esse último oriundo do interior, adentrando nossa bela Fortaleza sem lenço ou documento, enfiado num paletó esgarçado para enfrentar os donos da situação, responsáveis por tudo de menor importância que se publicava até então na terra do Manezim do Bispo.

De relevante mesmo, no período, a escrita vigorosa e essencial de João Brígido, o cronista-sociólogo-panfletário como jamais haveria de surgir outro igual em todas as plagas nacionais, uma espécie de Quixote às avessas, sem causa nenhuma ou de todas as causas; malabarista da palavra; um Voltaire caboclo; o inventor do editorial-dinamite, de última hora, cujo efeito pró ou contra poderia ser modificado com uma simples vírgula; a encarnação primeira do verdadeiro cabra macho nordestino (embora nascido capixaba) a quem todos, sem exceção, faziam rapapés - temerosos de que pudessem ser demolidos nas páginas de seu jornal.

Correndo por fora, nessa mesna quadra, os poetinhas vagos a se diluírem mútua e cordialmente, todos empunhando o mesmo estandarte, porém procurando apenas o melhor cabide, detonando aqui e ali um desafeto, "se roendo" de inveja, certamente, daquele que lograsse melhor posição, publicasse primeiro, o que, aliás, também haveria de se tornar uma práxis por essas bandas até os tempos atuais. A exceção nessa fase, em termos de honestidade literária, seria, talvez, o singelo Juvenal Galeno, vez que as nossas maiores expressões, pouco a pouco, iam partindo para construírem suas vitoriosas trajetórias no sul-maravilha, casos de José de Alencar, Capistrano de Abreu, Domingos Olímpio, Farias Brito, Clóvis Bevilaqua, Araripe Júnior, Gustavo Barroso, assim como a turma que viria depois, já no século da modernidade: Raimundo Magalhães Júnior, Herman Lima, Gerardo melo Mourão e Rachel de Queiroz...
(aqui aparecerão textos raríssimos de João Brígido, Gustavo Barroso, assim como apreciações sobre esses autores e seus livros).


Vejam mais fragmentos, sem as devidas correções, acréscimos ou subtrações que constarão na obra pronta:



Academia Francesa de Rocha Lima, João Lopes e Capistrano de Abreu


Quando José de Alencar publicou "Iracema", no Rio de Janeiro, em 1865, inaugurando nova fase no romance brasileiro, Juvenal Galeno lançava em Fortaleza os seus "Prelúdios Poéticos", que na avaliação de alguns críticos locais se tornaria marco numa suposta "literatura cearense", podendo, portanto, fixar-se o poeta como legítimo iniciador das atividades literárias em nosso Estado. Só esqueciam, esses afoitos analistas, que o próprio Alencar - nossa maior expressão em todos os tempos - já havia publicado "Cinco Minutos", em 1856; "A viuvinha", 1857; "O Guarani", 1857; "Lucíola, 1862", e "Diva", 1864, não importa que lá no Rio de Janeiro, enquanto o Sr. Thomaz Pompeu de Souza Brasil também já havia dado a conhecer inúmeras obras sobre História, como membro que era de algumas entidades científicas, dentre essas a Sociedade de Geografia de Paris e os Institutos Históricos de Pernambuco e o Brasileiro. Ou seja: atividades literárias de altíssimo nível, de autores cearenses, embora produzidas em outro Estado da Federação.

O que ocorre é que por ficar todo mundo copiando todo mundo, no que se refere à nossa história literária, tanto os comentaristas de ontem quanto os de hoje tentam desvincular da nave-mãe (literatura produzida no Ceará) a literatura de autores nativos que tenha sido praticada em outros lugares e que veiculem temas não relacionados à província, estabelecendo-se assim um verdadeiro cisma na Literatura Brasileira, que, a meu ver, é uma só, boa ou má, praticada em qualquer Estado da Federação. 

Isso, porém, não influi nem contribui no enfoque que pretendo dar ao meu livro: um simples e sincero relato sobre autores cearenses a partir de José de Alencar, resgatando, quando possível, aqueles que foram ficando à margem de nossa história pelo simples fato de não pertencerem às castas dominantes no Estado do Ceará. Os que fizeram ou fazem boa literatura, independente do reconhecimento acadêmico ou popular.

Para mim, portanto, marco nas Letras do Ceará, partindo diretamente da província, com repercussão além-fronteira e relevantes ganhos culturais para o Estado, ocorreria precisamente a partir de 1873, com a criação de um grêmio lítero-filosófico equiparado à famosa Padaria Espiritual, que viria mais tarde com Antonio Sales e sua turma. Refiro-me à Academia Francesa do Ceará, uma entidade que abrigou nomes como Capistrano de Abreu, João Lopes, Rocha Lima, se bem que na década anterior Araripe Júnior já houvesse publicado"Contos Brasileiros" (1868) e "Cartas Sobre a Literatura Brasileira" (1869), no Rio de Janeiro, dando mostras do grande ensaísta que firmaria nome na Corte, ao lado de José Veríssimo e Sílvio Romero, com os quais formaria a denominada trindade crítica do Naturalismo Brasileiro. Seus ensaios posteriores, sobre Gregório de Matos, Raul Pompéia e José de Alencar, ainda são atualíssimos e indispensáveis aos estudos sobre literatura brasileira.

Capistrano de Abreu, por sua vez, viria a se tornar o principal Historiador de nosso país, publicando obras fundamentais, como o "Estudo sobre Raimundo da Rocha Lima" (1878); "José de Alencar" (1878); "O Descobrimento do Brasil (1883); "A língua dos Bacaeris" (1897); "Os Caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil"; "Capítulos de História Colonial" (1907); "Dois documentos sobre Caxinauás" (1911-1912), aqui devendo incluir-se os livros póstumos: "Ensaios e Estudos (1931-33), e Correspondência (1954). Quanto a Rocha Lima, quis o destino que não vivesse o suficiente para deixar registrado todo o brilhantismo do seu pensamento. Provavelmente teria superado a todos os demais dessa expressiva geração, fosse pela consistência de suas análises humanístico-literário-filosóficas, quanto pela originalidade do seu estilo.

Nesse mesmo período, em São Paulo, Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho (Dr. Jaguaribe) começava a destacar-se nas letras, publicando várias obras, das quais destaco: "Reflexões sobre a colonização no Brasil"; Questões sociais; "Os herdeiros de Caramuru"; "Arte de formar homens de bem"; "Carta a Sua majestade o Imperador"; "Canalização do rio São Francisco para o Ceará"; "O Município e a República"; "Propaganda em favor do Município"; "O veneno moderno"; "O Império dos Incas"; "Atlântide"; "As Bases da Moral"; "O Brasil antigo", que seria traduzido para o francês pela Societá dês Antiquités Americanes, merecendo medalha de ouro. Domingos José era filho do Visconde de Jaguaribe, um aracatiense, bacharel em direito formado pela Academia de Olinda, tendo se tornado Senador pelo Ceará, em 1870, e Ministro da Guerra em 1871, condecorado com a medalha da Campanha do Paraguai. Era um grande pesquisador de história, juntamente com seu amigo Capistrano de Abreu.

Voltarei ao assunto




Os donos da literatura cearense


Como falei anteriormente, em toda a História da Literatura produzida no Estado do Ceará, os seus signatários (com raríssimas exceções) foram ou são graduados funcionários públicos, secretários de Estado, juízes, cartorários, professores, médicos, que, da mesma forma, estão sempre distribuídos nos melhores postos da administração pública desde que Martins Soares Moreno por aqui aportou. Uns, com algum talento para a escrita, devemos reconhecer; outros, porém, apenas vontadosos falsamente legitimados pelos mandatários. Fora desse círculo vicioso, ainda que dono de prosa ou verso de valor, nenhum escriba dos escalões periféricos obteria maior  visibilidade. Bonfim Sobrinho, Carlos Gondim e Otacílio de Azevedo seriam, talvez, as exceções nesse arco discriminatório. Sobre Otacílio, modesto operário mas também poeta de méritos, seria necessário que Mário Linhares praticamente denunciasse a injustiça que se praticava com relação a ele, para que, só assim, viesse a receber a justa homenagem. A propósito dessa discriminação, eu mesmo só ficaria sabendo de Otacílio através de outro excelente poeta também ignorado pelos donos da propalada literatura cearense, o simbolista Nonato de Brito, sem dúvida nenhuma um dos maiores simbolistas cerenses de todos os tempos, muito embora não tenha publicado nenhum livro. Vejam, por exemplo, essa sua tríade fantástica de sonetos:

MANHÃ


Ergue-se o dia como um deus taful
e a natureza, surpreendida, ao espelho
de um lago, ajeita o seu roupão vermelho,
laço de nuvem no cabelo azul.

Há pelos morros algo de Istambul,
ao pé dos quais o mangueiral, parelho,
desfia trêmulo, à feição de velho,
o rosário das frutas à aura sul.

E enquanto as aves, umas casas tortas
que vão abrindo a pálpebra das portas,
enfeitam-se de rouge no arrebol,

um coqueiro trepado na colina
prende na palma um raio de ouro e empina
o papagaio rútilo do sol.


TARDE MARINHA

Devora o mar, qual monstro, suas preias
e pelas barbas crespas de alva espuma
rolam algas e conchas, sobras de uma
ceia descomunal, de muitas ceias.

O vento agita as verdes centopeias
do coqueiral que próximo se arruma
e sob o qual uma casinha fuma
a chaminé em baforadas cheias.

Vai carregando a tarde o último feixe
de luz... à praia um grupo espera o peixe
que uma jangada traz, serena e langue.

E ao longe, contra o céu de nuvens foscas,
os urubus são pequeninas moscas
sobre a chaga do sol banhado em sangue.


NOTURNO

Adensa-se o carvão da noite e plasma
nele o terror do seu horrendo cetro.
Uiva o chacal do vento acuando o espectro
das sombras, fantasiadas de fantasma.

Salta um demônio deglutindo miasma
e outro dos vícios desferindo o plectro.
Bailam morcegos da extensão de um metro,
ronronam rãs no pantanal, com asma.

Bruxas vesgas, caveiras e corujas,
monstros que brotam das consciências sujas
desfilam rindo em tenebrosas levas...

E enfeitando o cortejo, os vaga-lumes,
unhas de fogo de amolados gumes,
passam rasgando o ventre nu das trevas.


Para terem ideia do enorme poder que essa casta literária tem exercido em nosso Estado, cito aqui um episódio bem significativo: todos os participantes do Grupo Clã - movimento literário que surgiu em Fortaleza nos anos quarenta do século XX - viriam a ser contemplados na década seguinte com relevantes cargos na recém-inaugurada Universidade Federal do Ceará, com exceção apenas do contista e teatrólogo Eduardo Campos, que ficaria à margem (como me confidenciaria de viva voz) devido a longínquo desentendimento ocorrido entre o então aluno Eduardo com o então Professor Martins, em que Eduardo sorriu de algo, que não era a explanação do Mestre, mas por esse foi tomado como sendo pouco apreço pela aula que ele ministrava naquele instante. Depois, felizmente, tudo se esclareceria, e se tornaram bons amigos.

Dentre os aquinhoados com cargos relevantes na UFC, gente com inquestionável capacidade para o ensino superior, porém nenhum que viesse a produzir obras capazes de atingir o grande público ou que se sobressaísse no contexto nacional, do modo como desejava o correto e honrado professor Martins Filho - defensor ferrenho da boa remuneração oficial para todo aquele que militasse nas letras, com o que também concordo, diante de um mercado editorial que sempre refuga as reais vocações. Por devotar tamanha consideração aos homens de Letras, o Dr. Martins Filho acabaria por criar o Programa Editorial Casa de José de Alencar, responsável pela publicação de dezenas de obras importantes de escritores do nosso Estado.

Para não ser injusto, eu diria que somente um escritor dessa época, aceito pelo Grupo Clã, embora não pertencesse à casta, fugiu a essa regra do benefício mútuo: José Alcides Pinto - por sinal protocolado por essas mesmas elites dominantes como maldito ou figura muito mais folclórica, se bem fosse ele um dos donos da melhor prosa produzida por aqui desde 1950, juntamente com o contista e professor Moreira Campos. Rachel de Queiroz à parte, evidentemente, já que essa fixara residência no sul maravilha, onde se habituaria a escrever ao molde de seus contemporâneos da geração de 1930, com especial destaque para a boa crônica, limitada, porém, a toques e formatações do jornal para o qual estivesse trabalhando...
(Aqui um ensaio sobre Rachel e sua obra).



Investigando a Padaria Espiritual






Incontáveis vezes, ao manusear antigas edições dos livros de Antonio Sales que eu resgatava de sebos por aí, perguntava-me a origem daquele seu lampejo que o levaria a criar uma Padaria Espiritual na provinciana Fortaleza de 1892, ainda que naquele tempo de desbragado romantismo (como já falei) fosse comum a instalação de grêmios literários e outras sociedades similares, por aqui, onde o próprio Sales chegara a fazer parte de dezenas delas, inclusive as de caráter político, numa das quais, diga-se, ganharia popularidade para se eleger Deputado Constituinte.

Outra coisa que me intrigava: o texto do poeta/prosador não diferia muito daquele produzido por seus pares mais talentosos. Uma literatura bem feita, inteiramente calcada no naturalismo, nada que o distinguisse em criatividade de seus contemporâneos Oliveira Paiva e Adolfo Caminha, ou mesmo de Rodolfo Teófilo. Por outro lado, minha curiosidade também se justificava porque sei bem que nada na literatura brasileira aconteceu ou acontece de forma inteiramente espontânea e original. Passamos a vida a copiar os manos portugueses que, por outro lado, já imitavam os franceses e ingleses, naquela roda dentada que nos fez marcar passo durante décadas.

Tarefa difícil e inútil - logo percebi. Só fui adiante na minha investigação sobre essa magnífica guinada na trajetória de Antonio Sales porque nos meus fragmentos de leituras esparsas sobre o poeta, sobretudo através do ótimo livro "Antonio Sales e Sua Época", de Wilson Boia, vi a figura singular de um cidadão de bem, completamente diversa daquela que tem caracterizado seus colegas escritores em qualquer época, quando a grande maioria nunca dispensa uma boquinha, seja de que natureza for. Antonio Sales, não.

O poeta abominava essas franquias oficiais e lamentava que o escritor não pudesse sobreviver de sua arte. Declinou de convites que lhe fizera Joaquim Nabuco para com ele servir em uma Embaixada, do mesmo modo que ignorou aceno do ilustrado e digno Caio Prado; ajudou Machado de Assis na fundação da Academia Brasileira de Letras e dessa esquivou-se sob tênue alegativa de que não era bom orador. Mais: quando teve que assumir alguma Secretaria de Governo em sua terra natal, o fez exclusivamente por circunstâncias políticas, vez que dessa regalia logo abriria mão, para viver recluso nos seus estudos e escrita. Nada desvendei do artista, bem verdade, mas fica aqui a minha sincera homenagem ao homem íntegro e consagrado autor de Aves de Arribação.

Antonio Sales arranhava bem o francês, lia Leopardi no original e recitava Shakespeare pros amigos sem se enrolar muito na pronúncia; um poliglota, portanto. Por um tempo, até cogitou estudar alemão, dado a intimidade com alguns escritores da terra de Hordellin. Algo raro em um jovem não pertencente à casta dominante em nosso Estado, originário que era das dunas do Paracuru, desprovido de curso superior e que, ao chegar à Fortaleza, ainda garoto, tivera que escapar por trás de um balcão de mercearia. Obstinado nos seus estudos autodidáticos, nas horas vagas o poeta incursionava pela Filosofia, criava passarinhos e tomava por hábito meter-se num terno branco e pentear o cabelo de bandinha - uma novidade na pacata Fortaleza dos anos oitenta do século XIX. Não era, pois, um mané o idealizador da Padaria Espiritual - movimento literário que anteciparia em três décadas aquele outro dos rapazes e velhotes de Sampa (Semana de 22), que acabaria por transformar-se em marco da literatura moderna tupiniquim...

Se as incursões de Sales pela poesia simples de Tennyson ou pelo lirismo exagerado de Stecchetti ou ainda pelos arroubos conservadores de Carducci, não me forneceram pistas para chegar a seu veio renovador, por outro lado pude captar alguma coisa em comum com o poeta em outro de seus autores prediletos, que foi o referido Carducci, de quem fiquei sabendo que na juventude fora figura central de um grupo de poetas que pretendia banir o romantismo e retornar à tradição clássica; ou seja: uma situação até certo ponto semelhante - se bem que paradoxa - a que propunha Antonio Sales nos Estatutos da sua Padaria. Esse mesmo Carducci que, mais tarde, viraria Senador e concederia aval à Monarquia de seu país, enquanto Sales fazia-se republicano e propunha a queda da Monarquia na terra Brasilis. Em comum, talvez, o viés contestatório de que se imbui todo jovem, sobretudo quando se é poeta - compreendi. Resumo da ópera: o que inspirara Antonio Sales, pelo menos na concepção filosófica da sua famosa Padaria, talvez se aproximasse mais do decadentismo francês de 1886, quando alguns poetas lançaram manifesto denominado Simbolismo, o que logo repercutiria em Portugal através das revistas "Os Insubmissos" e "Boêmia Nova", fundadas por estudantes de Coimbra, entre eles Eugênio de Castro, que, em 1890, publicaria Oaristos, um livro de versos que inaugura essa corrente literária na terra de Camões. Sem dizer que Sales também lia muito os loucos Baudelaire, Rimbaud e Paul Verlaine, e não esteja descartada a possibilidade de que da mesma forma lesse sobre a desconstrução de algumas teorias nacionalistas tão em voga naquele momento ou se interessasse pela psicologia do inconsciente, de Freud, ou enveredasse pelos desvarios de Nietzsche. Bingo! Ta na cara que o interesse do poeta em aprender outras línguas, sobretudo a alemã, não se dava por simples capricho de querer ler Goethe no original. E aqui - bom esclarecer - entra apenas a minha especulação meramente ficcional, uma vez que não estou a construir nenhuma tese acadêmica ou um complemento formal de tudo aquilo que já foi dito à exaustão sobre o poeta, aqui na pátria de Jáder de Carvalho...

Para concluir: como o bom autodidata sempre vai fundo naquilo que deseja desvendar, não descarto a possibilidade de que Antonio Sales quisesse ter o domínio do idioma germânico apenas para percorrer o ceticismo/materialismo de Nietzsche, o gênio rebelde que arvorara para si a "modesta" incumbência de varrer do mundo todos os seculares ideais do Cristianismo, e assim instaurar nova ordem calcada nos valores materialistas. Mais modesto, Sales queria apenas romper com uma forma viciada de expressar a literatura. Por aí...



O Século da Modernidade

Os cearenses não são melhores nem piores que outros escritores brasileiros. Por outro lado, não são iguais; apenas ocupam os dois extremos - se é que vocês me entendem...

Escritor, no aspecto obvio, é aquele indivíduo que lança um olhar crítico sobre as coisas do seu tempo. Espécie de anotador atento dos fatos e costumes que caracterizam uma época: modismos, evolução ou involução da língua, os anseios do seu povo, as conquistas na ciência, nas artes; toda a filosofia, enfim, de que se imbui uma sociedade em determinada quadra da História. 

Refiro-me, evidentemente, ao escritor normal, tipo Balzac, Eça de Queirós ou Machado de Assis. Há, porém, aqueles que estão anos-luz à frente de seus pares, ou aquém do que seria razoável em meio ao cenário em que transitam, dependendo apenas da visão de quem os observa. São os que subvertem a ordem, os denominados loucos geniais, excêntricos, transgressores, ou seja lá que nome lhes queiram dar. Casos de Baudelaire e Rimbaud, na França, ou Kafka e James Joyce no restante do mundo. Joyce e Kafka - não por acaso - os prepostos da intitulada literatura moderna, justamente porque se aventuraram em extensos compêndios sobre a “desconstrução” da própria literatura, inserindo-se nela, cada um, como protagonistas de dramas reais ou de coisa nenhuma...

A licenciosidade de Joyce, por exemplo, não encontra similar em toda a História da Literatura, desde a mais remota, à exceção talvez do surrealismo depravado (em doses menores, claro) do Marquês de Sade. Aquela coisa: muitos serão chamados, porém pouquíssimos se sentarão à mesa, nada adiantando o sujeito se dizer o "cara". ANTES DE TUDO é preciso desestruturar, propor, fazer diferente; aquilo que, infelizmente, nenhum brasileiro conseguiu até hoje. Augusto dos Anjos, provavelmente, foi o único a ousar um pouquinho mais, porém não o suficiente para credenciá-lo no rol dos gênios criativos universais. Da mesma forma que Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector foram excepcionais na prosa brasileira de maior alcance, mas sem que largassem a capa de escritores normais. Dessa forma, restaria muito pouco a dizer sobre Literatura de autores cearenses no decorrer de todo o século XX, estendendo-se até os dias atuais...

De toda a literatura produzida no Ceará, ou fora do Estado por autores da terra, de 1813 a 1900, seja no campo filosófico, histórico ou ficcional, eu diria - sem medo de errar - que os principais nomes são: José de Alencar, João Brígido, Oliveira Paiva, Franklin Távora, Adolfo Caminha, Antonio Sales, Araripe Júnior, Clovis Bevilaqua, Farias Brito, Rocha Lima, Capistrano de Abreu, Antonio Bezerra, Domingos Olímpio... (seguem-se análises sobre autores e respectivas obras).

Portanto, atingiríamos o dito século da modernidade literária abraçados ao camoniano José Albano, um esnobe cearense que cismou de percorrer a Europa em busca do elo perdido da ancestral poesia produzida no velho mundo. Genial, portanto, esse Zé, muito embora não tenha atingido seu objetivo nem angariado discípulos. Tão astuto, porém, que, ao se desvincular de todas as correntes que buscavam percurso lógico para a literatura na terra de Castro Carreira, resolveu morrer na França e ser sepultado por lá mesmo - que Deus o tenha...

Quintino Cunha, que lançaria em 1906, na França, o livro "Pelos Solimões", uma obra de interesse sobretudo histórico, que só seria reeditada quase um século depois, é também um de nossos nomes mais visíveis na primeira década do século XX, junto com Domingos Olímpio, a quem concedo o título de nosso primeiro grande escritor na era da modernidade. Seu Luzia Homem (um clássico do naturalismo, de 1903), serviria como matriz para outras obras que viriam a seguir...

Nos anos seguintes, assumiria o pódio o hoje esquecido e boicotado Gustavo Barroso, um sujeito realmente vocacionado para a escrita, autor de nada menos que 128 livros, e que tem sido ignorado até mesmo em sua terra natal, de forma proposital, creio. Um caso que mereceria estudo mais aprofundado, vez que G B escreveu não apenas ficção da melhor qualidade, como, sobretudo, ensaios históricos, refinada crítica, belos livros de memória, inúmeras pesquisas sobre o nosso folclore e até poesia. Nas minhas "caminhanças" entre livros, tive em mãos pelo menos uns noventa (ainda disponho de cinquenta) desse autor admirável, e a muitos li mais de uma vez, tanto pela excelência da prosa quanto pela aguda percepção histórica e sua exuberante forma de narrar. É impossível a alguém que ame o Ceará ficar indiferente ante a leitura de seus três livros de memórias: CORAÇÃO DE MENINO, LICEU DO CEARÁ, E CONSULADO DA CHINA. Ou diante do texto forte de O LIVRO DOS ENFORCADOS, ou ainda com TERRA DO SOL, ALMAS DE LAMA E DE AÇO, e tantos e tantos mais. O homem escreveu até um Dicionário Popular Brasileiro, foi Presidente da Academia Brasileira de Letras, e dizem que o seu posicionamento político enquanto membro da Ação Integralista Nacional muito influenciaria para que viesse a se tornar hoje um escritor desconhecido pelas novas gerações...

Não é minha área de análise, mas como admirador da boa literatura, não posso entender o que teria a ver a opção político-partidária ou filosófica de um cidadão com suas qualidades literárias. A meu ver, quem deve julgar o escritor é o público. Nenhuma academia do mundo, por mais conceituada que seja, e muito menos um editor, têm autoridade para julgar um escritor e sua obra, ou simplesmente omiti-lo por conta de supostas ideologias. E ninguém na vida comum, seja governante ou o que for, pode cercear no escritor o sagrado direito de expressar livremente o seu pensamento. Se ele estiver certo ou errado em suas posições, sejam literárias ou políticas, só o tempo dirá...

E neste momento de espantosa velocidade da informação, com a Internet comandando todas as mídias, não é justo que se sonegue às novas gerações os fatos mais significativos na história de um povo, e no caso presente, da literatura. Porque aí se estaria abrindo espaço para legitimação de grandes farsas, aos caudalosos textos que catalogam certos autores não pela importância literária de cada um, mas apenas por suas convicções políticas em determinada época...

Quase todos os blogs e sites do mundo virtual omitem Gustavo Barroso. Quando aparece alguma coisa, geralmente são textos que distorcem a realidade, e quase sempre mal escritos, cansativos. Chega um, apodera-se daquilo que foi feito por outro compilador, inverte a ordem de importância dos escritores relacionados (para se conceder ares de sapiência), acrescenta ou restringe outras figuras, e depois ainda passa tudo para um livro de papel que logo receberá legitimidade...
(Aqui, alguns exemplos).

O Quinze, da Rachel de Queiroz, e Tigipió, de Herman Lima, inauguram a década de trinta. Única novidade nesse período, uma mulher a escrever como homem e chamando a si as atenções de uma sociedade ultra-conservadora. Livro de valor, sem dúvida, porém comum no tocante a estilo e tema; perfeitamente possível até na visão de uma jovem bem nascida que só sabia das secas por ouvir dizer. Houve até quem insinuasse, à época, que o livro fora composto a quatro mãos, tendo como orientador o tio da escritora que mais tarde viraria apenas nome de lugar: Daniel de Queiroz... (Seguem-se apreciações sobre as obras e os autores citados).


O Canto Novo de Jáder de Carvalho e o Aplauso da Raça





Há várias referências, tanto nos livros de papel quanto na Internet, de que o movimento modernista no Ceará se inicia em 1928, quando Jáder de Carvalho, juntamente com outros poetas, lançam "O Canto Novo da Raça". Isso é certo, mas cabe aqui pequeno reparo, até por respeito aos pesquisadores que estejam realmente interessados na verdade histórica sobre literatura praticada no Ceará. Primeiro: O CANTO NOVO DA RAÇA (título excepcional) se refere apenas a uma coletânea de poemas dos jovens daquela geração posta em livro, e não a um manifesto de algo que viesse a ganhar maior consistência na província, como movimento literário, por exemplo. Segundo: faltava aos componentes do grupo uma maior dedicação à poesia, como sempre se espera do artista realmente vocacionado. Mesmo ao grande autor de Terra Bárbara - cabeça do suposto movimento. Senão, vejamos.

Jáder de Carvalho era um Homem culto, destemido e socialista; fundador de jornais (O Combate, A Esquerda e Diário do Povo), e visto muito mais como jornalista do bom combate que propriamente escritor, muito embora já se constituísse o principal nome da nossa literatura naquele momento. Ele próprio, em muitas oportunidades, deixou transparecer que se sentia mais à vontade atuando na trincheira política, enfrentando os poderosos, do que construindo versos ou encabeçando movimentos de ordem literária, embora fosse brilhante em qualquer uma das atividades a que se propusesse. Ou seja: naquele contexto social, sobressai-se o temido jornalista, em detrimento de sua excelente obra literária - hoje restrita a uns poucos estudiosos.

E isso é grave porque os já naturalmente avessos à literatura em nosso Estado, mesmo que se digam cultos e habitem o mundo acadêmico, sabem o mínimo do Jáder escritor, do poeta de méritos; ou se dele conhecem algo, simplesmente o omitem. Senhores que, por sinal, são os mesmos que determinam as obras a serem catalogadas para os Vestibulares, e que jamais distinguiram o autor de Meu Passo na Rua Alheia nessas relações, mas concedem crachás a pseudos poetas e a prosadores apenas medianos. Enquanto isso, o povo comum, os estudantes, pesquisadores etc, ficam sabendo de Jáder apenas o que ouviram dizer, não sabem onde, nem por quem; e quase sempre fatos distorcidos e alheios à literatura. Sabem das futricas, porém desconhecem do poeta seus embates jornalísticos da maior importância, em que, ao estilo de João Brígido, cutucava governantes e assombrava a burguesia, fosse por meio de sua pena afiada, pelo arrojo de sua oratória, ou mesmo no braço - se assim determinasse a circunstância. Todo esse destemor, aliás, aliado à vasta cultura de sociólogo, seriam fundamentais quando na sua viagem pelo romance e a poesia, o que, infelizmente, poucos conhecem - repito...

Na literatura de Jáder de Carvalho comparecem o Jáder jornalista, professor, advogado, humanista, o escritor enfim que jamais se omitiu do seu tempo, e que, nas horas vagas, também era um homem sentimental que fazia poesia. E tudo isso, se por um lado lhe rendeu forte admiração ou ódio por parte de pessoas que habitavam seu mundo, por outro forneceria farta munição aos desafetos de todos os tempos, que sempre tentaram minimizar sua obra - cunhando no homem a pecha de mero panfletário, se bem que assim procedessem por uma motivação bem clara. Em 1967 o poeta lançou ALDEOTA, um romance que causaria verdadeiro reboliço aqui no Estado e cuja primeira edição se esgotou rapidamente. No livro - misto de ficção e realidade - Jáder faz desfilar personagens que se inserem nas colunas mundanas como respeitáveis figuras da sociedade, quando, na real, não passam de escroques que enriquecem de forma fraudulenta, ao mesmo tempo em que constroem mansões monumentais no bairro que se tornaria o mais famoso de Fortaleza...
(Seguem-se análises sobre os romances e a poesia de Jáder).

Voltando ao "Canto Novo da Raça" e supondo que tenha sido mesmo um movimento literário, chegaremos à conclusão de que 90% de toda a produção literária do período deve ser creditada a Jáder de Carvalho, cuja obra supera em muito, tanto em qualidade como em quantidade, a de seus pares desse período. Vale citar alguns livros: O Problema Demográfico Brasileiro (1930), O Índio Brasileiro (1930), com especial destaque para os romances: Povo sem Terra (1935), Classe Média (1937), Doutor Geraldo (do mesmo ano), e depois, A Criança Vive (1946), Eu Quero Sol (1946) , Aldeota (1967), Sua Majestade, O Juiz, dentre outros...

Outra figura de destaque no "Canto Novo da Raça" foi Demócrito Rocha, um baiano de nascimento, porém cearense de coração. Professor, político, jornalista, um homem perfeitamente integrado ao nosso povo, e que aqui se casou com ilustre cearense, teve filhos, construindo brilhante trajetória na vida pública, com marcante atuação no Congresso Nacional, em que fazia valer seu verbo de orador eloquente e sua veemência de excelente jornalista, sempre defendendo as coisas de nosso Estado.

A exemplo de Jáder de Carvalho, Demócrito Rocha também fundou jornais, foi membro da Academia Cearense de Letras e em 1928 criou o jornal O Povo, ainda hoje um dos mais importantes do país. Um cidadão que atuava em várias áreas, e sem muito tempo, portanto, para maior dedicação à literatura, onde teria sido brilhante se mais tempo tivesse tido. É seu, contudo, RIO JAGUARIBE - belo poema que legaria à terra que tanto amou. Seria DR, talvez, o outro grande nome do Canto Novo.

Sidney Neto, outro linha de frente da Raça, era muito mais um boêmio. Não primava pela disciplina do escritor normal. Tinha estampa, usava barbona, mas lhe faltava provavelmente a alma de poeta. Quanto a Filgueiras Lima, o terceiro na linha de importância, esse foi, antes de tudo, um educador. Figura reverenciada na terra de Francisca Clotilde. Fundou colégios e fez do Magistério um sacerdócio. É vasta sua biografia no campo do Ensino em nosso Estado. Assumiu cargos importantes, virou nome de instituições de ensino, e, claro, escreveu versos. Poeta,sim, mas sem grandes ambições literárias.






Clã, Uma Sociedade Hermética


Provavelmente Fran Martins nem desconfiava que, ao criar um movimento literário em 1948 (Grupo Clã), sua própria visibilidade viesse a se consolidar mais tarde em outra área, exatamente no campo das Ciências Jurídicas, já como conceituado professor da Universidade que seria fundada por seu irmão Martins Filho - outro linha de frente do grupo. Ou, quem sabe, o Mestre já tivesse plena consciência de que seria praticamente impossível a qualquer autor nordestino sobressair-se com a sua literatura naquele instante, não sendo essa suficientemente forte para romper fronteiras e se emparelhar aos neo-modernistas estabelecidos no sul-maravilha sob comando de Clarice Lispector e Guimarães Rosa, e mais a D. Lygia, o Sr. João Cabral, o Drummond, o Vinícius, a Cecília, o Bandeira, e todos os remanescentes da geração de 30, ainda em plena atividade: Jorge Amado, Graciliano Ramos, Zé Lins, nossa Rachel de Queiroz, e mais os paulistas do Concretismo, O Dalton lá em Curitiba ou o Érico Veríssimo no extremo sul. Mais cômodo, portanto, e sensato, seria mesmo projetar-se abraçado a uma sólida profissão, assumindo os cargos possíveis, ocupando os espaços estratégicos na província e usando todo o seu inquestionável talento literário apenas na feitura de obras eminentemente técnicas. Seu Curso de Direito Comercial, de 1957, por exemplo, ainda hoje é bastante requisitado no mundo da jurisprudência.

Sábia decisão, portanto, a do patriarca, que, aliás, seria espelho para os demais componentes dessa associação que durante quarenta anos supriria todas as vagas da Academia Cearense de Letras, as cátedras universitárias ou os mais relevantes cargos da administração pública estadual; de todos os Institutos, Conselhos, entidades filantrópicas, editorias dos jornais, cartórios e tudo mais. Ou seja: a denominação CLÃ, nesse caso, muito mais que simples referência a tribo constituída por indivíduos que abraçam um ideal comum (no caso presente, a literatura), encaixa-se melhor no sentido de sociedade fechada, patriarcal e completamente distante das manifestações literárias mais espontâneas e abrangentes de seu tempo. Nela, nenhum representante das classes menos favorecidas dessa nossa amada terra de João Câmara; sequer um contistazinho originário da zona suburbana, ou um mísero poeta não chapa-branca; nada, nada! Apenas circunspetos senhores daquele velho tronco genealógico a que já me referi, todos com suas vastas biografias. Doutores nisso e naquilo outro, jornalistas, médicos, jurisconsultos a produzirem versos rigorosamente formais, contos tradicionalíssimos, ensaios verborrágicos, e até romances calcados no velho naturalismo de mil oitocentos e antigamente. Nada que cheirasse à renovação, que realmente instigasse ou desvendasse caminhos. Apenas os donos da situação estendendo territórios e abarcando cada vez mais todas as franquias oficiais. Moreira Campos, pelo incontestável valor de sua obra, seria a nota destoante dessa escala, se bem que não tivesse o Mestre por isso abdicado das regalias que os senhores da política costumam legar à intelectualidade, até para se concederem ares de magnânimos e preocupados com o desenvolvimento cultural da plebe. Sei...

Bem verdade que muitos participantes dessa entidade sabiam escrever, eram bons cronistas, jornalistas, faziam versos normais, publicavam livros, e dentre esses eu citaria Aluísio Medeiros, Antônio Girão Barroso, João Clímaco Bezerra e Otacílio Colares, com especial destaque para o professor Martins Filho - não tanto por sua condição de literato, mas pelo fato de ter sido um homem empreendedor, dinâmico e que segurou até a morte um Programa Editorial responsável pela publicação de dezenas de livros aqui no Ceará, inclusive a reedição de obras importantes, conforme já falei, sem dizer que fora ele um criador de Universidades...

Como se observa, apesar dos méritos de muitos desses senhores que formavam o Clã, nenhum conseguiu sobressair-se no cenário nacional como escritor, tornar-se um nome, como seria o objetivo natural de quem escreve. Destacaram-se em diversas áreas, viraram nome de rua, mas em termos de literatura, infelizmente, ficariam todos restritos à província, até mesmo aqueles com maior talento e que se aventuraram em andanças por Sampa ou pelo Rio de Janeiro... 
(seguem-se análises de autores e livros).

A literatura pode até ser ingrata com muitos, porém há nela um filtro natural: só os mais relevantes permanecem, embora alguns venham a ser injustiçados em determinada época. Pouco importa que escrevam no Ceará ou em Nova York.

Para não dizer que a nossa literatura nada tenha produzido de relevante durante esse longo período em que o CLÃ exerceu rígido controle sobre o que seria ou não literatura em nosso Estado, eu abriria brecha para José Alcides Pinto, que sequer fazia parte da Corte do Sr. Fran. Era, digamos, um livre atirador, e por isso mesmo talvez tenha produzido a mais legítima literatura desse tempo. Jáder de Carvalho, o excepcional poeta que despontou como figura de proa do nosso Modernismo, foi outro discriminado pela Corte do Sr. Martins, muito embora tivesse permanecido em fértil produção até o derradeiro dia...





O País dos Mourões e Seu Poeta Maior
"Em toda a minha obra, o que tentei foi escrever a Epopeia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de "O País dos Mourões". Palavras de Ezra Pound, sobre Gerardo Mello Mourão.





O pouco apreço pela cultura do estado do Ceará tem sido um dos grandes responsáveis pela inércia da literatura produzida nesse Estado desde a época em que Antonio Sales tirou a primeira fornada em sua famosa padaria. Ou seja: construiu-se uma espécie de dobradinha nefasta entre escritores de curto calibre e mandatários preocupados apenas em manter privilégios, numa sórdida parceria que vem obscurecendo as reais vocações, a exemplo do que fizeram com Gerardo Melo Mourão, um dos maiores nomes da literatura brasileira de todos os tempos, porém completamente ignorado em sua própria terra, que, aliás, tanto enalteceu com seus versos de largo alcance.

Pergunte-se a qualquer cearense comum quem foi esse poeta genial e ele dirá, nas buchas: "sei lá!". Enquanto isso, mencionará Patativa do Assaré e outros meio escritores sem qualquer importância, mas que já tiveram - imaginem! - arremedos de livros selecionados para os vestibulares na terra de Álvaro Martins. Verdadeira desordem. Descalabro. Não existe nem adjetivo com que se possa dimensionar tamanho disparate. Politicalha. Puxa-saquismo, inveja, revanchismo; sei lá. Como se conceber que um indivíduo com dois ou três livretos extremamente precários possa ter algum selecionado para Vestibular de uma Universidade Federal?! Pois foi o que já ocorreu muitas vezes na terra de José de Alencar, sem que ao maior poeta cearense de todos os tempos se concedesse a honraria, assim como também não fizeram a Jáder de Carvalho, outro poeta que, se não chega ao nível de Gerardo, emparelha-se com Francisco Carvalho.

Já ouvi relatos sobre pseudos escritores que enviavam mimos, via sedex, para figuras-chaves na chamada crítica de resultados, no sul-maravilha. Poetas menores buscando legitimidade na província a qualquer custo, insinuando-se para "sumidades" no assunto, fazendo a política rasteira de detonar concorrentes. Sei lá. Pode até nem existir esses conchavos, tudo não passar da sórdida guerrilha interna que os rascunhos sempre travam entre si em busca de mais vantagens, porém não devemos ignorar que no alto clero das mal-traçadas, em qualquer Estado da Federação, a primeira coisa que um recém-empossado de Secretaria de Cultura faz, logo ao assumir o cargo, é detonar os que ocupam pontos estratégicos, preenchendo as vagas com seus "intelectuais" de cabresto, seus poetas chinfrins, meio romancistas, colunistas de amenidades, normalmente gente ligada à mídia, que funcionará como alter ego do mandatário, amortecendo todos os ataques na direção do Chefe, seja de corpo presente ou através de jornais, rádio e TV. Ora, a coisa que mais deseja um midiático desses é segurar um gordo cargo vitalício e garantir o bem bom para si e os seus pelo resto da vida, já que filho de medalhão, na província, terá vaga certa em qualquer órgão do Estado, independente de sua cor partidária. O vulgo nunca percebe, mas todos esses cidadãos alocados nos cargões da administração pública estão, na maioria, interligados pelo mesmo cordão umbilical, já que oriundos do velho tronco genealógico de cinco ou seis famílias que abarcam simplesmente tudo na terra de Capistrano de Abreu, desde que Martins Soares Moreno aportou por aqui. Não é à-toa, aliás, que certas academias, Institutos e outras entidades dito culturais jamais deixam de ter como membro aquele indivíduo pouco íntimo das letras, mas que, em determinado momento, deteve o comando político do seu Estado. O velho benefício mútuo - o poder literário na sua forma mais mesquinha, completamente distanciado das manifestações artísticas mais legítimas de um povo; de pai para filho, eternamente.

O assunto é interessante e vasto, mas, neste artigo, quero me concentrar apenas em Gerardo Melo Mourão, um artista das letras que elevou o nome de nosso Estado, sem que precisasse em momento algum vincular-se a nenhum movimento ou participar do "toma lá, dá cá". Gerardo, que foi tido, não por acaso, como um dos principais poetas latino-americanos do século XX. Um homem de riquíssima história pessoal e de não menos bela trajetória literária, conforme ele mesmo narrou em muitos de seus livros. A própria biografia do artista já enriquecerias as páginas de um romance, e isso poderemos ver no resumo que fiz dos apontamentos constantes em um de seus livros, e que posto a seguir:.

Gerardo foi menino entre as estripulias sangrentas de poderosas famílias dos Inhamuns - como ele mesmo narrou em muitos textos geniais. Ao tropel dos cangaceiros e a aventura da Coluna Prestes. Brincou e chorou sob saraivadas de balas, a recolher com a senhora sua mãe (tia da minha) os revolucionários que tombavam sobre a calçada de sua casa. Chegou a ser seminarista, junto aos Padres Redentoristas, enclausurando-se em seguida para se debruçar nos estudos e nas práticas da Congregação do Santíssimo Redentor. Não se tornou padre, é certo, porém permaneceu firme no catolicismo até o fim de sua vida. Foi professor em renomados colégios no Rio, escreveu em diversos jornais, falou fluentemente nove línguas, inclusive o grego e o latim. Esteve preso várias vezes durante a ditadura do Estado Novo, foi perseguido pelos golpistas de meia quatro. Numa das detenções, ficou no cárcere por cinco anos e dez meses, vítima de processo forjado por um Tribunal arbitrário, que o condenara a trinta anos de prisão. Derrubada a ditadura Vargas e extinto o Tribunal infame, o processo ilegal seria anulado por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal. Viajou por toda a América, Europa, e fez da poesia a sua profissão de fé. Costumava dizer: "A poesia é, assim, o único tempo e o único espaço possível. A única categoria humana, exercitada menos no ato de fazer poemas que na forma e no rito de conviver com as coisas, os lugares e as pessoas". No cárcere produziu O "Valete de Espadas", um livro tão bom quanto os melhores de Kafka, cujos originais seriam confiscados por policiais medíocres que alegavam serem textos subversivos. Teve que Lutar durante anos para reavê-los e com ele ganhar Prêmios e traduções em diversos idiomas.

De Gerardo Melo Mourão, disse, certa vez, Ezra Pound, aquele mesmo cara que já fizera implacáveis observações em alguns poemas de T. S. Eliot: "Em toda a minha obra, o que tentei foi escrever a Epopeia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de "O País dos Mourões" Querem mais?





Moreira Campos: Viga um do Conto Cearense


Não seria exagero se eu afirmasse que Moreira Campos reinou absoluto no Ceará durante toda a segunda metade do século XX, e continua, depois da sua morte em 1994, como a nossa maior expressão no conto. Os menos familiarizados com as coisas da terra do Padre Verdeixa poderão até se indagar quem teria sido esse Mestre da narrativa curta. E eu lhes explico:

Moreira era um velho admirador de Tchekov, que, em 1949, lançou Vidas Marginais - um livro de contos semelhante a tantos outros publicados até então pelos melhores cultores do gênero, em todo o páis. Narrativas um tanto longas, temas corriqueiros; começo, meio e fim. O diferencial estaria, talvez, na sua extrema habilidade em manusear os assuntos banais, sem despencar para o lugar-comum. Em suas narrativas, mesmo naquelas de enfoques libidinosos ou meramente engraçados, nota-se no autor uma constante preocupação em torná-las menos ásperas ao conservadorismo hipócrita dos analistas de carteirinha. Mesmo assim, é impossível não se deliciar, por exemplo, com a história do casal de anões, em que um negro parrudo e escroto lhe invade a casa para roubar-lhe os parcos pertences. As pecinhas íntimas da minúscula mulher penduradas no varal, o anão querendo criar marra para cima do larápio, e esse, de pura cretinice, fazendo gestos obscenos para sua companheirinha, perguntando-lhe se o agüentaria. Depois, a moral do nanico peitando a autoridade policial, exigindo providências para aquilo que considerava grande desonra familiar. Pensem! Ou não ficar tenso diante da freirinha ingênua sob rígido controle de uma Madre Superiora cheia de segundas intenções... Segue longo ensaio sobre Moreira Campos e sua obra).

Cada conto de Moreira se constitui pequena obra-prima. Percebe-se em toda sua trajetória de quase meio século de boa escrita, a preocupação com a forma, o aprimoramento de estilo e a busca incessante pelo efeito estético da palavra. Se no início construía textos de maior robustez, o que na visão de hoje poderia ser tomado como exagero, isso se dava exclusivamente por uma determinante de momento. Nenhum desses contos, porém, se perde pelo excesso, a exemplo de "Lama e Folhas", uma excepcional narrativa de muitas laudas que captura o leitor desde o seu primeiro parágrafo...

A partir de "Os Doze Parafusos", de 1978, Moreira assume nova postura, enquadrando-se naturalmente à velocidade do tempo, com narrativas enxutas e não menos densas em seu conteúdo vário. Depois viriam "A Grande Mosca no Copo de Leite" (1985), "Dizem que os Cães Vêem Coisas" (1987), e a participação em algumas antologias. Em 1996 suas obras completas seriam publicadas pela Editora Maltese, de São Paulo (provavelmente custeadas por alguma entidade), restando agora ao Governo de nosso Estado apenas prestar a justa homenagem a esse extraordinário escritor que o Brasil ignorou, não por culpa de seu povo, mas pelo mercenarismo de um mercado editorial que vem matando o pensamento nacional, publicando apenas traduções descartáveis e obras no domínio público. Do mesmo modo que certamente farão com o Mestre, daqui há quarenta anos...

Gravitando em torno de Moreira Campos, seus companheiros da Academia Cearense de Letras; alguns a produzirem livros por metro quadrado, outros apenas a reescreverem a crônica do bode ioiô; e, na periferia literária, o baixo clero a se engalfinhar por um naco de projeção na província. Todo mundo detonando todo mundo, atirando pedras no caminho, chaleirando as autoridades, cavando empreguinhos, produzindo revistinhas e ajudando no traslado da moribunda... (aqui, análise sobre alguns desses autores).

Durante os anos setenta, nada de relevante na província, se bem que o período - em plena efervescência Beatles, pop/rock, libertação feminina e outros babados - fosse mais que propícia aos experimentos. Se fizermos um retrospecto sobre esse período, veremos o senhor Francisco Carvalho nos amplos e luxuosos salões da Reitoria da UFC a remoer seus próprios desencantos ou a construir orelhas para os livros da Coleção Alagadiço Novo; o Sr. José Alcides Pinto em sua eterna viagem pelos trópicos da perversão humana, e mais uma centena de escrevinhadores fazendo barulho ao redor, cada um se achando a reencarnação de Kafka. Os que mais ousaram nesse período, foram Carlos Emílio Correa Lima e Gilmar de Carvalho... (Aqui entra ensaio sobre os autores mais relevantes das décadas de setenta e oitenta).






Disenteria da Crítica Especializada


Sei que muitos ficarão indignados ou aliviados por eu ter omitido seus nomes nesses meus comentários sobre Literatura na terra de Raimundo Varão. De todo modo, devo dizer a esses senhores que o critério aqui é apenas o valor literário da obra e não os títulos acadêmicos ou a projeção social de cada indivíduo mencionado. Em outras palavras: apenas a minha opinião. A escrita que admiro ou não.

No livro, breves apreciações sobre autores dos anos oitenta.

A década de noventa se inicia sem novidades. Marasmo. Vida ganha para os donos da literatura cabeça chata. O feudo rigorosamente sob controle. Aqui e ali um livrinho de poesia, mais uma orelha do Francisco Carvalho, um comentário no jornal do poder – a confraternização em um clube grã-fino... Em 1997, Pedro Salgueiro publicou um Almanaque de Contistas Cearenses, apresentando não somente aqueles que verdadeiramente estavam se iniciando naquele momento, mas também a velha-guarda do conto cearense (erro grave), o que só fazia algum sentido pela denominação ALMANAQUE que fora dado à brochura. Dessa forma, a breve e desinteressada citação na mídia local, que se deteve apenas nos medalhões, ignorando quase que por completo o próprio autor da coletânea, juntamente com as duas estudantes de Letras que o auxiliaram na confecção do livro. Pedro Salgueiro ganharia praticamente todos os concursos literários ocorridos no Estado, assim como em outras localidades... De todos os "novos" que apareceram no Almanaque, contudo, o destaque ficaria mesmo para Ronaldo Correia de Brito, ganhador de muitos prêmios literários posteriores, inclusive um no Estado de São Paulo em que até o consagrado Saramago participava, o que, segundo as más línguas, precipitaria o desenlace físico do grande autor. Ora, se ganhou o Nobel de Literatura, como poderia perder para um autor desconhecido por 99,99% da população brasileira?... Dimas Carvalho seria outro destaque dessa geração. Napoleão, contudo, seria mesmo o mais inventivo, aquele com a incumbência de corromper as estruturas, de investigar exaustivamente várias vertentes da literatura, até se fixar em... nenhuma. Apenas burilar o melhor efeito, adaptar os personagens à narrativa cujo astro principal haveria de ser sempre ele, autor, e não o contrário. Todos os personagens de Napoleão, por mais densos e inquietantes que possam parecer, gravitam em torno do dono, tornam-se secundários diante daquele que os colocou em cena. Invariavelmente morrem sem epitáfio, mas não sem antes cravarem no mármore a inconfundível marca de quem os construiu. Pena que Napoleão tenha abdicado da literatura... (aqui entra os ensaios sobre os contistas do Almanaque).

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Em breve, novos fragmentos.

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