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RAPSÓDIA RUBRA

Por ALimaS


Quando Karl Marx previu a morte do Capital e o advento de uma sociedade voltada para as artes, quis dizer: "voltada para o software".
Somos atores e plateias previamente elaborados, virtuais e infinitos.
Dispersos do nosso próprio tempo.
Ou inseridos em todos.
A cultuar mitos.
Ou destituí-los.
E divagar em ideias já estabelecidas.
Válidas ou fraudulentas.
O destinatário de uma obra nem sempre será receptivo ao que lhe tenta dizer o artista.
Literatura não é arte de entretenimento.
Todo artista caminha sobre o vértice que separa a sensatez da loucura.
Impossível determinar quem seria lúcido ou parvo na presente quadra da nossa história.
O tolo, geralmente, vocifera que escreve para a posteridade.
O sábio vislumbra a posteridade.
Erasmo de Roterdã já previa os desvarios da raça humana através dos tempos.
E o supremo papel que a cada um de nós teria sido reservado.
Por força da nossa estupidez ou sabedoria.
Na absurda epopeia da vida os mistificadores só se acercam de palhaços genuinamente palhaços, que os façam gargalhar para esquecerem a monstruosidade de suas almas.
Ou de tolos assumidamente tolos que endossem suas vilanias.
São os desdobramentos da loucura e suas diferentes máscaras ao decorrer dos séculos.
Erasmo nos inseriu a todos num cenário de alienados transbordantes e universais.
Em que haveríamos de celebrar a loucura como deusa absoluta da felicidade.
E amaldiçoar a sapiência degenerada e inútil dos poetas.
Em qualquer época.
O sábio, nessa comédia arbitrária, seria aquela figura grotesca e indesejável.
Taciturna e ridícula.
Ultrapassada e triste.
Um estraga-prazeres terminantemente proibido de adentrar os salões distintos.
Ou proferir suas aleivosias publicamente.
Quando Erasmo declinou ao convite da Igreja para se tornar Cardeal, assim o fez para não se privar de suas reflexões autônomas.
Do mesmo modo como ignorou a Lutero que também desejava cooptá-lo para sua causa.
O livre pensador que vislumbrou um cenário louco que atingiria seu ápice exatamente agora.
 O mundo em que o mentecapto da visão do sábio seria, tanto para a plebe enlouquecida quanto aos olhos dos áulicos, o grande formulador da felicidade a ser conquistada.
Vivemos um momento altamente propício à criação literária.
O escritor deve participar das ações nessa epopeia absurda, mas sem se envolver emocionalmente.
Em O Som e a Fúria, que evoca a hostilidade racista no sul dos Estados Unidos, William Faulkner percorre um clima tenso com absoluta isenção.
Observa tudo, tem perfeita noção do fato, mas não se envolve.
Usa quatro narrativas distintas através de personagens que evoluem num mesmo cenário trágico.
Vivenciam igual drama, porém cada um terá sua própria noção de tempo, espaço e ponto de vista com relação ao que ocorre.
Apenas a esses será permitida a emoção.
O escritor é como o cachorro tentando morder o próprio rabo.
Exercita-se à luz de teorias já postas a experimentações.
Há no mundo uma reserva natural de ideias brilhantes.
Devidamente codificadas.
À disposição do gênio criativo.
Algumas, já legitimadas pela consciência coletiva.
Outras, ainda em preparo.
Todos os poetas recebem as mesmas emanações.
Alguns absorvem; poucos criam.
Na prosa, nem sempre valerá o que está escrito.
Na poesia, o livre arbítrio.
O simbolismo de Charles Baudelaire não influenciou na obra de T S Eliot.
Ao deslocar para Londres cenas triviais da Paris catalogadas por Baudelaire, T S Eliot apenas incorporava imagens que já eram suas.
Ou minhas. De qualquer um.
Em Four Quartets, T S Eliot reflete sobre um tempo místico apenas para compor estilo.
Não expressa sua posição definitiva sobre algo que ainda especula.
Fossem na composição do poeta menor, os elementos de Four Quartets formariam não mais que uma peça esotérica.
A cogitar sobre a natureza do tempo e sua influência nos indivíduos.
Ao gênio criativo não importa como algo se estabeleceu no mundo.
O que vale é que a ideia permaneça sempre ativa.
Ainda que não venha a se realizar.
Na concepção do artista tudo existirá.
Ainda que eventualmente não seja dito ou presenciado.
Na inexistência do tempo pré-determinado a poesia seria intuída sem imagens.
A palavra sugere, mas não oferece padrões de sentimento.
Você não sente a mesma dor que eu sinto.
Nem eu me emociono com aquilo que alegra sua alma.
Na escala do tempo – essa coisa indefinida – o segredo da vida.
Presente e futuro se fundem no espaço que só pode ser decifrado pelo sonho.
Através da poesia.
Ou da loucura, não importa.
Em que resultaria a reflexão do artista sobre o fato real transmutado em ficção?
Katherine Mansfield vislumbrou a morte como cessação do infortúnio.
E a vida como fixação da agonia.
Foi amarga na constatação do fato.
Sensível no lampejo poético.
E perfeita na construção literária.
Morte e vida, ilusão e realidade se fundem de forma positiva.
Ou negativa.
Consciência e inconsciência independem do estado de espírito.
Felicidade e infelicidade nascem e morrem simultaneamente.
Onde a razão?
O escritor busca a virtude, mas não domina as paixões.
Alguns serão legitimados ainda que não tenham produzido obra relevante.
Ou se vinculado a qualquer consórcio literário.
Kafka já foi etiquetado como simbolista e até realista.
 Embora praticasse apenas o experimentalismo anárquico.
Não precisou criar um grande personagem.
Nem refletir sobre algo hipotético.
Apenas expor seus próprios conflitos diante da máquina repressora do Estado.  
Estabelecer o absurdo como roteiro de suas narrativas.
E nela se inserir como protagonista.
Thomas Mann via a obra de Kafka como alegoria religiosa.
Uma missão, metafísica por natureza, para Deus.
Obra camaleônica.
Focada em criaturas absurdas.
Enfileiradas em conflitos produzidos por elas próprias.
 À falta de um delineamento lógico em que pudesse conduzir suas narrativas, Kafka optou pelos relatórios jurídicos.
Excelentes folhetins, de cuja dimensão criativa ele próprio desconfiava.
A obra de Kafka tanto pode ser vista pelo lado humorístico quanto subversivo.
O Estado totalitário estabeleceu diretrizes na literatura de Kafka.
Mundo absurdo + indivíduos cruéis = surrealismo.
Uma obra de relatórios oficiais.
Peças criminais da repressão metamorfoseadas em arte
Em todas, o mesmo apelo metafísico e obscurantista.
Aterradores.
Inevitáveis.
Kafka não precisou ser etiquetado para ganhar legitimidade.
Diferente de Thomas Mann.
Otto Maria Carpeaux afirmava que Mann era o maior dentre os escritores menores.
Mais comedido, Harold Bloom afirmava que a obra de Mann era datada.
Logo cairia no esquecimento.
Mann enfia Nietzsche, Shoenberg e Adorno em uma narrativa do Fausto e consegue resultados satisfatórios.
O mesmo não se poderia afirmar sobre A Montanha Mágica.
Mann tentava justificar sua obra recomendando dupla leitura em cada livro.
Flaubert considerava imperdoável um artista justificar sua obra.
O escritor deve escrever apenas para outros escritores?
A minha reflexão flui melhor sobre o imponderável.
Dentro de um contexto ilógico.
Não, isso não é absurdo.
Se partirmos do absurdo da tese contrária, poderemos concluir pela verdade da tese lógica.
Li isto num livro antigo.
O absurdo será raciocínio lógico se verificarmos que o contrário da tese é incompatível com a hipótese.
Para você seria mais cômodo desviar-se do imaginável.
Refugiar-se no palpável.
Para mim, não.
Você talvez ache irrelevante que Freud tenha classificado a religião como neurose obsessiva, da qual o homem só se libertaria ao atingir a maturidade plena.
Eu, não.
Todos os fatos se relacionam entre si e formam a reserva de ideias brilhantes
que supre a memória coletiva.
Que gera o absurdo na grande epopeia.
Mundo louco – você poderia dizer, simplesmente.
Acho significativo que Sartre tenha morrido ao se iniciar a guerra no golfo pérsico.
Saldo de 700 mil mortos.
Você talvez não.
Ou que John Lennon tenha sido executado em frente ao edifício Dakota por um desvairado em cuja mão carregava exemplar de “O Apanhador no Campo de Centeio”.
Há três símbolos nesse evento trágico.
Que renderiam milhares de teses.
Quem teria sido mais significativo para a cultura ocidental: John Lennon ou Sallinger?
Tudo se relaciona na grande epopeia.
Enquanto os Beatles gravavam o último disco na Abbey Road, o povo alucinado de uma metrópole sem alma entoava refrão infame para louvar a tortura.
Deu-se o fato por aqui como poderia ter ocorrido em qualquer outra parte do mundo.
Lírico, não?
Mesmo povo que já invadira ruas numa passeata monstro para consolidar um Golpe de Estado.
E antes havia sido proibido de dançar Rock n' Roll.
Uma metrópole sem sol.
Sem musicalidade.
Sem cheiro.
Sem alma.
Como tantas no mundo.
Vértebra de concreto armado como se fora mera entidade virtual.
Em que só pulsa um coração de pedra.
Música é alegria ou patriotismo?
Responda sem divagar na filosofia especulativa ou no ceticismo de fachada!
Enquanto viveu, Anatole France foi violentamente atacado por reacionários.
Depois da morte, pelos surrealistas.
Por conta do seu ceticismo sorridente.
Quando o nosso país tinha treze aninhos de existência, Maquiavel já havia estabelecido normas de como preservar o poder lançando mão da violência e da fraude.
Quatrocentos e cinquenta e sete anos depois, nossa seleção de futebol conquistava o tri no México.
Terra de Juan Rulfo, Zapata e Pancho Villa.
Um revolucionário iletrado, porém grande estrategista.
Invadiu os Estados Unidos, enfrentou o exército ianque, sofreu insubordinação da própria tropa, ataque de gringos mercenários.
E foi brutalmente assassinado em um rancho.
Quando queria apenas criar cavalos.
Martin Luther King ganhou o Nobel da Paz e foi eliminado com um tiro no peito.
Não pôde assistir o desembarque de tropas no Vietnã.
Guerra concluída oito anos depois.
 Lucro fantástico para a indústria armamentista.
Saldo de sessenta mil heróis na vala comum.
Trezentos e cinquenta mil mutilados.
Setecentos e oitenta mil feridos.
Três mil desaparecidos.
E uma legião de seres delirantes que ainda rendem bilhões à indústria cinematográfica norte-americana.
Falar sobre mim?
Não fiz outra coisa até aqui.
Analisar a história e a literatura é também dizer de mim.
Faço parte da síntese.
Ok. Serei mais claro.
Você segue por uma rua com árvores frondosas.
Cai, levanta, cai novamente.
De repente avista uma luz vermelha sobre a fachada do casarão gótico.
Aproxima-se e verifica que está diante de um cabaré.
Sou eu.
Rapazinho surgindo no palco da vida.
Não ganhei etiqueta, mas também faço parte da História.
E da paisagem, evidentemente.
Aprendi cedo que todo indivíduo tem direito ao nome.
À honra.
À vida.
Até que uma autoridade resolva subtrair de você esses apêndices, naturalmente.
Não tome como vulgaridade essa minha referência a um prostíbulo.
A literatura moderna, assim como a antiga, muito devem aos prostíbulos.
Antro de Prazer e não de marginais.
.A escrita alucinada de Bukowski é a mais verdadeira do seu tempo porque transita pelos prostíbulos sem ser artificial.
Seu estilo obsceno-coloquial ameniza o caráter violento e despudorado da linguagem.
 Muitos tentaram o mesmo efeito na literatura de esgoto; nenhum conseguiu.
Bukowsky absorveu o pessimismo de Dostoiévski e a simplicidade de Hemingway, para dilui-los nos cabarés de Los Angeles.
Literatura autobiográfica, assim como a de Kafka.
Jean-Paul Sartre considerava Bukowski o maior poeta da América.
Quer sair, fique à vontade.
Ok.
Entrei aqui apenas para descontrair e fui ficando.
Por você.
A prostituição já foi profissão de respeito.
Quando ligada aos ritos religiosos dos fenícios e babilônios.
Na Grécia antiga as prostitutas eram mais admiradas pela inteligência que pelos dotes físicos.
Friméia sobressaiu-se às demais.
Condenada pelo crime de ser bela, mas absolvida depois de se despir diante de Magistrados.
E recitar um poema.
Aspásia, além de bela e inteligente, casou-se com Péricles e exerceu sobre ele enorme influência.
A prostituição só se degenerou a partir da idade média.
Quando teve o caráter de profissão reconhecido.
E se constituiu substancial fonte de renda para o Estado.
Todos nós das gerações anos sessenta e setenta nos iniciamos na zona.
As moças seguravam a virgindade na esperança de capturar um homem de bem.
Restava-nos a zona.
Os anos sessenta foram puramente emblemáticos.
Não houve revolução cultural.
Apenas aperfeiçoamos descobertas.
E destruímos conquistas.
Bem diferente do que você imagina.
Tudo já existia nos anos sessenta:
Rádio, telefone e Jazz.
Hipocrisia, miséria e sonho.
Poemas de Augusto dos Anjos, avião e artes plásticas.
Mentira, penicilina e traição.
Melhores perfumes e vinhos.
Carro, brilhantina, Picasso e papel higiênico.
Tudo, tudo já existia.
Se muito fizemos foi aprimorar mecanismos de extermínio em massa.
Cultivar a chantagem e a dissimulação.
Depois que os experimentadores da bomba detonaram Hiroshima, eliminando 100 mil no ato, não pararam mais.
Jogar substâncias químicas na cabeça de criancinhas e velhos foi mera profilaxia.
Qual a contribuição do movimento hippie para o crescimento da alma?
E da minissaia?
Da maconha?
De Marilyn Monroe, Elvis Presley, Andy Warhol, Beatles e Woodstock?
Qual foi o lucro da humanidade com a invenção do Sputnik?
Desembarque do homem na lua?
Descoberta do videoteipe?
Desculpe-me outra vez por me desviar do essencial.
Eu falava de mim, inserido num contexto social.
Percorrendo mundos.
Frequentando os lupanares da vida.
Iniciei-me na zona com quinze anos.
Era normal iniciar-se na zona com quinze anos.
O pai fazia questão de levar o garoto pra zona.
O cabaré sempre foi reduto preferido de vagabundos do meu naipe.
Agora, não mais.
Nunca fui vagabundo.
Entenda.
Só se você quiser analisar pelo lado de quem vive lendo de forma compulsiva os "livros fundamentais".
No meu tempo de menino, todos os adultos ao redor tinham suas relações de livros fundamentais para nos oferecer.
Eis os dez livros essenciais ao engrandecimento do espírito.
Cansei de ouvir.
"A Odisseia é indispensável a uma boa formação”.
Que formação?
Comecei a ler Baudelaire, minha mãe tocou fogo nos Comedores de Ópio.
Quis se redimir depois me dando de presente A Divina Comédia.
Não surtiu efeito.
As melhores leituras de minha juventude foram os gibis de bang-bang.
Fizeram-me entender o mundo.
Histórias fechadinhas: começo, meio e fim.
Sem subterfúgios.
Linguagem acessível.
Linearidade jorgeamadiana.
Comecei a ler James Joyce tentando analisar Ulisses à luz da psicanálise, saí da leitura mais cego.
Ninguém entendeu Ulisses.
O livro foi feito para não ser decifrado.
Antes de analisa-lo seria necessário percorrer a história.
Verificar os acontecimentos em curso naquela ocasião.
Ulisses surge com o nascimento da União Soviética.
Queda de Pancho Villa.
Ascensão de Rodolfo Valentino e fim de Caruso.
Desponta com Trotski comandando o Exército Vermelho.
Exterminando tropas revolucionárias patrocinadas pelo Reino Unido, França e Japão.
Enquanto Joyce dava o toque final na sua autobiografia, Schönberg já havia revolucionado a História da Música do século XX.
E Gershwin apresentava ao mundo a sua Rhapsody in Blue.
A minha é In Red.
O cenário visitado por James Joyce estava aberto às experimentações.
Renovação espiritual.
Rompimento de amarras.
Entre nós, a utopia era proclamar a independência cultural do país.
Veio a Semana de Arte Moderna.
Palco de vaidades.
Escassa produção artística.
A exceção teria sido Heitor Villa-Lôbos e não Mário de Andrade.
Poetas demais, versos de menos, sobressai-se o músico.
O mais revolucionário dos melhores poetas nacionais, Augusto dos Anjos, é pré-1922.
Drummond, João Cabral de Melo Neto e Vinícius, pós.
Desculpe novamente se me desvio do essencial.
Eu queria muito poder falar de mim.
Mas sou apenas um cachorro tentando morder o próprio rabo.
As autoridades viam em mim um inimigo.
Sempre a conspirar contra o Estado.
Por conta de minha compulsão pela leitura.
O homem letrado mete medo nos déspotas em qualquer época.
Nunca fui letrado.
Apenas lia de forma sistemática.
Esgueirando-me pelos bancos de praça.
Na privada.
De noite.
No lotação e trens da estação suburbana.
Cultura feita de retalhos.
Abastecendo-me na grande reserva de ideias brilhantes.
Nunca consegui dar curso a um pensamento inteiramente meu.
Pegaram-me de jeito e me enfiaram numa prisão militar.
Para testar meu equilíbrio emocional, creio.
Lia Dostoievski e não gostaram dessa minha especial predileção por autores russos.
Dias antes já me haviam flagrado lendo Gorki.
Disse que era leitor assíduo de Gustavo Corção e Austregésilo de Ataíde.
Não teve jeito.
Naquele tempo éramos todos inimigos do grande mandatário.
Foi ao tempo da primeira gravação de "Something".
Hoje só escuto "Something" na voz de Tony Bennett.
Ouvia Beatles ao lado de interessante prostituta, fã incondicional de Dalva de Oliveira e Lupcínio Rodrigues.
Você sabe o que é ter um amor?
No começo, comparecia à zona para beber cuba-libre e me aliviar.
Depois, para curtir os Beatles ou pedir asilo.
Tempo bom para uns, inquietante para outros.
Não tenho saudade.
Jovem Guarda, Bossa-nova, Festivais.
Invasão da Tchecoslováquia, e do Brasil pelos baianos da tropicália.
Rita Lee, Mutantes e Chico Buarque.
Protesto de rua.
Resistência nas Universidades, Blues e Bob Dylan.
O advento da música goiana só se daria com o nascimento do primeiro bebê de proveta, o casamento da Lady Di, a morte de Júlio Cortázar, do Fusca e de Chico Mendes.
Minha geração foi quem ajudou a erguer esse cenário em que você se diverte.
E cuida como o melhor dos mundos possíveis.
Falei minha geração.
Não disse "eu".
Você agora diz que sou espirituoso.
Mas não se sensibilizou com as minhas citações de Heidegger, de quem admiro o trabalho sobre Hölderllin.
O poeta que enlouqueceu por amor.
E produziu uma obra quase tão delirante quanto a de Goethe.
Você toparia viver comigo uma grande loucura de amor?
Ou prefere sua tese sobre o Iluminismo?
Hoje, tudo é poesia.
Ou prosa.
Basta seguir a tendência das redes sociais.
É a geração big brother ditando os rumos da cultura multinacional.
A grande revolução decantada pelos detentores das marcas e patentes.
Controladores das mídias.
Cadastradores da humanidade.
Proprietários dos melhores softwares.
Mudar de assunto?
Poderia falar o dia inteiro sobre essas futilidades.
Embora já não me considere um animal pensante.
De todo modo, valeu.
Fui.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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