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Donos do Mundo e Mais Alguma Coisa

A triste sina dos andarilhos virtuais

Por James Kafka


Ainda que um país, aqui e ali, venha a ser governado por um visionário, isso não será garantia de que o cidadão comum terá assegurado seus  direitos mais elementares enquanto indivíduo inserido numa sociedade.

A tão propalada justiça social imaginada pelos loucos e sonhadores jamais será efetivada em qualquer pátria, civilizada ou não.

Pura tolice desperdiçarmos os melhores anos de nossas juventudes dando vazão a utopias, apiedando-nos do irmão supostamente menos favorecido, ou tentando denunciar a grande farsa do Estado como organismo representativo de um povo. Tudo ilusão.

Guardemos, pois, os nossos rancores e frustrações apenas para nós mesmos, sem jamais ousarmos um enfrentamento aos grandes canalhas. Eles venceram, não tenhamos dúvidas.

Tampouco imaginemos que a Internet será a redenção dos acorrentados pelo sistema corporativista da informação, subjugados que já somos secularmente pela velha mídia familiar, tradicional. Em tempo algum haveremos de conquistar a liberdade de pensamento!

A internet, aliás, foi a mais eficiente ferramenta que os donos da informação arquitetaram para assumirem de vez o controle sobre todos nós. Para invadirem até a nossa alma.

Estamos irremediavelmente dominados. Nada mais nos será permitido, nem mesmo o mísero direito de exercitarmos a literatura, a filosofia ou poesia - ocupações de seres delirantes e incompatíveis com o sistema.

Nesse fabuloso e deformado universo imaginário só poderemos escorrer livremente sobre algo que se relacione a produtos que gerem lucros espetaculares ao grande consórcio que controla o mundo.

Dos questionamentos fundamentais, sem dúvida, permaneceremos sempre à margem.

Toda e qualquer reflexão mais profunda cairá no buraco negro das palavras-chaves não essenciais a essa nave virtual.

Para que os senhores tenham vaga ideia do enorme poder desse monstro controlador, basta que atentem para um detalhe: o texto que ora digito, ainda que produzido através de um dos melhores mecanismos de blogs da internet, que é o Blogger,  não gerou nenhuma palavra-chave até agora. Ou seja: mesmo sendo feito por um sistema que vai criando automaticamente as tags "mais relevantes", ainda assim não sugeriu nenhuma em minha tela, o que significa dizer que este artigo não tem qualquer valor para eles ou para os navegantes. Morrerá aqui mesmo, já que não será capturado pelos motores de buscas.

Bem verdade que o texto em si, enquanto pensamento solto, pode mesmo não ter nenhum valor estético. Refiro-me ao tema abordado. A crítica ao sistema e o pouco caso com as artes, de uma maneira geral. 

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