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A Fortuna Derivada do Livro-brinquedo

Por James Kafka


Livro por metro quadrado

Vinte anos trabalhando com livros. Primeiro como vendedor de enciclopédias, em plena ditadura, porque era essa a única forma de livrar algum sem que precisasse mostrar documentos, carteira assinada, essas coisas. Expulso da Armada, por conta de minhas idéias contrárias a ordem vigente, sem lenço nem documento, era pegar ou largar. 

 O gosto pelos livros, contudo, já era coisa antiga, embora fosse eu apenas um cara metido a cometer versos capengas e tudo mais como todo jovem quando conhece a primeira namorada e começa a escrever umas coisas. 

Pensei: vou unir o útil ao agradável. Deu no que deu. 

Depois da aventura pelo mundo das enciclopédias, resolvi trabalhar com livros fora de catálogos, antigos, obras raras, sobretudo aquelas que as viúvas põem no lixão quando o marido embarca para a terra do nunca, se não forem antes devorados pelos cupins (os livros, claro). 

Experiência, portanto, em lidar com livros de papel, tenho alguma; não digo de escrevê-los, pois, se assim o fosse, não estaria eu agora a lamentar pelos originais de pelo menos cinco já cometidos e apenas dois publicados, por mérito próprio, frutos de prêmios em acirradas disputas. Os demais sem qualquer chance de saírem do armário, se depender de mercantilistas do ramo. 

Mas o que quero dizer mesmo é que o livro não tem essa vida efêmera como dizem os cavilosos editores, por mais ordinária que seja a sua feitura gráfica ou a sua composição literária. Tampouco é ele, editor, uma vítima do sistema, ou o livreiro um abnegado que mantém com garra um negócio sem futuro; ah, se fosse! E não adianta os defensores desses crupiês da obra impressa virem com chantagens ou palavrório catequético. Comigo, não, ok? 

No mundo do livro de papel (parodiando a Ciência) nada se perde, tudo se transforma. 

As enormes pilhas de livros inúteis que se alojam (?) nos porões das editoras, porque não são comercializáveis – conforme vociferam  esses negociantes de livro-brinquedo – serão desovadas mais tarde para livreiros que, por suas vezes, as transformarão em pacotões que serão vendidos de porta em porta por um preço por obstinados vendedores, que, precisando faturar a qualquer custo, serão capazes de vender encarnado pra luto.. Um negócio da China, portanto, para os livreiros. 

Outra: só o Governo é responsável por 70 ou 80% da receita desses afortunados senhores que controlam o mercado editorial (grandes parques gráficos), sendo que todos eles ainda recebem vários incentivos fiscais, isenção de impostos, uma carvalhada de bônus. ORA, NÃO ME TIREM DO SÉRIO com essa lorota de que os editores vivem no aperto! 


O QUE MOVE O MERCADO DO LIVRO DE PAPEL

Um editor jamais publicaria um escritor só pela qualidade do seu texto, por ter visto nele um talento em que valeria a pena investir. Nunca. 

No mundo editorial não há essa de se sensibilizar pela consistência literária de um romance, um punhado de contos ou de poesias. 

Mera ilusão acreditar-se que o editor está interessado em revelar artistas, tornar-se um ser magnânimo. Jamais. Apenas o dinheiro move o mercado do livro de papel. Lucro – o que seria perfeitamente aceitável em qualquer atividade comercial, claro, porém menos na difusão da literatura, uma vez que já recebem inúmeros incentivos dos governos.  

O que não pode (até pode, mas é farsa, dissimulação) é um indivíduo arvorar-se em defensor de editores mercantilistas, expondo-os como vítimas de pseudos escritores que seriam responsáveis diretos pelas montanhas de livros inúteis que se acumulam nos porões das editoras e que terminam na reciclagem. Grandessíssima Mentira! 

Primeiro que o editor só investe na boa. Se lança o livro de um poeta, contista ou o diabo que o valha é porque antes já foi preparado todo um esquema comercial. Já pagaram boa grana a um prefaciador de nome (que cobra entre dois a três mil reais, conforme o freguês), já compraram espaços em jornalões, contataram resenhistas oficiais, espalharam notinhas aqui e ali etc. 

Esses os artifícios para se conceder falsa legitimidade ao livro, que, realmente, terá vida efêmera, porque carente de qualidade, mas sem qualquer ônus para o fabricante da obra-brinquedo. 

Esse livro-papel-objeto-mercadoria não entra na livraria como investimento de risco. O escritor iludido já desembolsou antes uma nota preta em uma famigerada "parceria" com o inocente confeccionista do brinquedo. Ou seja: o cãodidato à fama literária achou que através da distribuição nacional o seu livro ganharia vida. Vai pensando!

E se o livrão for uma dessas teses alopradas oriundas de alguma Universidade, pode ter certeza que já foi financiado por uma Secretaria de Cultura ou coisa parecida. Ou seja: o editor não perde nada, meus amigos. N A D A!!!! As buchas que se acumulam nos porões das editoras são L U C R O EM EXCESSO!!! O livreiro pode até ofertar cinco ou dez desses monstrengos como brinde na compra de um Harry Potter ou Paulo Coelho e ainda sairá ganhando, e muito. Vocês entenderam???

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