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PERFIL DE UM BODE ACADÊMICO

Ilustração de A. Lima

O dia em que o bode Ioiô comeu a fita inaugural do cine mais famoso da terra de Alencar

Por ALimaS

O bode Ioiô deu as caras por essas bandas de Fortaleza no ano da pior seca que assolou o Estado do Ceará (1915), vendido por um retirante a uma empresa inglesa, instalada na praia de Iracema, por nome Rossbach Brazil Company. 

Sentindo-se desprezado - jogado que fora num cantão apenas para limpar o mato que crescia ao redor do prédio -, o bode, um dia, em descuido do guarda, resolveu se deslocar até a Praça do Ferreira, mais diretamente até o Café Java, onde se reuniam desocupados e artistas, ou artistas desocupados, tanto faz. Ambiente, portanto, mais que adequado ao bode, já afeito às vadiagens.

Furão que só, o bicho foi logo se enturmando com a rapaziada, dando uma chifradinha na pança de Raimundo Cela, que, naturalmente, muito satisfeito por aquele afago inesperado, logo lhe serviu uma dose de pinga - engolida pelo bicho no ato, sem cuspida nem arrepio. Sopa no mel!

Ioiô não largou mais a galera. Esteve em todas. Participou de solenidades, saraus, tertúlias, concertos proporcionados pelo maestro Henrique Jorge; frequentou o teatro, escutou muito compenetradamente os sonetos de Álvaro Martins, os apólogos de Antonio Sales, até que um dia, de pura sacanagem, comeu a fita inaugural daquele que se constituiria logo depois o cinema mais frequentado da terrinha (Cine Moderno), deixando a moçada de orelha em pé. Mesmo assim foi perdoado e continuou na pândega. 

Comentam que o caprino - muito jeitoso -, também paquerou algumas dondocas e chegou a receber homenagens da Câmara Municipal de Fortaleza, incrustando-se definitivamente na vida cultural de nossa amada Fortaleza. Um feito de tal modo extraordinário, que até hoje, um século depois, o bicho ainda alimenta a inspiração e verve de nossos melhores cronistas - esses circunspectos senhoras que habitam o imaculado templo da Academia Cearense de Letras. 

Depois de muitas peripécias, o bode, infelizmente, bateria a caçoleta, não sem antes ter enchido a pança de pinga, junto com alguns poetas de menor fama, que o teriam forçado a rabiscar algo para a posteridade, friccionando sua pata no mosaicão da praça do Boticário. E não sem as merecidas honras que lhe seriam prestadas por uma comovida urbe, em forma do empalhamento pelas mãos do melhor artesão da terra de Adolfo Caminha,  e um lugar de destaque no Museu Histórico e Antropológico do Estado do Ceará. Mas a história não termina aqui, não, meus camaradas.

Um belo dia, como diria aquele narrador cabra da peste, um sujeito lá da terra do nosso padim padre Cícero, todo cheio de moral, assentou os fundilhos de seu filho caçula no espinhaço do impoluto Ioiô - supondo que o bicho fosse apenas apetrecho de um fotógrafo de feira, fragmentando imediatamente a relíquia e, mais afrontoso ainda, caindo na gargalhada como se tivesse cometido um delito insignificante: "vixe, não deu tempo nem de fazer a self com o bode" - vociferou o sacana, sob apupos de alguns presentes que conheciam bem a trajetória do Ioiô. 

Se não tivesse corrido a tempo, teria apanhado mais que galinha para largar o choco.
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Obs: Proibida a reprodução deste texto, no todo ou em parte, sem a minha autorização.

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