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CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: A CABRA DO CHICO DA MATILDE

Por Astolfo Lima


O biscateiro Chico da Matilde morava lá pras bandas do Buraco da Gia, mas era frequentador assíduo da nossa rua, onde gozava de boa reputação por encarar sempre os piores serviços sem nunca reclamar, mesmo que o pagamento não fosse lá essas coisas. Quisesse desentupir uma fossa, remover um entulho ou cavar uma cacimba, bastava dar um toque, patrocinar-lhe uma meiota de pinga e estava resolvido o problema.

Tratava-se de um caboclo parrudo, já meio velho, desdentado e manco duma perna, porém mais disposto que a gota serena. Só andava com uma peixeira enfiada no cós das calças, e ai daquele que se metesse a besta com qualquer morador do bairro. O próprio Zé Bacurau, que se dizia samango aposentado e vivia de caguetar todo mundo no distrito policial, falava manso com Chico da Matilde. O codinome era uma referência ao fato de Chico viver amancebado com uma ex-rapariga do velho Farol do Mucuripe que se notabilizaria mais tarde como grande conselheira do lar e cartomante. Casamento encrencado, onda de chifre ou falta de grana, era só consultar a Matilde e ela daria as coordenadas na hora.

Um dia, lá pelo ano em que Roberto Carlos estourava nas rádios com a música Splish Splash, Chico da Matilde apareceu na bodega do Juarez arrastando uma cabra véa magra que havia recebido como paga de um serviço, e anunciando que iria engordá-la para, depois, reunir a rapaziada e comerem a dita cuja com cachaça, em vista do que já estavam todos convidados, da mesma forma como aceitaria na boa - disse - qualquer oferta de capim, casca de feijão ou milho. Zeca, o carga-torta de sempre da nossa turma, querendo derrubar o serviço do Chico da Matilde, disse que ele estava a fim mesmo era de cevar a bicha as custas dos otários, para vendê-la mais tarde na feira do sítio Bom Futuro.

Pelo sim, pelo não, verdade é que todo mundo passou a ajudar na nutrição da cabra, a essas alturas já devidamente alojada numa casa velha abandonada da rua de cima. Pepe Oião - o maior biriteiro da paróquia - não podia ver um montinho de grama pela rua que ia logo arrancando, para alimentar a dita cuja. Às vezes invadia os jardins da vizinhança para quebrar plantas, como fez na casa da Perpétua, arrancando um pé de taioba pelo tronco e sendo expulso a vassouradas.

Outros papudinhos conseguiam milho recolhendo dos descarregamentos no mercado São Sebastião, de modo que a cabra logo ganhou peso, sendo até batizada com o sugestivo nome de Bola de Neve. Ou seja: prontinha para o abate, mas sem que o Chico se manifestasse. A turma dando em cima, e ele saindo sempre pela tangente, enquanto Zeca atiçava os ânimos dizendo que Chico da Matilde ainda tinha a cara de pau de desfilar toda tarde arrastando a bicha por uma corda, como se estivesse querendo apenas exibir a qualidade da mercadoria. Para envenenar ainda mais, disse que no dia anterior vira Chico no maior papo com o Crispim, dono do açougue, tudo levando a crer que estariam negociando Bola de Neve. Foi o suficiente. Os biriteiros, todos revoltados, arquitetaram logo um plano para sequestrar a cabra.

Por coincidência, esse entrevero se deu em vésperas da queima do Judas, e naquele tempo a parte mais interessante desse festejo, em nosso bairro, além da leitura do testamento, lógico, era o furto de penosas nos quintais dos conhecidos. Toda a turma se mobilizava e cada garoto recebia uma tarefa: uns se encarregavam de conseguir plantas para o sítio; outros, de encontrar o pau da forca, e outros mais da nada gloriosa missão de furtar galinhas, o que geralmente ocorria nos quintais de nossas próprias casas.

Acontece que naquele dia (sempre tem um porém nessas ocasiões mais graves) todo mundo havia redobrado a vigilância em seus poleiros, e assim acabaria sobrando para quem? Para Bola de Neve, claro. Covardia das covardias, de modo que me recuso à narrativa de detalhes. 

Só sei que depois do justiçamento do boneco de pano, rolou a maior comilança e beberança no terreiro do Zé Bigode, sem a presença de Chico da Matilde, que passara a noite toda cavando uma fossa la no Jardim América. Quando deu as caras já estava sabendo do sucedido e todos esperando que aprontasse a maior araca, ainda mais porque vinha "queimado', camisa aberta, deixando à mostra o cabo da "12 polegadas", e ainda rangendo os dentes. Mas qual o quê! Chico da Matilde apenas encarou a moçada, meio cambaleante, e soltou esta: "Arre égua, negada, foi muita covardia. Num deixaram pra mim nem a fuçura..."

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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