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CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: BETO PÉ DE ANJO

Por Astolfo Lima


Quando Beto Pé de Anjo apareceu na bodega do Juarez às quatro da tarde, todo produzido e com sua radiola portátil debaixo do braço, a negada imaginou logo que a tertúlia se daria dali há pouco. 

O bicho vinha enfiado num blusão de couro, óculos escuros aro de tartaruga cobrindo metade da cara, calça Far-West de cano estreito e sapatinhos de camurça branca, mais parecendo um rabo-de-burro, se bem fosse o Beto um pacato boa vida, filho dum galego que possuía pra mais de mil e oitocentos fregueses no cartão, ou seja: enquanto o velho abastecia meia Fortaleza de chitas e morins, Beto Pé de Anjo papocava grana no varejo, desviando aqui e ali uma faturinha, de modos que vivia patrocinando bailes, papando as cabrochas do Tiradentes e fazendo inveja aos lisos. 

Pensem num cabra pra gostar de tertúlia! Não perdia uma, fosse onde fosse, levando sempre sua vitrola e expressivo repertório de long-playings e compactos duplos, em que se destacavam Paul Anka, Neil Sedaka e Elvis Presley; de brasileiros, apenas Cely Campelo e Carlos Gonzaga. Atentem: quando falo em tertúlia, não me refiro à reunião de literatos, mas a bate-coxas, também conhecido vulgarmente como mela-cuecas, em luz negra, que se realizavam em clubes suburbanos de Fortaleza ou em casas de amigos - um modismo muito gostoso nos gloriosos anos de minha primeira juventude.

Animados, os caras foram logo cercando Pé de Anjo e querendo saber onde se daria o evento, enquanto as mocinhas da vizinhança também se aproximavam, todas já planejando o traço que dariam em seus pais quadradões, ouvintes de Nelson Gonçalves e que detestavam ver as filhas nos embalos de fim de semana, sobretudo na companhia de desocupados que nem nós. 

Beto fazendo mistério, tirando casquinha numa e noutra menina, distribuindo chicletes e dizendo finalmente que a festa daquele sábado seria na sua casa mesmo, já que os pais haviam viajado para o interior, mas só começaria no horário de sempre: oito da noite. Quanto ao fato de estar ali, com a radiola, tão cedo, era porque tinha algo a mostrar pra rapaziada, e foi  logo colocando o toca-discos em cima do balcão da mercearia, em seguida jogou um bolachão no prato e, antes de acionar o play, proferiu, todo orgulhoso: "vou mostrar pra vocês a nova sensação do momento no mundo todo. Aqui no Brasil, até agora, a novidade só chegou ao Rio de Janeiro, mas consegui o disco com um amigo meu lá do Montese. Por enquanto vou apresentar apenas alguns passos, ok?".

"Ei, pera aí, que esculhambação é essa aqui no meu estabelecimento?" - gritou de lá o Juarez, sem um pingo de moral e começando a "se abrir" quando Pé de Anjo mandou descer uma rodada de  coca-cola pros parças, uma carteira de continental e uma quartota de douradinha pro Zé Bigorna, o biriteiro mais gente fina que havia no bairro, originário dos melhores troncos genealógicos da loura desposada do sol, mas que, infelizmente, perdera a batalha pra cachaça. Passava ele o dia todo executando serviços insignificantes a troco de moedinhas com que alimentava o próprio vício. Um resto de dignidade, talvez, informação genética - coisas assim. As senhoras de bem, da rua de cima, lhe davam marmitas e roupas. À noite, Zé Bigorna se recolhia a casa imunda que lhe restara de herança, porém essa é outra história.

Mal a vitrola começou a troar Let's Twist Again, Beto Pé de Anjo deu rápida quebra de asa e iniciou o mexe-mexe, com os pés semi-colados ao chão, para um lado e outro como se estivesse esmagando barata, alternando movimentos rápidos e lentos, o corpo em requebros, subindo e descendo que nem uma carrapeta, braços frenéticos, traseiro encolhendo e arrebitando, o suficiente para que o Pirrita dissesse bem alto que aquilo ali era dança de baitola. "Tá com inveja, né, seu fela da puta - respondeu Beto Pé de Anjo fazendo sinal de "espera pra ver", mas sem perder o ritmo.

"Ora, inveja. Onde já se viu dança sem ser agarrado com mulher e fungando no cangote? Isso aí é viadagem, isto sim" - rebateu Pirrita se afastando de fininho, pois é certo que Beto Pé de Anjo não deixaria barato aquela afronta, ainda mais sendo proferida no meio de tantas cocotinhas...

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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