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O QUASE DUELO ENTRE MAQUIAVEL E ARIOSTO

Por Astolfo Lima


“Você é louco” – disse Maquiavel a Ludovico Ariosto, em encontro casual numa taberna de Florença. 

“Daqui há quinhentos anos, quando nos encontrarmos novamente, ainda que num folhetim mais ordinário que O Príncipe, veremos quem é o verdadeiro doido” – retrucou Ariosto.

Maquiavel estava injuriado porque soubera que Ludovico Ariosto omitira seu nome na extensa lista de poetas do popularesco Orlando Furioso, livro a que só concedeu alguma relevância por ridicularizar a nobreza feudal em decadência e prenunciar o novo homem da Renascença, conforme ele também, Maquiavel, intuía.

Ariosto, por certo, não entendera a ironia de Maquiavel ao retratar o Estado, e muito menos o modus operandi daqueles que controlavam e haveriam de controlar pelos séculos sem fim esse organismo medonho, e só por isso minimizara sua condição de poeta, autor de pérolas como Decennale primo, poema de 550 versos, ou Asino d'oro, Sonetti, Canzoni, Ottave, e Canti carnascialeschi, provavelmente não lidas pelo despeitado. 

Na avaliação de alguns frequentadores da taberna, no momento dessa discussão um tanto acirrada, Ariosto não minimizara deliberadamente as qualidades de Maquiavel enquanto poeta. Apenas o consignara como herege, embora corresse à boca miúda que sobrevivia a soldo da Igreja. 

“Como poderia eu ser herege se com o meu livro me desvinculo das concepções teológicas plantadas em normas políticas oriundas de um tempo obscuro e me transformo num observador direto das coisas da política enquanto arte, considerando o mister de governar sob prisma realístico e objetivo?” – disse o gênio incompreendido. 

“Colocação ambígua, a sua. Isso, sim, é coisa de louco” – contra-atacou Ludovico. 

Com a minha obra, eu quis apenas alertar a plebe sobre a tirania dos mandatários. Fingi dar lições aos reis, quando na verdade as endereçava aos mais humildes. Mostrar que um povo só pode ser feliz e próspero se estiver unido e atento às artimanhas dos tiranos. Dizer que mesmo as leis mais bem ordenadas serão impotentes diante da tirania do Estado, e que não há Estado utópico, porque a natureza humana é essencialmente má. Os indivíduos querem obter o máximo sem qualquer esforço e só farão algo em proveito coletivo se forem forçados a isso” – rebateu Maquiavel, quase dando por encerrada aquela discussão que considerou estéril.

“Apenas uma mente atormentada poderia conceber como razoável que todos os indivíduos ajam sempre de forma má. Isso seria a negação da sociedade, que é baseada em um acordo entre os cidadãos”. 

“Quero dizer que o governante não pode esperar o melhor dos homens, ou que esses ajam segundo o que se espera deles. Não ter a exata dimensão de minha obra, só mesmo um louco” – diz Maquiavel. 

“Eu louco ou disperso, se em minha obra quem canta as aventuras de Orlando Furioso desconfia de seu próprio juízo, confessando-se tão ou mais perturbado que o próprio personagem?!” – contra-argumentou Ariosto.

Dizem que depois desse breve diálogo, Ariosto e Maquiavel soltaram sonora gargalhada, sorveram uma garrafa de vinho e saíram abraçados da taberna.

Como descendente de nobre e tradicional família de Florença, Maquiavel desejava passar à posteridade como poeta e não como um mero autor que suscitou ódios e paixões, ao seu tempo, por conta de um livrinho, a seu ver, não fundamental, mas que vararia os séculos como o mais importante das ciências políticas em todos os tempos. Obra que causaria, à época, um impacto revolucionário só comparável ao que teria, um século depois, O Discurso do Método, de Descartes.


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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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