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O EXPERIMENTO DE MACHADO DE ASSIS E EDGAR ALLAN POE

Por Astolfo Lima


Depois de ler “O Experimento do Dr. Pena e do Professor Abreu”, de Edgar Allan Poe, Carolina se aproximou de Machado de Assis e disse, a sorrir: “gostaria muito que você escrevesse um conto assim”.

Machado mirou a esposa, por sobre o pince-nez, recolheu o livro que ela lhe oferecia e respondeu que na primeira oportunidade cuidaria de ler aquela história que tanto a impressionara.

Quinze dias depois, Machado entregaria à Carolina os originais de O Alienista, com a seguinte observação: “Talvez Edgar Allan Poe quisesse dizer isto”.

Portanto, caríssimo leitor, se o amigo já teve a oportunidade de ler os dois contos aqui referidos, saiba que jamais passou pela cabeça do genial Machado de Assis plagiar Edgar Allan Poe. Nosso mestre apenas aceitou a provocação de sua amada Carolina, assim como já o fizera quando na feitura do Memórias Póstumas de Brás Cubas” ou “Dom Casmurro”.

O bruxo do Cosme Velho não precisaria se valer de temas alheios para construir belas narrativas, mesmo porque suas cópias, nos diferentes temas imagináveis, seriam sempre mais atraentes que os originais de qualquer escritor. Só Machado sabia como conceder picardia às suas histórias, envolvendo-as com refinada ironia, bem ao gosto do destinatário.

O Alienista, pois, não é o traslado perfeito de "O Experimento do Dr. Pena e do Professor Abreu", conforme apregoam os aficionados por Edgar Allan Poe. Os dois mestres apenas tomam um hospício como ambiente central de suas tramas, sendo que na narrativa imaginada por Machado as personagens serão, desde logo, captadas como surreais, espalhafatosas ou engraçadas, deixando no leitor a expectativa de um desfecho suave, ao passo que, em Poe, ficará no ar, desde o primeiro instante, todo um clima sombrio, com personagens tensas, em que o final, invariavelmente, deverá ser trágico.

Diz Allan Poe, logo de cara, no seu conto: "Durante o outono de 18... (tempo remoto, provavelmente uma época de grande infortúnio – suponho) visitei as províncias do sul da França etc...", enquanto Machado suaviza: "As crônicas da Vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos..." (algo semelhante às agradabilíssimas estórias de Troncoso).

O Hospício de Poe instala-se em um bosque espesso, ao pé de uma montanha (que sugere medo). O de Machado, na Serra do Mar, em acolhedora província.

O personagem central no conto de Poe (Sr. Mailard) é um cavalheiro, aspecto nobre, maneiras finíssimas, um certo ar de gravidade que cultivava simpatias e infundia respeito, um homem que fizera longo estudo da fisiologia da loucura. Ou seja, um cara imprevisível inserido em um ambiente estranho. Já o personagem de Machado (Dr. Bacamarte) era filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas, e também estudara minunciosamente a patologia cerebral. Ou seja: uma figura caricata, inofensiva e posta na trama apenas para nos divertir.

O estabelecimento de Poe fora organizado de modo a evitar ali o emprego de qualquer tipo de castigo (Sistema de Brandura), o que leva o leitor a supor que atrocidades ocorrerão a qualquer momento. O Dr. Bacamarte também tinha o seu sistema, porém esse, desde logo, se percebe que é apenas um desvario de seu formulador.

Nos dois contos há uma rebelião, que levará a nada, posto que as pessoas agem muito mais pela vaidade, o bem estar pessoal. Poucos são aqueles que realmente se doam por uma causa coletiva.

A galeria de doidos, no geral, equipara-se nas duas narrativas: o doido por amor, o visionário, o engraçado, aquele que faz discursos como se fora Cícero, o que propõe revoluções como se fora um general, o aparentemente bom do juízo que na verdade é o mais maluco de todos, e assim vai.

Ao final, a mesma mensagem: os fracos de caráter serão sempre a grande maioria em qualquer sociedade; os bons, muito poucos. Outra: é mais fácil corromper um justo (que são poucos) do que consertar um canalha (que forma a grande massa do gênero humano).

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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