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CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: SARARÁ INVOCADO

Por Astolfo Lima


Doca estava repetindo ano pela terceira vez e essa seria sua última chance de se tornar gente, no dizer do próprio paí, um sujeito rústico que vendia miúdos de boi escanchado na garupa dum burro, a propagar pelas ruas as delícias de sua panelada. Já dera, inclusive, ultimato ao filhão: "se exe fio duma égua não se aprumar, vai trabaiar mais eu no "curri". Referia-se ao abatedouro da Prefeitura.

Doca, nem aí. Gostava mesmo era de aprontar contra os meninos de menor tope. Abria sorrisão cafajeste, aplicava chave de braço no primeiro pivete que encontrasse pela frente, dava-lhe uma rasteira e depois apoiava um dos joelhos no peito do garoto, erguendo o braço, punho cerrado, como se fosse desferir um soco na cara do infeliz. Tudo encenação. Queria mesmo era exibir seus incisivos podres, enquanto eu ficava de longe, injuriado, louco para intervir, mas cadê coragem de enfrentar aquele sarará corpulento e ignorante? Melhor ficar quieto e maquinar um plano, para pegá-lo na boa.

Limitado nos estudos, ruim do juízo e de bola, nas peladas o Doca arriava o pesão sobre a redonda, sem mover-se do lugar, esticava um braço no peito do adversário para impedi-lo de se aproximar, e ficava frescando com a cara de todo mundo, até que viesse um por trás, lhe roubasse a pelota com leve toque de bico, e saísse desenhando o campo em firulas, para delírio da galerinha coagida. Doca, então, punha logo em prática a única coisa que sabia fazer bem: dar porrada, oprimir: corria atrás de um e outro desferindo pontapés, todo doidão; pragmático. Fosse nos dias atuais, provavelmente seria denunciado por Bullying.

Havia na nossa Escola uma sala desativada, repleta de carteiras inúteis, birôs e tudo mais que fosse catrevage. Foi lá que o Doca, certa vez, teve a brilhante ideia de transformá-la em "cadeia". Reuniu a meninada, ou melhor: ordenou que a turminha se aproximasse e vociferou, chupando detritos do dente cariado: aqui, agora, vai ser a delegacia, e eu sou o Xerife - disse, escalando logo como auxiliares o Zeca e o Quinca - dupla barra-pesada, assim como ele, e reduzindo o restante dos garotos à condição de bandidos, a serem caçados e enfiados no xilindró. 

Naquele tempo os bangue-bangues norte-americanos faziam enorme sucesso nas telas do cinema e era comum entre os meninos da nossa turma a brincadeira de mocinho e bandido. Tínhamos, todos, os nossos pequenos arsenais: espingardas de pau, arcos e flechas, cordas e, sobretudo, revólveres dos mais variados modelos; uns, belas peças niqueladas, queima de espoleta, cabo de madrepérola e giro no tambor; outros, acanhados tecos em alumínio grosseiro, sem mira, indignos de ocuparem uma boa cartucheira e aos quais nós enfiávamos sob o elástico do calção de mescla, apenas pra fazer figuração. Esses armamentos, contudo, só fazíamos uso deles nas brincadeiras de rua. No Grupo Escolar, até pela exiguidade do tempo, fazíamos tão-somente o corpo-a-corpo, a voz de prisão e o encarceramento na sala dos cacarecos.

Mal tocava o recreio, lá vinha o Xerife aplicando sabacus na pivetada. Uma brincadeira de extremo mau gosto, que consiste em você entrelaçar os dedos das mãos, formando duas conchas, e, com essa junção, desferir um golpe seco na cabeça do sujeito, e cuja resultante é um "ploc" que fere muito mais o orgulho de quem o recebe que o físico, vez que a dor é quase nenhuma. Doca aplicava o sabacu e se abria numa gargalhada surda, se é que posso dizer assim, já que apenas os olhos do boçal brilhavam, a baba escorria do canto da boca e ele rosnava: raann, raannn, raaann; dentes trincados e olhão aceso. Sadismo puro, ou a perfeita segurança de quem exerce total domínio sobre os demais. Deixasse está.

Foi quando o Marquinhos argumentou que a única maneira de nos livrarmos da fera seria laçá-la e trancá-la na sala-delegacia, desmoralizando-o perante toda a escola. Ainda questionei, sem saber qual a estratégia do colega. Deixa comigo, depois te explico - disse-me. No dia seguinte aparece o Marquinhos com extensa corda de náilon que seu pai usava para amarrar as carradas no seu velho GMC, e detalha o plano.

Quando a sineta anunciou o recreio, naquela manhã distante que mais parece ter sido ontem, postei-me sobre o telhado da sala de catrevagens, para onde tínhamos arremessado a corda logo cedo, armei o laço e fiquei na entoca. Riba, Luciano e Pereba se esconderam sobre as galhas da tamarineira que havia no pátio, e Diassis - o mais forte dos nossos - se postou à porta da delegacia esperando que Doca viesse abri-la. Ele havia conseguido uma chave, não se sabe como. A senha para agarrá-lo era um assobio longo e outro curto: fiiiiiiiu-fi. Batata.

Doca aproximou-se da porta da cadeia já olhando para os lados, meio cabreiro, ante a escassez de meninos pelas imediações. Silêncio anormal. Foi quando se ouviu o assobio. Imediatamente soltei o laço sobre a cabeça do Doca, momento em que Diassis deu duas ou três voltas sobre o corpo do sarará, apertando mais e mais a laçada, ao mesmo tempo em que os garotos da tamarineira voavam em cima para completar o serviço. Pulei do telhado em cima dum monte de areia e também fui ajudar na prisão do perigoso meliante. 

Doca tentou de todas as formas se desvencilhar da corda, mas foi em vão. Esboçou então um sorriso parvo e balbuciou: "ta certo, negada, eu perdi". Agora podem me soltar. Soltar é uma ova, seu otário! - gritou de lá o Marquinhos, ajudando a arrastar o Doca para dentro da prisão, trancando-a por fora logo em seguida e atirando a chave pra bem longe com um tiro de baladeira.

Só sei dizer que a partir daquele dia, se por um lado conseguimos dar cabo de um truculento xerife, por outro o abatedouro municipal haveria de ganhar um excelente vendedor de buchada.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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