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CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: O PLAYBOY DA ALDEOTA

Por Astolfo Lima


Zé Bacurau andava mais afável ultimamente, algo raro num casca-grossa raivoso que tentava impor moral denunciando no Distrito Policial qualquer besteira que ocorresse no bairro. É que sua filha Zilá estava de namoro firme com o Valdecir, um ricaço da Aldeota, amigo de vários figurões da alta sociedade fortalezense, inclusive do prefeito. 

Mal apareceu em nossa rua, sob pretexto de procurar terreno para compra, o tal sujeito foi logo se enturmando com os frequentadores da bodega do Juarez, onde passou a comparecer nos fins de semana, oferecendo birita aos papudinhos, distribuindo balas pros meninos, e, claro, ganhando aos poucos todas as fanzocas de Wanderley Cardoso que havia nas imediações, inclusive a filha única do referido Bacurau, para desespero dos marmanjos mais velhos que babavam pela gostosona.

Zilá era, de fato, uma princesa: morena de olhos verdes, longos cabelos, corpo de sereia como se dizia naquele tempo, e também namoradinha secreta de nós outros, brochotes na faixa dos doze, treze anos, todos a torcerem por um minutinho de sua graça quando se punha à janela; Zé Bacurau marcando colado o tempo todo, mal permitindo que a belezoca pusesse os pés na calçada. Isso, porém, só até o Valdecir apontar no pedaço. 

Ora, o bicho surgiu todo pintoso, pilotando uma Vemaguet zerada, metido numa calça de gabardine branca, camisa ban-lon vermelha e óculos ray-ban, mais parecendo um artista da Jovem-Guarda, e a Zilá ficou caidinha na hora, sob consentimento do Zé Bacurau, claro, que também foi muito com a cara do Valdecir, um rapaz de boa formação etc e tal.

Morando na Aldeota mas se entrosado rapidamente com a galera do nosso bairro, quando o Valdecir dava as caras, vinha sempre num carrão diferente: Aero-Wilis, Impala, Dodge, cada um mais incrementado que o outro. Teve um dia que apareceu pilotando um Mustang cor de sangue de fechar quarteirão. Pense na correria das moçoilas, cada uma querendo a primazia de passear ao lado do playboy. 

Mal o Valdecir entrava na bodega, o Juarez abria logo a espreguiçadeira em que só ele assentava os fundilhos, descia uma gelada e mandava fritar a bisteca, enquanto os papudinhos se postavam na goteira, derrubando quartotinhas de Ypioca e tirando o gosto com cajarana. Nós só de longe cubando o movimento. 

O sujeito dizia de suas andanças pelo Rio de Janeiro à época em que corria muita grana no então Distrito Federal. Teria ele, agora, uns trinta e poucos anos e ainda falava chiando que nem carioca: Linxx de Vaxxconcelos, Vaxxco da Gama, e também fazia referências ao bondiiinho do Pão de Açúcar, as tardes na Urca e Copacabana, sempre intercalando com a interjeição "ué", quando alguém desejava mais detalhes sobre determinado local. "Ué, não conheces?". 

Juarez, todo ouvidos, já nem se preocupava mais de receber em grana viva o valor da gastança de Valdecir, era tudo na base do "vai anotando aí. Zé Bacurau ali de prontidão para que os moleques não importunassem o futuro genro, e assim o tempo passando, passando, até que chegou o dia em que Valdecir formalizaria o pedido de Zilá. em casamento. 

A essas alturas do campeonato, Zilá já era outra mulher: muito faceira, usava agora batonzinho violeta, mandara furar as orelhas, de onde pendiam dois belos pingentes e até já usava sainha acima do joelho. Cada vez mais gostosa, verdadeiro piteu - no dizer dos rejeitados.

Zé Bacurau mandara pintar a casa no capricho, trocar o portão velho que era amarrado com arame, podar a castanholeira e consertar o piso da sala, onde se daria um arrasta-pé para comemorar o noivado de Zilá e Valdecir. Coisa simples, apenas para os mais chegados, evidentemente, mas havia a expectativa de que pessoas importantes das bandas da Aldeota pudessem vir prestigiar, e Zé Bacurau não queria fazer feio. 

Naquele dia, um sábado luminoso como todos os demais de minha primeira juventude, por coincidência, o bacana não fora bater ponto na bodega do Juarez, como era costume, e isso deixou todo mundo meio cabreiro. Zilá já demonstrava certa apreensão, desfilando pela rua metida num shortinho curto e com os cabelos cheios de bobs. Vez por outra esticava até a bodega do Juarez, verificava o movimento e depois se retirava cabisbaixa. Zé Bacurau procurava minimizar dizendo que Valdecir só deveria chegar mesmo na hora da festa, por volta das sete da noite. 

De modos que deu oito, deu nove, deu dez... Pois é, Valdecir não deu as caras. Nem teria como fazê-lo, pois segundo informações colhidas de fontes fidedignas, tinha se mandado no dia anterior pra São Paulo, uma vez que perdera o emprego em uma oficina mecânica lá pras bandas da Caucaia.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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