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CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: JOGO DE BOTÕES

Por Astolfo Lima


No meu tempo de menino, jogo de botões era com botões mesmo, abrindo exceção apenas para alguma tampa do mostrador de relógio de pulso, geralmente de plástico, côncava, não muito saliente e que, tendo a cavidade preenchida com vela derretida e o bojo lustrado, se transformaria em excelente center-half. 

Demais craques eram botões arrancados de paletós esquecidos no guarda-roupas da casa de minha avó, os geralmente bem talhados cortes de casimira ou linho branco já antigos, ou dos vestidos caseiros de minhas tias solteironas, vez que os das roupas de festas, por serem coloridos e delicados demais, não se prestariam nem como reservas do meu time. 

Dos ternos do meu avô, não; tudo craque. Belíssimos botões, com dois ou quatro furos; rajados, de osso ou chifre de boi, bejes, marrons, em madrepérola; de circunferência média ou pouco mais avantajada, a que eu raspava no vértice ou na saliência do fundo, a depender da posição em que quisesse escalar aquele craque em preparo. 

Os botões que deslisassem macios, espanando eventuais detritos sobre o campo, esses comporiam a linha de frente, para alcançar a "bola" a longa distância com leve toque da palheta, sem esbarrar em nenhum adversário. 

Havia ainda os beques. No geral a sobreposição de dois ou três botões inferiores subtraídos de pijamas e que eram devidamente colados, um sobre o outro, com goma arábica; não muito vistosos, porém eficientes na hora de rebater uma falta cobrada de longe, em que a bola descreveria uma parábola, decaindo já sem muita força até esbarrar na sua fornida estrutura. 

O goleiro era uma caixa de fósforos da Fiat Lux cheia de pedrinhas, envolta em papel prateado de carteiras de cigarros, em que desenhávamos o escudo do nosso time de coração. O meu time, claro, sempre foi o Flamengo, e nele tive a honra de escalar Dida e Zagalo, embora não me ocorra agora se desse quadro também já fizessem parte Rubens, Dequinha e Pavão. Lembro, contudo, que meu impetuoso "centrefor" - como dizíamos - era uma sólida peça de marfim que fora surrupiada por mim dos apetrechos de costura de minha mãe, enquanto o famoso ponta esquerda dava nome a um robusto botão escuro, extraído de velha batina de um parente padre, porém excelente no cruzamento da tampinha de tubo de pasta em que se constituía a bola. 

Bom observar que nem todas as tampinhas de tubo de pasta serviam como bola: umas eram grandes demais; outras, pequenas. Somente as do creme dental Colipe se ajustavam perfeitamente à boa prática do jogo de botões. 

Até já havia, naquele tempo, esses ridículos times padronizados de agora, semelhantes a tampas de potes de brilhantina e que algum pai dos garotos mais abastados trazia de fora, mas que eram repudiados no ato por todos nós. Ora, o prazer da brincadeira estava exatamente em você construir o seu próprio time, conceder personalidade a cada peça, lapidar o botão que chutasse com efeito - que hoje dizemos "trivela" -, ajustar o peso do meia armador, restringir a mobilidade do becão.

Construíamos também as balizas. Traves milimetricamente ajustadas, com redinha e tudo. 

Quanto ao campo, o meu era sempre uma lousa imensa, em que meu avô, periodicamente, testava minhas aptidões aritméticas ou geográficas, premiando-me em seguida, se eu fosse bem nas lições, com uma moeda de dois mil reis, que dava para eu assistir as aventuras de Tom Mix na geral do cinema, e ainda sobraria o troco da pipoca. 

Ao término das partidas, havia todo um ritual no recolhimento dos jogadores. Com relação à minha equipe, limpava bem cada botão, espalhava talco em cima para tirar os arranhões, e os envolvia numa flanela, dentro de vistosa caixa de charutos suerdieck - que também funcionava como carroceria de meu caminhãozinho.

Tempo bom, ora se não!

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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