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CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: A FITINHA VERMELHA DO RONIVON

Por Astolfo Lima


No dia em que Ronivon sumiu, todo mundo ficou suspeitando de todo mundo na nossa rua.

Tratava-se de um siamês manhoso que usava fitinha vermelha no pescoço e era o xodó da Perpétua, uma coroa encardida que discutia com os vizinhos e costumava rasgar bolas a canivetadas, tantas caíssem no seu quintal.

"Se essa rapariga rasgar uma bola minha, eu dou fim nesse gato réi aviadado" - dizia o Zeca, um carga-torta da nossa rua, sem se tocar que poderia se perder pela boca larga.

Outro muito íntimo do bichano era o Seu Filó, um aposentado da RVC, que gastava o tempo coçando os respectivos, sentado num banco da bodega do Juarez, onde colhia as novidades e fazia reminiscências da Fortaleza anos quarenta/cinquenta e suas assombrações lá pras bandas da Estação Luís Felipe, quando ele ainda manobrava uma velha maria-fumaça.

Mal amanhecia o dia, Seu Filó dava logo as caras na bodega, um casarão parede-meia com a casa da referida Perpétua e também extensão dos aposentos de Ronivon, que vinha pelos fundos, passeando por entre as prateleiras, na maior intimidade, para se aboletar sobre os engradados de grapete e guaraná Wilson.

Ô bicho famoso! - dizia o Seu Filó, alisando Ronivon. O gato dava recuo de cabeça e erguia uma das patinhas, numa espécie de aversão natural àquele afago besta, ou, sei lá, talvez até por premonição, se é que um felino possua a mesma capacidade sensorial dos humanos, e também se fizesse sentido a má fama do velho Filomeno de que muito apreciaria um ensopado de... gato.

Tudo papo-furado, creio, se bem que Seu Filó criasse em sua casa vários bichanos e vez por outra convidasse os papudinhos para uma rodada de cachaça  Colonial regada a carne de bode, o que só reforçava a suspeita de que ele, na verdade,  fazia apenas a engorda dos animais, para depois, crau, como se fosse carne de criação.

Pelo sim, pelo não, embora tenha sido eu um atento observador de tudo que ocorresse no quadrilátero que ia da minha casa, passando pelo terreiro da Dona Maroca, subindo a rua dos campos até chegar ao mercado, prefiro ficar neutro, mesmo porque muitos personagens de minhas crônicas da primeira juventude ainda permanecem vivinhos da silva, graças a Deus, e não quero me complicar.

Verdade, contudo, é que uma reca de indivíduos vivia de olho no Ronivon, fosse por apreciar a sua altivez, fosse por odiar a dona, ou fosse ainda por interesse de ordem meramente pecuniária, vez que naquela gloriosa quadra da vida suburbana fortalezense era comum aparecerem por aqui alguns circos caindo aos pedaços, todos com suas magníficas atrações, geralmente leões já um tanto relapsos às ordens do domador, porém famintos e insaciáveis.

Por uma dessas fatídicas coincidências, no dia em que Ronivon desapareceu, uma companhia de nome estrambólico acabava de erguer mastro num descampado das proximidades, e correra boato de que os donos estariam pagando cinco cruzeiros por gato vivo ou morto.

Uma balela, provavelmente; ou não? De todo modo, o que importa é que o gato estava sumido, a Perpétua no desespero, e uma ruma de suspeitos.

Zé Bacurau - um véi careca que vivia metido num terno branco e se dizia autoridade não se sabe de quê e que tomara para si a incumbência de caguetar no Distrito Policial qualquer coisa que considerasse fora dos conformes em nosso bairro, a exemplo de briga de galos, jogo de baralho na esquina do Juarez, malhação de Judas etc, já se pusera à disposição de Perpétua, para investigar o caso e punir o criminoso. A propósito do Zé Bacurau, tenho uma historinha sensacional em que foi protagonista, e que narrarei em outra oportunidade. Mas voltemos ao que interessa.

Certa manhã, quase dois meses depois do sumiço de Ronivon, Zeca apareceu na bodega dizendo que tinha visto o gato numa casa lá no Campo do Pio.

Conversa - gritou de lá o Seu Filó, informando que gato não se acostuma em casa estranha. Se fosse ele, já teria voltado.

Juarez, que geralmente só fazia gargalhar com as histórias que rolavam em seu estabelecimento, desta vez emitiu sua opinião: faz sentido, sim, o bicho pode estar desorientado; melhor chamar a Perpétua.

Nem precisou, a coroa logo apareceu, agoniada, querendo ir à residência onde Ronivon fora visto pela última vez. Zeca argumentou ser a casa de difícil acesso, que o dono era brabo, mas se Perpétua lhe desse dez mangos, ele iria buscar o "bichim". "Eu dou quando você voltar",  disse Perpétua, roendo a unha, porém o carga-torta queria a grana no ato e não teve jeito.

Horas depois apareceu o Zeca, muito suado e trazendo uma trouxa pendurado às costas. "Deu trabalho, mas consegui" - foi logo valorizando.

Perpétua, trêmula, avançou imediatamente na sua direção, abrindo a boca do saco. Para quê! O bicho fez um fuuuuuuuuuuuu raivoso, "azunhando" o braço da coroa e desembestando no rumo da Bezerra de Menezes.

Alvoroço medonho. Uns dizendo que não se tratava de Ronivon; outros afirmando que sim; Juarez se abrindo; Zeca se mandando de fininho; e Perpétua, desolada, constatando apenas que o bicho não carregava mais a fitinha no pescoço.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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