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CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: DUDA PEITO DE POMBO, O CRAQUE QUE O VOZÃO NÃO TEVE

Por Astolfo Lima


Duda Peito de Pombo batia o maior bolão nas peladas do nosso bairro e abraçava o grande sonho  de defender as cores do Ceará Sporting Club, o time que durante minha primeira juventude teve Gildo no comando do ataque, o maior centroavante que já pintou em terras alencarinas, de modo que não sobrava pra nenhum outro time do Estado, nem mesmo para o Tricolor do Pici, também timaço, com Mozar infernizando as defesas adversárias.

Para terem ideia do poderio alvinegro, naquele tempo o Náutico do Recife chegou por aqui expelindo a maior goma, gabando-se de ter despachado os melhores times do nordeste com sua poderosa linha de frente formada  por Nado, Pita e Lala, e tomou uma acachapante goleada, lá no velho PV da placona do guaraná Wilson com seu garoto do placar logo abaixo anotando um gol em cima do outro.

Duda jogava entre a molecada na faixa dos treze, quatorze anos e era tido por todos da nossa turma como "vei", embora dissesse ter apenas dezessete. Uma incógnita, vez que era magro, caneludo, tórax desconforme e a cara cheia de crateras, onde, aqui e ali, despontavam uns fios crônicos de barba.

Sempre o primeiro a ser escolhido na hora do par ou ímpar, Duda vivia gerando reclamação do adversário que perdia a primazia de selecioná-lo entre os seus, e que reivindicava na hora o direito de requisitar pelo menos dois jogadores razoáveis, para que não houvesse tanto desequilíbrio na pelada.

Duda abria as asas em grande estilo, amortecia a pelota no peito cheio, dava um traço de arrodeio no primeiro mané que se aproximasse, levantava a bola mais adiante apenas para executar um banho de cuia no marcador, e depois deslizava em diagonal no rumo do gol, entortando um e outro, parando somente na frente do goleiro, para escolher o canto e desferir o chute de efeito, fatal.

"Esse cara tem que jogar é no Vasco da Gama - diziam os torcedores do Ferrim dos tempos do Pacoti, ao final do racha, todos bajulando o Peito de Pombo, enquanto ele pendurava a camiseta no ombro, cuspia de banda cheio de moral e se mandava no rumo da bodega do Juarez, para devorar uma banda de rapadura  e se fartar com água da pia. Fosse hoje, certamente usaria brinquinho, chuteira de cor e estaria defendendo algum time dos Emirados Árabes.

Quem não gostava nada das performances do Peito de Pombo era o seu pai, um lambe-sola lá das bandas do Olavo Bilac, o dia todo a consertar sapatos e doido por um adjutório do filho que só queria saber de bola. "Ora, você não é Pelé nem Garrincha, pra que essa besteira?" - dizia o velho, já se aporrinhado com o pouco apreço do filho pelo trabalho.

Duda, nem aí, entupindo meia com molambos, caprichando na feitura de bolas-de-pano, que levaria mais tarde pra esquina da nossa rua, onde ficava horas dando pezinhos, que hoje chamam embaixadinhas. Pedia que um garoto arremessasse a bola, de longe;  matava de coxa na maior categoria e iniciava a série interminável de toques; ora levantando a bola até a cabeça, deixando cair pelo ombro, dando de "charle" com o calcanhar direito e recolhendo com a canhota, para aplauso da meninada. Peito de Pombo não tinha mesmo como ser ignorado pelos amantes do bom futebol.

Um dia apareceu na bodega do Juarez um crioulo pernambucano cheio de ginga, cabeleira com brilhantina a lhe escorrer pela costeleta e disse que estava ali porque tivera notícia de certo garoto bom de bola e gostaria muito de assistir a uma  exibição do craque. Se gostasse, o indicaria ao treinador do Vovô, já que estava ali autorizado por um amigo que fazia parte da Diretoria alvinegra.

Todo mundo aplaudiu a ideia, cada um dizendo sobre os lances mais espetaculares do Peito de Pombo, a sua maestria em dominar e conduzir um "balão de couro" (no dizer dos narradores esportivos de então), as filigranas, o chute certeiro. Alguns chegaram a compará-lo a Mané Garrincha; outros, a um fenômeno que só poderia ser superado por Pelé, e olhe lá. Chama o homem. Corre todo mundo à procura do Peito de Pombo, e nada.

"Visse" Peito de Pombo por aí? - até o crioulo saiu a indagar de um e de outro, rua acima, e nada. Duda havia sumido como por encanto, mesmo já tendo sido avisado na véspera que viria um olheiro do Ceará para levá-lo ao Carlos de Alencar Pinto, onde passaria a treinar na equipe juvenil.

Claro, Peito de Pombo jamais poderia fazer parte da equipe juvenil de nenhum time, muito menos do "Vovô", pois se descobriu dias depois que estava completando vinte e três primaveras, e como naquele tempo o pessoal do futebol ainda não trabalhava com  gatos...

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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