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1800 PSEUDÔNIMOS PARA DALTON TREVISAN

Por Astolfo Lima


"O que não me contam, eu escuto atrás das portas. O que não sei, adivinho e, com sorte, você adivinha sempre o que, cedo ou tarde, acaba acontecendo" – disse Dalton Trevisan, numa roda de amigos, onde se destacavam Carlos Drummond de Andrade, Antonio Cândido e Otto Maria Carpeaux. 

Amparado nessa máxima, foi que Dalton, embora enclausurado a vida toda, conseguiu transitar entre um século e outro perfeitamente sintonizado com os modismos literários que ocorrem de tempos em tempos, a exemplo da nova ordem que se estabeleceu com a internet, a única que num primeiro instante chegou a confundir o irrequieto contista.

Aconselhado por um amigo a visitar salas de bate-papo virtual, quando ainda não havia Facebook, Dalton logo compreendeu que esse exercício seria bem mais prático para adaptar seu linguajar ao tempo presente que frequentar os inferninhos e feiras do mundo real de Curitiba, conforme fazia desde 1960, sempre disfarçado de... Dalton Trevisan. 

Superado o impacto inicial daquele primeiro contato com seres virtuais, numa sala de bate-papo, ocasião em que uma mocinha que dizia ter vinte anos, ser alta e linda perguntou se Dalton toparia fazer amor, o resto ele tiraria de letra. Inclusive quando a jovem informou que o ato sexual se daria ali mesmo e que, se ele topasse, poderia acionar a câmera.

Dalton visualizou naquilo apenas uma versão modernosa dos saborosos diálogos entre James Joyce e Nora, o que até explicou à mocinha, no que ela sorriu fazendo "re re re" e dizendo que James e Nora era bom nome para dupla sertaneja.

Trevisan se despediu da jovem, mas saiu animado com aquele novo método de relacionamento entre os indivíduos. 

Estenderia sua primeira experiência no mundo virtual visitando uma comunidade literária, também recomendada pelo mesmo amigo.

Foi onde Trevisan topou com acirrada discussão sobre a nova ordem literária que se estabelecia com a internet, capitaneada pelo Google e a Wikipedia; o surgimento do texto virtual e a consequente morte do livro de papel, o que fez Dalton remexer-se na cadeira, olhando meio cabreiro para suas trinta e duas estantes contendo 870 edições de O Apanhador em Campo de Centeio, adquiridas em livrarias e sebos do mundo todo, sem dizer das 470 edições clandestinas de seus próprios contos, recuperadas em longos processos nos fóruns reais do Paraná.

Suando pelas axilas, Trevisan achou melhor não participar daquele debate, preferindo anotar no seu bloquinho o que ia surgindo na tela.

Um escritor carioca questionava Sylvio Romero, José Veríssimo e J C de Alencar Araripe, enquanto críticos de maior relevância, por seus textos legitimando medalhões do Império, inclusive Machado de Assis; outro verberava contra a poesia de Cecília Meireles e Manuel Bandeira. Um poeta gaúcho investiu furiosamente contra Gregório de Mattos e o concretismo de Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Um romancista conterrâneo de Dalton disse que Clarice Lispector escrevia em sociedade com Lúcio Cardoso para dar um caráter masculino à sua escrita, e contrapor Álvaro Lins, que teria afirmado que “temperamentos femininos” enfraqueciam sua obra. Um rapaz que dizia já ter postado mais de duzentos contos em seu próprio blog e que brevemente seria publicado pela Companhia das Letras afirmou que Clarice imitava Virginia Woolf, James Joyce e Marcel Proust, daí o sentido híbrido de sua prosa. Uma jovem de Pindamonhangaba afirmou que, da velharia, o único contista brasileiro aproveitável era, quem?, ora, ele, Dalton Trevisan, o que o fez, logicamente, abrir um sorrisão na extensão de um palmo. A mesma mocinha concluiria sua participação no debate pronunciando que a nossa verdadeira literatura só tivera início a partir da internet, quando todos os escritores passaram a dispor do mesmo espaço, revelando grandes talentos, e que tudo ficaria disponível no Google, tornando obsoleto não apenas o livro de papel, como também os seus autores. 

Dalton não parava de fazer anotações no seu bloquinho.

Um poeta paulista vociferou sobre a inutilidade dos livros de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Junqueira Freire; outro, de Santa Catarina, disse que a obra de Castro Alves também era descartável, posto que montada em plágios, e também duvidou da existência de Homero, questionando a autoria da Ilíada. Um conterrâneo seu afirmou que a Divina Comédia era obra alegórica, assim como O Paraíso Perdido e Dom Quixote, e que Dante, Milton e Cervantes sequer existiram na vida real.

Dalton Trevisan anotava tudo. Em dado momento soltou o bloquinho e ficou a meditar. E se tudo que os caras estavam falando fizesse mesmo algum sentido? Homero, Dante, Milton, Goethe, Shakespeare e tantos mais sempre lhe pareceram meio estranhos. 

Ora, certos desafetos seus, de Curitiba, costumavam afirmar que Shakespeare era só uma suposição, nunca existira de fato e que toda sua extensa obra teria sido escrita por vários autores em diferentes épocas.

Nesse caso, perderia validade a velha tese com a qual Dalton estivera sempre mais propenso a dar como válida: a de que Shakespeare seria um nobre devasso a se esconder sob o pseudônimo famoso.

Com mais de setenta anos dedicados à escrita, Dalton já não se admiraria de coisa alguma relacionada à literatura. Nem se lhe dissessem que Camões também nunca existiu, que era apenas um pseudônimo de Petrarca, outro ser absurdo inventado pelos italianos. 

Trevisan sabia que a História sempre se repete – embora como farsa – sendo bem provável que em época mais remota ainda os escritores fossem todos virtuais, como agora, não mais que trinta ou menos, desdobrados em milhares, um copiando o outro e que, portanto, não haveria nenhum problema em ele próprio passar a escrever dali por diante apenas sob pseudônimo e só publicar pela internet.

São, pois, de Dalton Trevisan, todos os contos mais relevantes publicados no mundo virtual a partir de janeiro de 2001.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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