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VIRGÍNIA WOLLF SENTIU INVEJA DE KATHERINE MANSFIELD, DE LEVE

Por Astolfo Lima


"Você é má. Profundamente má!" – vociferou a jovem, alternando soquinhos nos peitos de Katherine Mansfield, que apenas riu com seus olhinhos de china, pouco envolventes, ela que a esse tempo ainda não usava franjas.

As duas haviam vivenciado juntas as primeiras experiências sexuais, e agora, sem que tivesse comunicado à amante, Katherine preparava a própria fuga rumo à Inglaterra, onde deixaria aflorar de vez a sua condição bissexual, com lances de requintada Jezebel. Tudo naturalmente, lógico, ela que sempre fora do bem.

Com menos de um ano em Londres, Katherine já estava grávida, se bem desconhecesse a identidade daquele que a emprenhara, de modo que aceitou na hora a proposta de casamento que lhe fez George Bowden, um quase desconhecido com quem nunca chegou a relacionar-se de fato, vez que o abandonaria no dia seguinte ao casório, para ir ao encontro de Ida Baker, uma garota que conhecera numa casa de moças, e tida, desde então, como sua melhor amiga, tanto por estar sempre presente nas piores crises de Mansfield, como por ser a única que realmente a consolava, no sentido mais amplo. 

"Minha verdadeira esposa", conforme referia a própria Katherine em todas as ocasiões. 

Baker, por sinal, foi quem sugeriu que a amiga tivesse o bebê na Alemanha, se bem não haja registro de que também a tivesse induzido ao aborto. Um mau presságio, contudo, acabava de configurar-se naquele momento.

Em Berlim, Katherine conheceu o crápula Floryan Sobieniewski, um obscuro escritor que deixaria marcas profundas e deletérias em sua vida. O homem que lhe introduziu uma blenorragia, danificando para sempre sua saúde com a tuberculose que acabaria por leva-la ao óbito prematuro, muito embora também tivesse ele despertado na irrequieta Kat o interesse pela obra de Tchekhov, a qual Katherine passou a esquadrinhar, fascinada, até para libertar-se do tom burocrático e demais subterfúgios que costumava imprimir à sua literatura ainda mínima. 

De Tchekhov, Katherine absorveu o olhar novo sobre as coisas aparentemente insignificantes. A linguagem concisa. O lampejo extraordinário nas alocações verbais. Uma aguda percepção do fato corriqueiro e banal, enfim... Tchekhov construiu a escritora Katherine Mansfield. 

De tal modo significativa seria a influência de Tchekhov na obra de Katherine Mansfield, que, por um momento, ela chegou a sentir-se o próprio. Foi quando publicou como sua uma história que, na verdade, pertencia ao genial escritor russo, o que serviria como elemento para que o mau-caráter Floryan passasse a chantageá-la.

Katherine, porém, já era ela mesma, a esse tempo. De regresso ao útero. Seus dissabores e traumas. A não mais rebeldia. O desejo ardente pela vida que por dentro se exauria. As confissões. Os diários íntimos. Os poemas. E para que não restasse mais nenhuma dúvida de que Kat readquirira finalmente as rédeas de si mesma, nada mais esclarecedor que a declaração de Virginia Woolf: 

"De todas as escritas que muito admirei, a única que me causou inveja foi a de Katherine Mansfield".

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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