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VICTOR HUGO VIU EM RIMBAUD UM MERO SHAKESPEARE INFANTIL

Por Astolfo Lima


Ao adentrar a loja do armeiro Jerome, Paul Verlaine cambaleava um pouco, o que causaria certa preocupação no velho amigo com quem costumava passar horas a conversar sobre armas antigas. 

Gestos um tanto arrebatados e voz claudicante, o poeta disse estar precisando de uma boa arma, no que o dono da loja lhe indicou bela pistola Bunney 1852, supondo que Verlaine buscasse apenas mais uma peça para sua coleção particular, o que fazia com frequência. 

Jerome só começou a desconfiar de que algo grave poderia se embutir naquela atitude do amigo quando o poeta solicitou razoável quantidade de munição. De todo modo, fez-lhe a venda, acreditando que Paul estaria apenas embriagado, como de costume. 

Outros testemunhos, entanto, afirmam que Verlaine mão estava bêbado ao adquirir a tal arma e muito menos quando desferiu um tiro à queima-roupa contra Arthur Rimbaud, atingindo-o de raspão. Encontrava-se simplesmente corroído pelo ciúme, que o fizera inclusive abandonar a esposa Mathilde juntamente com o pequeno Jean, filho único do casal, em quem o enfurecido Paul ainda aplicaria piparotes, antes de se retirar para cometer o tresloucado gesto.

A versão de embriaguez só ganha importância pelo fato de que Rimbaud pôde dominar facilmente o colega, tomando-lhe a pistola antes que fizesse o segundo disparo, acertando depois dois chutes no seu traseiro e vociferando: "Sert de leçon, bâtard d'une figue!". 

Uma colocação – diga-se – que também coincide com afirmações de Mallarmé, Paul Valéry, Albert Samain e vários outros vates alucinados que costumavam acompanhar les amants em atormentadas noites absínticas. 

Mal explicado no sucedido, apenas o fato de Verlaine ter sido preso por tentativa de homicídio, mesmo não havendo denúncia formal contra si, enquanto Rimbaud partia livre no rumo da África, abdicando de uma até então vitoriosa trajetória poética, se bem que um tanto chamuscada naquele momento pela irônica declaração de Victor Hugo, que vira em Rimbaud um mero Shakespeare infantil.

Sobre esse desfecho melancólico, aliás, a crônica mundana da época também tem a sua interpretação, que evidentemente não pode ser dada como definitiva: Rimbaud ficara bastante deprimido com as declarações de Hugo, sim, porém o motivo real que o levara à fuga para outro continente atendia a um interesse de ordem meramente pecuniária: o jovem Arthur Rimbaud achava que negociando armas e traficando escravos, logo enriqueceria, podendo dessa forma dedicar-se em tempo integral à sua poesia.

Só não contava com a garra traiçoeira do destino, que o arrebataria no instante em que preparava sua grande cartada.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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