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VERSOS AMARGOS DO GÊNIO AUTOPROMOVIDO

Por Astolfo Lima


O olhar insípido de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes y Basoalto adquire um brilho sinistro, antes que ele próprio exploda num gargalhar ilógico, para espanto dos poucos convidados ainda ao living, em Islã Negra. Só aí se percebe que seu cão, um feroz boxer ao qual já dedicara condimentadas estrofes, investe furiosamente contra Jurema Finamour.

A Bassoalto, contudo, não mais interessa o testemunho ocular dessa cena fugaz. No resguardo da cortina, já no alpendre, sentir-se-á bem mais à vontade apenas em conjeturar para sua secretária, em pânico, um desfecho repleto de escoriações generalizadas. 

E Bassoalto estremece de gozo, sacudindo-se ao modo de um boneco inflável. Ou como se elaborasse mais um texto auto-promocional, dos tantos que, inevitavelmente, o levarão ao Nobel de Literatura.

Jurema Fanamour, exilada do golpe militar de 64 no Brasil, romancista de méritos, boicotada por editores que faturam horrores com as lengas do maior mistificador latino-americano dos anos de chumbo, no caso o citado Ricardo Eliécer, será salva por um amigo. 

A Jurema, porém, Pablo Ricardo Eliécer Neruda ainda brindará com diversificado repertório de achaques, tanto se alongue sua permanência sob as garras desse valoroso "poeta dos desvalidos", desse "vate extraordinário que encantou o mundo" lotando estádios de futebol para recitar seus versos supostamente libertários.

A degradação a que se verá submetida em Islã Negra será de tal ordem danosa para Finamour, que, ao visitar um médico, esse lhe dirá que seu estado de subnutrição é gravíssimo, podendo levá-la ao óbito, caso o Sr. Neruda Eliécer ainda teime em trancar a dispensa toda vez que sair em viagem, escondendo inclusive a caixa com medicamentos, como fez recentemente, deixando Jurema de cama, à beira de uma pneumonia. 

"Coisa mais absurda, meu Deus!” – exclamará, por fim, o aturdido doutor, completando em seguida: "Você só escapou porque seu colega de infortúnio (o humilde caseiro) a socorreu com chazinhos e fubá.

Ricardo Eliécer Neftalí Reyes y Basoalto, mais conhecido como Pablo Neruda, achava ridículo que um exilado político almejasse "regalias", muito embora ele próprio – "rigoroso socialista" – jamais abrisse mão do conforto burguês que os inúmeros incautos lhe franqueavam, mundo à fora. 

Pablo Basoalto, aliás, iria muito além na sua hipocrisia e perversidade contra Jurema: negou-lhe sistematicamente o contato com familiares e amigos, cujas cartas que lhe eram endereçadas do Brasil, jamais chegaram às suas mãos.

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OBS:
1-Texto baseado no livro "Pablo e Dom Pablo", em que Jurema faz denúncias terríveis sobre uma possível dupla personalidade de Pablo Neruda. Não endosso nem descreio. Para mim, todos os escritores são dignos de fé até que provemos o contrário.
2-Tenho um livro em preparo: "O Outro Lado da Biografia", em que narro lances inusitados de escritores famosos. Se alguma editora tiver interesse, são cinquenta narrativas curtas, das quais estou publicando algumas aqui no meu blog, a título de registro.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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