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ÚLTIMA QUIMERA DE UM LOUCO GENIAL

Por Astolfo Lima


Quando Edgar Allan Poe desembarcou na casa de sua tia, em Baltimore, podemos dizer que seu prestígio familiar era zero, muito embora a senhora Clemm o acolhesse sem repreensões. 

Poe, mal ingressara na universidade, passou a beber mais e contrair dívidas em jogatinas, provocando a ira do seu tutor, que o tirou da academia e o meteu no Exército, na esperança de que se aprumasse, o que, logicamente, não ocorreria.

Expulso na agravante de grande desonra militar, por uma corte marcial, Edgar Allan se viu obrigado a buscar abrigo na casa da Sra. Clemm, onde, a esse tempo, também residia sua filha Virgínia, de oito aninhos, justo aquela com quem Poe se casaria cinco anos depois, forjando uma certidão que a dava como maior de idade.

Ora, direis, quem haveria de compreender o amor ou a forma como esse se manifesta em dois corações tão absolutamente distintos como aquele que corrompia o espírito de um autor de pérolas que deixaram Mallarmé e Baudelaire estupefatos, e aquele outro de alma impúbere que ainda não acalentara desenganos?! 

A muitos, claro, esse gesto arrebatado de Poe pareceria não mais que a inconsequência do ébrio incorrigível aliando ao pouco juízo de uma menina empolgada ante os ditos espirituosos de um artista genial. Mas, não. 

Quem conhecesse os dois jovens, mais amiúde, logo perceberia que o inusitado consórcio traduzia o vínculo perfeito entre duas necessidades e uma mesma inquietude. À Virgínia, embora seu gesto pudesse sugerir alienação, por abdicar do conforto caseiro para se enfiar numa aventura dolorosa, injusto seria não reconhecer o amor que um nutria pelo outro. Poe dedicaria à sua amada o mais nobre e verdadeiro de todos os seus sentimentos, até que fossem ambos colhidos pela traiçoeira pata do destino.

Quando cantava para amigos numa tertúlia familiar, a meiga  Virginia teve grave crise de hemoptise, tingindo seu vestido com manchas de sangue e provocando em Poe incontida crise de choro. Desse momento em diante, o estado de saúde da jovem só se agravaria, acentuado pela pobreza da família, até sua morte, pouco tempo depois, quando contava apenas 24 anos. 

Seria também o réquiem do melancólico Edgar Allan Poe. O responsável pela vertente mais revolucionária da literatura norte-americana, e que no início chegou a ser rejeitada pela crítica. Uma literatura que nada mais era que retalhos de seus próprios dramas, desde a orfandade precoce até a rejeição por parte de John Allan,  o rico comerciante que o adotara e a quem Edgar homenagearia mais tarde acrescentando o “Allan” em seu nome. 

O poeta ficou de tal modo inconsolável com a morte da esposa, que, frequentemente, era encontrado pela Sra. Clemm chorando no túmulo de Virginia. Vem dessa época, aliás, o seu enorme medo de escuro, obrigando a que sua tia se sentasse sempre a seu lado todas as noites, até que adormecesse.

Psicologicamente abalado, Poe passaria a intercalar períodos de trabalho com porres intermináveis, mudando-se constantemente de Richmond a Baltimore, e dessa para Nova York e Filadélfia, incapaz de manter um emprego ou ganhar dinheiro editorando jornais ou publicando livros. 

Três anos depois da morte de Virgínia, Poe seria recolhido de uma sarjeta, em Baltimore, e levado ao hospital local, onde sobreviveria menos de uma semana.


Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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