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THOMAS É BOB, DYLAN É THOMAS

Por James Kafka


Dylan Thomas, o poeta galês com quem Bob Dylan associou-se no nome e no sentimentalismo, começou a fazer poesia, de ouvido, ainda criança, dado que o pai costumava recitar-lhe Shakespeare antes mesmo que aprendesse a ler.

Assim como Bob, ou a exemplo de Thomas, ambos detestavam o ensino convencional das escolas, abrindo exceção apenas à língua pátria e a literatura - exercícios em que se tornariam exímios malabaristas, cada um a seu modo, porém guardando, os dois, fortes semelhanças na eclosão de seus respectivos sentimentos.

Com 18 anos, por exemplo, Thomas já havia escrito a parte mais substancial de sua poesia, como se sentisse uma necessidade quase absurda de proferir num só fluxo tudo aquilo que o inquietava. Mais contido, ainda que não menos obstinado na construção de sua obra, Bob Dylan com essa mesma idade vislumbrou o folk como mais adequado para escoar seus versos de largo curso, descartando de vez o rock tradicional. 

Com vinte anos, já em Londres, Thomas ganha um premio de poesias e publica seu primeiro livro: 18 Poemas, obtendo grande sucesso. É quando Bob, na mesma idade, resolve incorporar Dylan à sua alma, abdicando ao próprio nome, que seria mera imposição familiar, uma vez que não escolhera se chamar Robert Allen Zimmerman.

Sobre essa opção, Bob Dylan daria a seguinte explicação em sua auto-biografia:
"Eu havia visto alguns poemas de Dylan Thomas. A pronúncia de Dylann e Allyn era parecida..." E por aí segue Dylan na sua justificativa, até concluí-la com estas palavras: "A primeira vez que me perguntaram meu nome em Saint Paul, instintiva e automaticamente soltei: 'Bob Dylan'".

Embora entrasse em rota de colisão com a escrita de seus contemporâneos mais renomados, T S Eliot e W.H. Auden, o lirismo intenso e emotivo de Thomas, por vezes beirando o romantismo, não passaria despercebido aos cultores  da boa poesia, até pelas nuances que também perpassavam o surrealismo inglês ou algo assim. Emoção. Pura emoção e espontaneidade, da mesma forma como na música de Bob. À margem das questões sociais e intelectualizadas propugnadas por Auden e Eliot, mas não menos significativa e intensa.

O Nobel a Bob Dylan, portanto, é válido porque também contempla a poesia de Dylan Thomas.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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