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O IMPULSO METAFÍSICO REVERENCIADO POR JAMES JOYCE

Por Astolfo Lima


Antes de legar ao mundo a sua polêmica obra, James Joyce exercitou-se durante dois anos e cinco meses a escrever cartas libidinosas para sua distinta e tímida esposa, Sra. Nora, que, com o tempo, assimilaria bem a devassidão do marido, ou assim o fez em nome das letras universais, conforme lhe propunha o libertino. 

"As tiradas impudicas, sujas, inimagináveis nos colóquios normais são de significativa importância para a literatura, creia-me" – dizia-lhe JJ, entre uma  masturbação e outra, enquanto rabiscava os originais de Ulisses.

“Minha obra, embora inútil, será relevante para a literatura moderna, ainda que num primeiro instante fique restrita à meia dúzia de curiosos” – dizia-lhe. 

“Acredito” – respondia Nora.

“A importância de Ulisses e Finnegans Wake só ficará patente a partir de rumorosos debates academicistas que provocarão. Das teses de criaturas que sequer lerão esses livros na totalidade, mas que terão sempre um comentário favorável ou não a respeito de cada um”. 

“Disso não tenho dúvida” – Nora balançava afirmativamente a cabeça.

“Daqui há duzentos anos, muitos terão lido Ulisses e Finnegans Wake, porém poucos os terão desvendado. Quem se atreveria a supor que o fluxo de ambos se refere a gritos de ébrios e prostitutas, colhidos por mim na zona meretrícia de Dublin?”

Nora assentia nessas colocações do marido e até recomendava que Joyce só escrevesse folhetins picantes, pois renderia mais grana. Contudo, sentia-se constrangida em ser, ela mesma, protagonista daquele diálogo espúrio e depravado que fora proposto inicialmente por James Joyce.

Para demover a Sra. Nora desses pudores tão naturais em uma dama de muito boa formação moral, James Joyce bordava com manchas de esperma o rodapé de suas missivas, comunicando à sua amada ser aquilo a  mais sublime expressão do amor que por ela nutria. 

Convencida, pois, do relevante serviço que poderia prestar à literatura, Nora passou a corresponder a esses eflúvios libidinosos de Joyce com desenhos de bocas carnudas por todo o corpo do papel almaço, a simular o entusiasmo daquele prazer efêmero, porém inquestionável. Isso, hoje, corresponderia ao mesmo impulso metafísico fartamente reverenciado pelos solitários nas redes sociais da internet.

As inúmeras cartas que Joyce trocou com Nora equivaleriam aos atuais diálogos  que circulam nas salas de bate-papo virtual. Grande parte desse precioso acervo se constitui verdadeiro tratado pornográfico, repleto de frases concisas, conforme exigem os modernos softwares, e sobretudo luxuriosas, em que o artista,  como a prever os danos que as doenças sexualmente transmissíveis causariam no século XXI, chega mesmo a propor a masturbação como única forma realmente segura  na prática mais íntima entre um casal.

Como vemos, até nisso Joyce foi o precursor.


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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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