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O DIA EM QUE CHARLES BAUDELAIRE VERTEU A LÁGRIMA QUE INUNDOU PARIS

Por Astolfo Lima


"Não se deixe envolver pela fúria de uma crítica preconceituosa e bastarda, minha mãe!” – disse Baudelaire, fitando nos olhos a Sra Caroline Archimbaut-Dufays, que, porém, se manteve irredutível em aceitá-lo como precursor de algo grandioso na poesia.

“Para mim a literatura tem função primordial em todas as manifestações espontâneas, independente de seu feitio e do ultraje a que possa ser submetida em algum momento, você me entende?” – insistiu o poeta.

“Não”.

“Refiro-me à concepção de estilo ou busca de resultado estético-filosófico de uma obra literária, o que também vale para qualquer outra forma de expressão artística, em que o belo brotará do aparentemente sórdido para ganhar dimensão extraordinária somente mais tarde, a exemplo dessas Fleuers du Mal com que brindarei a posteridade e que, agora, escandalizam os imbecis de França".

No modo de ver da rigorosa Sra. Archimbaut-Dufays, Charles Baudelaire era não mais que um esbanjador incorrigível. Dono de apetite voraz pelas iniciativas fúteis, sobretudo por mulheres de comportamento exótico, a exemplo da mulata Jeanne Duval, a quem o filho teria oferecido joias caríssimas e dedicado poemas de gosto por certo duvidoso. 

Como se percebe, a inflexível senhora  Archimbaut-Dufays referia-se a pérolas provavelmente não lidas, no quilate de "Le Balcon", "Parfum Exotique", "La Chevelure", "Sed non Satiata", "Le Serpent qui Danse" e tantas mais que haveriam de empolgar sumidades ao porte de Banville, Flaubert, Theophile Guatier e até Victor Hugo. Uma apreciação, portanto, injusta para com o poeta que fizera brotar crisântemos onde até então só se cultivavam cravos e espinhos.

Baudelaire tocou de leve o ombro da Sra. Dufays, curvou rapidamente a cabeça e retirou-se mudo. 

Nutria enorme respeito pela mãe e seria incapaz de contra-argumentar sobre o que ela já definira como mais sensato para ambos, que era manter sob controle de um notário a herança que seu falecido marido deixara ao filho poeta.

Baudelaire, evidentemente, tinha plena consciência de todo o contexto humanístico que moldurava a França em meados do século XIX, repleta de vanguardismos e descobertas no universo das artes, porém permeada nos contrastes de ordem moral já enraizados. 

Há relatos de que o próprio Baudelaire, em determinados momentos, chegou a melindrar-se com o manuseio de temas relacionados a sexo, lesbianismo, amor profano, morte etc. Sabia, entanto, da validade estilística proveniente das metamorfoses de caráter do artista nato. Compreendia como poucos a melancolia que emanava dos eventos desbragados. Distinguia num lapso toda a beleza trágica dos tríduos banais e efêmeros, todas as imagens febris, cores, fragrâncias, mesmo as oriundas da corrupção da cidade, da opressão mais vulgar, de todas as dolorosas marchas em busca do... nada. Ah!

Dizem que após esse tenso encontro com a Sra. Caroline Archimbaut-Dufays, Charles Baudelaire verteu uma lágrima que inundou Paris.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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