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KAFKA, O BESOURO ALOMÓRFICO

Por Astolfo Lima


Herman escancarou a porta, com violência, impelindo-a de encontro à parede da sala, para espanto de sua esposa, sentada ali próximo a coser delicada peça de lã. 

O velho sentira de longe o cheiro de Kafka, na calçada, junto a um rapaz de aspecto rude com quem tecia apreciações sobre desatinos, e vinha decidido a submeter o filho a mais uma sessão de achaques.

"Entra, imediatamente! Não vês que o ar está úmido, ô paspalho?!" – vociferou Herman a trincar os dentes e engolir uma gosma esverdeada que já começava a escorrer-lhe pelo cavanhaque.

Envergonhado, o jovem Kafka logo se encolheu à intimidação, não sem antes explicar ao amigo que o gesto de animosidade paterna origina-se quase sempre no excesso de zelo dos que tendem a ver os filhos como eternas crianças. "Daí que o amor, por vezes, tem a cara da violência." – completaria, abaixando a cabeça e se dirigindo ao seu quarto.

Pela vez primeira em todos os seus mal vividos dezessete anos, Franz Kafka sentiu-se o próprio inseto que começara a delinear como personagem central de seu drama verdadeiro. E o pai, aquele que reina sob leis arbitrárias, nas narrativas posteriores. Ou ainda o elemento invisível e brutal de O Processo. O ser aparentemente essencial ao bom funcionamento do aparelho estatal, mas que se revela figura castradora, surrealista e letal ao indivíduo comum. 

A angústia do sujeito diante de uma situação provavelmente cavada por ele mesmo junto a uma entidade que sequer sabe da sua existência enquanto elemento inserido numa sociedade, ou simplesmente recolhido à sua alcova. 

Todas essas anotações em volumoso caderno, que Kafka tomava o cuidado de manter sob o colchão da cama, sobretudo porque começara a tecer com muito cuidado um ortóptero aparentemente comum, doméstico, desses que esmagamos com repugnância e chutamos para longe, que era exatamente como Kafka se sentia com relação a seu pai, o boçal Sr. Herman. 

Um bicho feio, inofensivo, que, porém, logo haveria de ganhar contornos assustadores, aí não mais à sua semelhança e sim a do brutamontes Herman, sempre a vociferar aleivosias e envergonhá-lo. Um Herman imenso, horripilante, se bem que nulo, dado a incapacidade de locomover-se pela casa. Apenas a zanzar inutilmente dentro de sua alcova, erguendo mil patas como se suplicasse clemência. Todas essas patas a se entrelaçarem sobre duas monstruosas antenas que lhe espetavam a testa gigantesca, ovalada, enquanto Kafka era agora não mais que um besouro alomórfico encetando voos rasantes em volta da carcaça marrom, descomunal, do insetarrão Herman.

A partir daquela noite – dizem –, Kafka nunca mais haveria de ter pesadelos. Pelo menos no formato que lhe fora sempre uma constante: repleto de figuras pavorosas, sons de mau agouro, suores e lágrimas. Porque também, evidentemente, um besouro é apenas um besouro. Imune, portanto, às emoções mais fortes.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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