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ENCONTRO DE WOODY ALLEN COM MACHADO DE ASSIS, EM PARIS

Conto de A. Lima




Woody Allen enganchou na cara o par de óculos aro de tartaruga em lentes pretas com a mesma espessura do fundo da garrafa de champanha da qual sorvera dois goles minutos antes em reunião extremamente desnecessária e idiota com editores suecos, e enfiou-se porta adentro no refinado antiquário do Quartier Latin, em Paris. 

Queria, antes de tudo, safar-se dos curiosos. Permanecer incógnito e bem distante das aporrinhações por autógrafos e elogios pífios à sua obra cinematográfica, que, a bem dizer-se, jamais considerara grande coisa.

De início, Allen postou-se diante de uma imitação perfeita de Picasso pendurada de modo estratégico numa parede bordô, que, em rápida avaliação, considerou bem superior ao original, e em seguida acenou a uma jovem e elegante senhorita que acabara de atender a um casal de idosos norte-americanos.

"Quanto custa?" – indagou Woody, em francês, quase sem sotaque, constatando no ato que seu disfarce estava perfeito, dado que a jovem lhe responderia seca e profissionalmente como se estivesse diante de um pauvre acheteur

Por instantes, Allen até sentiu ímpetos de avançar sobre o pescoço da moça e dizer pausado no seu branquíssimo pé de ouvido: "Olha, eu sou Woody Allen! Eu dirigi Broadway Danny Rose; por acaso conhece?! Preferiu, porém, ser apenas mais lacônico que o habitual: 

"Ok, eu pagaria mais por essa peça; reserve!".

Um tanto sem graça, Woody dirigiu-se ao salão que abrigava belíssimas estantes, todas repletas de livros raros. Foi quando deparou a luxuosa edição de Mémoires Posthumes de Braz Cubas, traduzida por Adrien Delpech e publicada pela Garnier no ano da graça de 1911. 

Impressionara-o muito mais a encadernação de época, que propriamente a obra, cujo escritor jamais ouvira falar em todas suas andanças e gastanças por esse mundão de inutilidades várias. Ainda assim, Allen começou a folhear o livro, momento em que arrancou bruscamente os óculos da cara no sentido de enxergar melhor, denunciando assim sua verdadeira identidade. 

"Mon Dieu, c'est Woody Allen! Quelle agréable surprise!" –  proferiu a mocinha de antes, sacando não se sabe de onde um caderninho e lhe solicitando um autógrafo.

Woody nem ouviu. Parecia extasiado com a breve leitura daquele autor marginal. Apenas exclamava, baixinho, para si mesmo: "pu ta qué pa riuuu!", em inglês ou francês, não importa. Em determinado momento, Woody Allen já nem sabia se sorria ou soluçava de emoção, ante a descoberta que considerou simplesmente fantástica. Então fez as duas coisas ao mesmo tempo, sem melindres: riu e chorou, perguntando-se como ele e o restante do mundo haviam ignorado por tanto tempo um artista tão genial como Machado de Assis.


Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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