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BUKOWSKI NUTRIA-SE DE POEMAS SUJOS E PROSTITUTAS DEPRAVADAS

Conto de Astolfo Lima

Aos treze anos, Bukowski disse, numa roda de garotos, que só haveria de se sentir plenamente realizado no dia em que acertasse uma bordoada de jeito na fuça do seu encardido genitor, um casca-grossa que costumava espichar-lhe o couro para escoar frustrações que lhe permeavam a vida chinfrim. "Let it be!"

Vociferou esse seu intento enquanto os colegas, um a um, perfilavam anseios mais brandos: um querendo se tornar aviador quando crescesse; outro, maquinista de trem; outro mais, artista de cinema, cantor de blues ou boxeur, e assim sucessivamente, como ocorre naquela fase inconsequente e pueril de todo adolescente. 

"Assim farei, ainda que necessite dar o fato como lastimável acidente doméstico, em que, postando-me ao corredor da casa, armado com fornido taco de beisebol, simularei rebatidas de bola como se desejasse não mais que aperfeiçoar jogadas para marcar presença no colégio, onde todos me discriminam por conta de minha pouca habilidade nesse esporte que tanto admiro” – complementava o menino Bukowski abrindo um sorriso cafajeste, espanando o invisível num “vapt, vupt” bastante significativo, e fornecendo mais detalhes: 

“Quando o safardana abrir a porta do meu quarto para vociferar sermões, boom! Abro-lhe um rasgo na cabeça e depois pedirei desculpas, deliciando-me ante o assombro do velhaco”.

Certo que Karl Bukowski jamais daria feições reais a tão acalentado devaneio. Seu pai conhecia-lhe bem as artimanhas, sempre a esquivar-se em surdina pelos quintais em busca de inspiração para suas masturbações do dia-a-dia. Rosto que mais se assemelhava a uma cratera lunar, tomado por bolhas purulentas, sem que nunca sarassem. 

Ora, que alternativa restaria ao Sr. Heinrich Karl, que não encher de sopapos a cara deslavada daquele filho  da puta, nas tantas e tantas vezes em que o flagraria desfolhando a margarida?!

Quando completou dezessete anos, para compensar a falta do carinho familiar de que nunca desfrutou nem merecia, Bukowski resolveu que, em vez dos libidinosos exercícios matinais, passaria a escrever poemas, se bem que a seu modo: sujos e pervertidos, repletos da devassidão latente que ganharia corpo bem mais tarde através de narrativas deliciosamente sórdidas, por vezes brutais, a esquadrinharem o submundo da desvairada Los Angeles ao final dos anos trinta do século xx. 

Alimentando-se de livros e álcool. Ao afago de prostitutas novas e depravadas. Ou simplesmente gargalhando dos doutores, em concorridas conferências universitárias em New York, onde ainda faturaria boa grana explicando tão-somente a sua condição de incorrigível velho safado.

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Literatura Brasileira Contemporânea e Música Universal. Poesia e Contos.

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