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Mostrando postagens de Outubro, 2016

A CAÓTICA RELAÇÃO ENTRE O SUBLIME E A CABALA

Por Astolfo Lima


Órfã no exato instante em que começa a modular frases cujo sujeito primordial atende pelo nome de mãe, e única sobrevivente de quatro irmãos, Cecília Benevides de Carvalho Meireles teve que percorrer todo um ciclorama de luzes difusas até que detivesse a noção do efêmero, da transitoriedade de tudo neste mundo.
Foi como fundiu seu caráter e obstinação. 
Guardando para si mesma, entrelaçados como fios de uma tapeçaria persa, todos os segredos e buscas nas disposições afetivas e sentimentais.
 Menina, a conviver entre o silêncio e a fantasmagoria; adolescente, amparando-se em versos de maior alcance emotivo; adulta, fixando olhares no hermetismo poético de vates pouco angelicais, a exemplo de Fernando Pessoa, com quem travaria longo e fervoroso diálogo através de páginas esparsas e espectrais.
A mesma Cecília que logrou transitar à margem de todos os movimentos de ordem literária. Diluindo-se em muitas quando era uma só, na vã tentativa de desvendar seu próprio eu, assi…

DISCURSO METAFÍSICO DE UM BOMBARDINO

Por Astolfo Lima

Primeira vez que Jorge Luís Borges ouviu sobre irrealidade do mundo foi pela voz de Macedônio Fernandez, velho compatriota seu, tido como visionário por difundir teses supostamente estapafúrdias relacionadas à literatura, ao mesmo tempo em que se diluía, ele próprio, na confecção de primorosos versos de caráter fragmentário, com os quais propunha ao distinto público a relevante incumbência de decifrá-los ou conceder-lhes itinerário possível. Aquele lance de obra aberta, inacabada, ou intertextualidade –  conforme o jovem Borges haveria de assimilar, anos depois. 
"O texto de qualidade tem o mérito de reconstituir-se por si mesmo, daí o segredo de romper o tempo e propugnar a desnecessidade do artista enquanto agente apenas rubricador de conceitos aleatórios" – proferia o até então apenas excêntrico e obscuro Macedônio, reiterando em tom grave, entre uma baforada e outra de ordinário charuto guatemalteco: 
"Parto da premissa de que absolutamente tudo no …

VERSOS AMARGOS DO GÊNIO AUTOPROMOVIDO

Por Astolfo Lima


O olhar insípido de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes y Basoalto adquire um brilho sinistro, antes que ele próprio exploda num gargalhar ilógico, para espanto dos poucos convidados ainda ao living, em Islã Negra. Só aí se percebe que seu cão, um feroz boxer ao qual já dedicara condimentadas estrofes, investe furiosamente contra Jurema Finamour.
A Bassoalto, contudo, não mais interessa o testemunho ocular dessa cena fugaz. No resguardo da cortina, já no alpendre, sentir-se-á bem mais à vontade apenas em conjeturar para sua secretária, em pânico, um desfecho repleto de escoriações generalizadas. 
E Bassoalto estremece de gozo, sacudindo-se ao modo de um boneco inflável. Ou como se elaborasse mais um texto auto-promocional, dos tantos que, inevitavelmente, o levarão ao Nobel de Literatura.
Jurema Fanamour, exilada do golpe militar de 64 no Brasil, romancista de méritos, boicotada por editores que faturam horrores com as lengas do maior mistificador latino-americano dos anos …

KAFKA, O BESOURO ALOMÓRFICO

Por Astolfo Lima


Herman escancarou a porta, com violência, impelindo-a de encontro à parede da sala, para espanto de sua esposa, sentada ali próximo a coser delicada peça de lã. 
O velho sentira de longe o cheiro de Kafka, na calçada, junto a um rapaz de aspecto rude com quem tecia apreciações sobre desatinos, e vinha decidido a submeter o filho a mais uma sessão de achaques.
"Entra, imediatamente! Não vês que o ar está úmido, ô paspalho?!" – vociferou Herman a trincar os dentes e engolir uma gosma esverdeada que já começava a escorrer-lhe pelo cavanhaque.
Envergonhado, o jovem Kafka logo se encolheu à intimidação, não sem antes explicar ao amigo que o gesto de animosidade paterna origina-se quase sempre no excesso de zelo dos que tendem a ver os filhos como eternas crianças. "Daí que o amor, por vezes, tem a cara da violência." – completaria, abaixando a cabeça e se dirigindo ao seu quarto.
Pela vez primeira em todos os seus mal vividos dezessete anos, Franz Kafka…

T S ELIOT E AS EMANAÇÕES DELITUOSAS DE CHARLES BAUDELAIRE

Por Astolfo Lima


O casamento de T. S. Eliot e Vívien estava rachado desde 1922, porém os dois ainda se digeriam sob a mesma plataforma até o início da década de trinta. 
Ela, com fortes sinais de instabilidade mental, que se acentuara muito ao vir a público sua infidelidade ao marido, com Bertrand Russell. Eliot, insensível às coisas supostamente vãs, e uma crueldade que por vezes atingia pessoas mais próximas, como a desfeita a Ezra Pound, logo após o amigo adverti-lo de que "mutilar" as 92 linhas de "Death by Water", transformando-as em mísera estrofe, não fora ideia das melhores. 
Indignado com a intromissão do ex-amigo, Eliot simplesmente vociferou que o discurso de Pound apenas o incentivara a fazer as coisas do seu próprio jeito. 
O poeta Eliot, a esse tempo, como todo astro de maior envergadura, transitava entre seus pesadelos mais íntimos e a quase obsessão de agrupar em uma mesma arquitetura os emanações delituosas de Baudelaire, os slides etéreo-emblemáti…

O IMPULSO METAFÍSICO REVERENCIADO POR JAMES JOYCE

Por Astolfo Lima

Antes de legar ao mundo a sua polêmica obra, James Joyce exercitou-se durante dois anos e cinco meses a escrever cartas libidinosas para sua distinta e tímida esposa, Sra. Nora, que, com o tempo, assimilaria bem a devassidão do marido, ou assim o fez em nome das letras universais, conforme lhe propunha o libertino. 
"As tiradas impudicas, sujas, inimagináveis nos colóquios normais são de significativa importância para a literatura, creia-me" – dizia-lhe JJ, entre uma  masturbação e outra, enquanto rabiscava os originais de Ulisses.
“Minha obra, embora inútil, será relevante para a literatura moderna, ainda que num primeiro instante fique restrita à meia dúzia de curiosos” – dizia-lhe. 
“Acredito” – respondia Nora.
“A importância de Ulisses e Finnegans Wake só ficará patente a partir de rumorosos debates academicistas que provocarão. Das teses de criaturas que sequer lerão esses livros na totalidade, mas que terão sempre um comentário favorável ou não a respe…

ÚLTIMA QUIMERA DE UM LOUCO GENIAL

Por Astolfo Lima


Quando Edgar Allan Poe desembarcou na casa de sua tia, em Baltimore, podemos dizer que seu prestígio familiar era zero, muito embora a senhora Clemm o acolhesse sem repreensões. 
Poe, mal ingressara na universidade, passou a beber mais e contrair dívidas em jogatinas, provocando a ira do seu tutor, que o tirou da academia e o meteu no Exército, na esperança de que se aprumasse, o que, logicamente, não ocorreria.
Expulso na agravante de grande desonra militar, por uma corte marcial, Edgar Allan se viu obrigado a buscar abrigo na casa da Sra. Clemm, onde, a esse tempo, também residia sua filha Virgínia, de oito aninhos, justo aquela com quem Poe se casaria cinco anos depois, forjando uma certidão que a dava como maior de idade.
Ora, direis, quem haveria de compreender o amor ou a forma como esse se manifesta em dois corações tão absolutamente distintos como aquele que corrompia o espírito de um autor de pérolas que deixaram Mallarmé e Baudelaire estupefatos, e aquele ou…

VIRGÍNIA WOLLF SENTIU INVEJA DE KATHERINE MANSFIELD, DE LEVE

Por Astolfo Lima


"Você é má. Profundamente má!" – vociferou a jovem, alternando soquinhos nos peitos de Katherine Mansfield, que apenas riu com seus olhinhos de china, pouco envolventes, ela que a esse tempo ainda não usava franjas.
As duas haviam vivenciado juntas as primeiras experiências sexuais, e agora, sem que tivesse comunicado à amante, Katherine preparava a própria fuga rumo à Inglaterra, onde deixaria aflorar de vez a sua condição bissexual, com lances de requintada Jezebel. Tudo naturalmente, lógico, ela que sempre fora do bem.
Com menos de um ano em Londres, Katherine já estava grávida, se bem desconhecesse a identidade daquele que a emprenhara, de modo que aceitou na hora a proposta de casamento que lhe fez George Bowden, um quase desconhecido com quem nunca chegou a relacionar-se de fato, vez que o abandonaria no dia seguinte ao casório, para ir ao encontro de Ida Baker, uma garota que conhecera numa casa de moças, e tida, desde então, como sua melhor amiga, ta…

O DIA EM QUE CHARLES BAUDELAIRE VERTEU A LÁGRIMA QUE INUNDOU PARIS

Por Astolfo Lima


"Não se deixe envolver pela fúria de uma crítica preconceituosa e bastarda, minha mãe!” – disse Baudelaire, fitando nos olhos a Sra Caroline Archimbaut-Dufays, que, porém, se manteve irredutível em aceitá-lo como precursor de algo grandioso na poesia.
“Para mim a literatura tem função primordial em todas as manifestações espontâneas, independente de seu feitio e do ultraje a que possa ser submetida em algum momento, você me entende?” – insistiu o poeta.
“Não”.
“Refiro-me à concepção de estilo ou busca de resultado estético-filosófico de uma obra literária, o que também vale para qualquer outra forma de expressão artística, em que o belo brotará do aparentemente sórdido para ganhar dimensão extraordinária somente mais tarde, a exemplo dessas Fleuers du Mal com que brindarei a posteridade e que, agora, escandalizam os imbecis de França".
No modo de ver da rigorosa Sra. Archimbaut-Dufays, Charles Baudelaire era não mais que um esbanjador incorrigível. Dono de a…