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Reflexões Ligeiramente Filosóficas de um Cronista Pós-nada


Ilustração do autor


Você é o subproduto de uma sociedade trash!

Por James Kafka


Meus amigos, se esquecêssemos por um instante o computa, jogássemos fora o celular e déssemos de presente o aparelho de TV ao cidadão que recolhe lixo para reciclagem, todo dia, em nossa calçada, certamente lucraríamos muito.

Teríamos um pouco mais de tempo para refletirmos quão insensatos temos sido todos nós ao longo do tempo permitindo que reduzida fração de espertos humanoides determine o que devemos ou não fazer de nossas vidas.

O que consumir ou não, o tipo de leitura a que devemos nos deter, o filme a assistir, a novela, a música, os "astros" a cultuar, os cartões de dívidas, o plano de saúde, o apartamento onde morar, o estilo de vida que devemos ter, o banco que engolirá mossa grana, o supermercado que nos encherá de supérfluos e ainda nos imprá a obrigação de pagarmos a eles uma taxa por esse "direito" que nos dão de consumir. Já imaginaram?  Reflitamos!

O nosso escasso dinheiro, ganho com o suor do nosso exaustivo trabalho, não nos pertence de fato; nunca nos pertenceu. Eles, esses espertos humanoides a que me referi,  apenas fingem que nos pagam pela mão de obra que produz suas fortunas. Lembram daquele senador com ares de nazista que dizia odiar pobre? Ou seja: odiar aqueles que inocentemente ajudaram a consolidar sua fortuna, dando-lhe mandatos para legislar em causa própria. Pois é.

Na verdade, nos concedem tão somente uma espécie de "vale", com que nos obrigam a consumir determinado produto por um previamente estipulado espaço de tempo, sendo que seremos sempre levados a extrapolar naquilo que nos foi determinado, ficando todos nós por isso mesmo reféns desses afortunados senhores, para o resto da vida.

Nossa grana mesmo, a bufufa, nosso sangue em espécie, esse ficará com eles, bem guardado, gerando as riquezas... deles mesmos.

Esse, pois, o calvário do cidadão comum no decorrer de toda a história dos humanos, o que se acentuou de forma mais perversa nos tempos atuais, mostrando a involução da nossa sociedade.

O amigo aí que tem mais de trinta anos e que ralou horrores até obter um diploma universitário e que agora ganha uma merreca que nunca bate no fim do mês com o débito a que foi induzido, já se deu conta que bem dizer ontem você era um menino cheio de fantasias, assistindo à Xuxa, o Balão Mágico e o Faustão, mas agora é apenas um ser amargurando, envelhecendo e ainda assistindo a Xuxa e o mesmo Faustão, apenas com a diferença de que eles embora continuem fazendo a mesma tolice enriqueceram, enquanto você ficou mais pobre, tanto intelectual, quanto monetário e espiritualmente?

Que fenômeno seria esse?

Claro, não devemos culpar ou termos inveja da Xuxa ou do Faustão (apenas figuras ilustrativas no presente texto, assim como poderiam ser Pelé e Roberto Carlos) pelo fato de ganharem milhões por tão pouco que oferecem à sociedade, e dado que muita grana pode até confundir o espírito das pessoas, torná-las amargas e invulneráveis aos sentimentos mais nobres.

Em miúdos: muita grana nunca foi sinônimo de generosidade  nem garantia de que o sujeito encontrou a paz e entrará para a história ou alcançará o Reino Divino, a não ser que seja ele um ser abençoado como foi o Sr.Mindlin: rico e benfeitor da humanidade ao empregar substancial parte de sua fortuna erguendo uma das maiores e mais relevantes bibliotecas do mundo, ou como aquele bilionário americano que dividiu toda a fortuna, em partes rigorosamente proporcionais entre aqueles que o haviam ajudado na consolidação do fantástico patrimônio, tirando para si mesmo apenas o suficiente a uma vida confortável até o final de seus dias.

Coisa de gente iluminada, portanto.

No geral, um multimilionário, com toda a preocupação de manter a fortuna, de não ser roubado por um de seus pares, ou pelo temor de morrer estupidamente fulminado por um ataque cardíaco, não é mais feliz que aquele velhinho assalariado da previdência que mora lá na periferia e ainda consegue esboçar um sorriso espontâneo.

Porque a felicidade, todos nós sabemos, é uma coisa relativa, um estado de espírito; uma dádiva. Sim, retomando o fio do babado.

Você era apenas uma criança se embalando ao som dos Paralamas mas já via esses aloprados noveleiros da Globo produzindo o mesmíssimo tipo de folhetim, já assistia o Bial com aquele sorriso ilógico recitando Pessoa com a mesma veemência com que enalteceria mais tarde a figura do Sr. Roberto Marinho que ajudou a implantar a ditadura em nosso país.

Já via o Atrnaldo Jabor em todas as mídias mesmo sem ser artista ou jogador de futebol, mas apenas pela desfaçatez e capacidade de vociferar infâmias contra a esquerda. Já  presenciava o Galvão Bueno enchendo a bolinha de algum craque sob mira dos europeus, já ouvia falar do poeta meia sola Loyola Brandão, já conhecia muito bem todos os artistas da Globo, inclusive o Jô Soares e pelo menos 40% dos integrantes da Academia Brasileira de Letras e mais o Paulo Coelho parceiro de Raul Seixas e depois esotérico de projeção internacional... Enfim,

Você já tomara conhecimento de toda uma reduzida confraria de indivíduos nada extraordinários em seus afazeres, mas que passaria a pontilhar em todos os setores da nossa sociedade como legítimos representantes da raça, assim como se nada ou ninguém mais pudesse merecer fé nesse gigantesco país, que não fossem aqueles distinguidos por "eles".

Provavelmente você de trinta anos pouco ouviu falar daquele cara que fazia uns versos bacanas e depois desapareceu sem deixar rastro, da mesma forma que aquele contista genial que por um momento você imaginou que vingaria.

Não, você não tem obrigação de saber quem foi Nara Leão, mas certamente foi bem preparado para não esquecer todas as duplas sertanejas que, muito provavelmente, nem constarão nos compêndios futuros sobre a história da nossa MPB.

Em resumo: se refletir um pouco, você logo perceberá que está se transformando apenas num subproduto dessa sociedade mentecapta. Tô te avisando!

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