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Reflexões de um macaco marrento e pré-histórico

Ilustração do autor


Ou o chimpanzé formidável


Por ALima


Não questiono a forma com que o criacionista afirma ter chegado à conclusão de que somos feitos à semelhança de Deus e sujeitos, portanto, a determinados códigos que tanto poderão nos levar ao paraíso quanto ao inferno, a depender de nossas atitudes enquanto seres vagantes, perplexos e ilógicos nesta vastidão de mundo.

Tampouco me interessa que o evolucionista veja em mim não mais que um fragmento irracional pré-histórico, submisso apenas à ordem natural das coisas, ao imponderável circulo que movimenta a grande roda. 

Reivindico tão somente o meu inalienável direito de absolvição pela dúvida, a partir do instante em que nenhuma corrente se mostrou capaz de desvendar, pelo menos para mim, esse grande mistério.

A eterna busca de si mesmo já levou o indivíduo a descobertas extraordinárias, evidentemente, porém nenhuma que nos indicasse a chave da felicidade, que, em última instância, se constitui o real motivo de toda essa inquietude que envolve a raça humana desde os primórdios. 

Nem mesmo o perfeito entendimento sobre a fascinante organização de um universo que nos dispôs na órbita mais privilegiada da Via Láctea seria suficiente para aplacar o nosso ímpeto nessa inútil tentativa de penetrarmos a seara dos iluminados, ainda que percorrêssemos de modo obstinado a Filosofia, a Religião e até nos detivéssemos em amplas reflexões aleatórias em outros compêndios, já que tudo isso resultaria em não mais que uma pífia constatação de ordem emotiva e ficcional ou, quando muito, em uma Poesia de caráter meramente especulativo, como tantas que impulsionaram os épicos Pensadores da mais remota antiguidade. 

Verdade, pois, é que ninguém tem razão. Nenhum ser humano, até a presente data, pode bater no peito e dizr: "eu vi", "eu senti", "eu compreendo". No máximo poderá bradar: "eu aceito".

Os menos pragmáticos - bem verdade - até tentaram simplificar a coisa, aventando a hipótese de que seríamos originários do macaco, que, por sua vez, descenderia de outro macaco, outro réptil, outro bicho qualquer até chegar a um ser fantasmagórico e unicelular que teria vagado num mundo oceânico e dinossáurico. 

Ok, como especulação literária ou científica, sem reparos. Mas e o tal Verbo, proposto nos tratados de maior significação moral ou mesmo de simples construção poético-sentimental - como queiram, que papel teria tido nesse enredo tão extraordinariamente espetacular? 

Ah, já sei. De repente, não mais que de repente, o grande símio começa a proferir discursos de elevada sabedoria, ditar conceitos do mais elevado padrão ético-filosófico, a instituir sábias regras para que os outros macacos menos graduados ou inteligentes possam conviver pacificamente em uma sociedade. 

Tudo muito rapidamente, sem qualquer delonga ou ampliação de dúvidas. Num repentino e incontido fluxo verborrágico, o Chimpazé monumental começa a estabelecer costumes, a vislumbrar a música e várias outras formas de experiências artísticas e até os instrumentos capazes de embeleza-las. A erguer cidades e organizar, enfim, todas as nações sobre a face da terra, cada uma com suas peculiaridades, seus próprios idiomas, seus vícios, taras e... dúvidas. 

Ou não?

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