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Que se fará com o lixão literário do mundo virtual

Ilustração do autor
O mestre foi o primeiro a dar o toque

 por James Kafka


Quase toda a literatura que tem sido produzida no mundo desde o início da idade moderna até o presente momento não passa de embuste.

Quem melhor intuiu a fraude foi Fernando Pessoa, muito embora fosse ele próprio, também, meio farsante - no bom sentido, evidentemente.

Dizia, por exemplo, que nem 5% das obras publicadas chegariam à mão do destinatário e que nenhum escritor deveria escrever mais de um livro, não tivesse ele a sutileza de expressar-se de forma distinta em cada composição, valendo essa assertiva para antigos e novos.

Ia além o poeta ao decretar que toda a literatura do mundo haveria de se resumir a uma antologia, em que as nações cultas apenas abrigariam seus escribas mais representativos, num singelo registro meramente histórico.

Claro, o inquieto Pessoa não desferiu a sentença de modo assim tão indolor e despido de imagens, como tento repercutir nesse instante.

Foi incisivo, eu diria até que um tanto cruel em determinado momento, quando questionou o mister criativo de Camões, que teria carpido como suas as dores que de Petrarca, ou ainda ao estabelecer que o gênio literário independe de lastro cultural do dono, cabendo ao artista tão somente o senso de oportunismo, com que, aliás, brindaria Goethe e Shakespeare, donos de um conhecimento não de todo genuíno, mas apenas sugado daqueles que haviam colhido na fonte, a exemplo de Milton ou Dante.

Isto posto - como diria um causídico das coisas banais - que dizer de nós outros, simples escribas da era internética, contidos pela velocidade do tempo e submissos aos softwares voltados para os resultados de ordem meramente pecuniária?

Que destino se dará a essa colossal montanha de lixo desovado diariamente em milhões de sites e blogs ao redor do planeta, onde todo mundo virou escritor ou poeta, cronista ou editor de notícias?!

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