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Pichadores das Letras Banalizam o Conto



Por James Kafka


Os meio-poetas costumam referir o conto como expressão menor na atividade literária. Diferente do romance ou novela - vociferam -, em que o sujeito necessitaria de fôlego extra, e muito aquém da poesia, que elevaria o espírito em sublime comunhão com os deuses, algo acessível somente aos iluminados. Sei...

Qualquer mente mais lúcida será capaz de construir meia dúzia de estrofes e desdobrá-las em centenas de versos soltos - esse providencial adjutório que veio para socorrer os que ignoram os rudimentos da boa poética. Já o conto, quero é ver! Trata-se da composição mais ágil, moderna e difícil no ramo da literatura, superando inclusive, em termos de complexidade criativa, os melhores textos de longo curso, ainda que também possa ser extenso em ocasiões muito especiais.

O que ocorre é que estão banalizando o gênero, de tal modo, que aqui na província até os analistas de relatórios passaram a se dizer contistas apenas por conseguirem formatar uns causos e publicá-los via concursinhos pseudo-literários em que outros leigos são os julgadores.

Alheios completamente ao sentido de essencialidade em uma narrativa, seja extensa ou breve, esses pichadores das letras estabeleceram um modelo de escrita que nem é novela nem crônica e muito menos conto, mas apenas um emaranhado de inutilidades. Textos verborrágicos ou ridiculamente curtos, como se em ambos os casos não estivessem proferindo tão-somente uma asneira maior ou menor.

Geralmente iniciam seus disparates tecendo enfadonhas apreciações sobre características de residências, móveis, utensílios domésticos, localização de logradouros e até previsão de tempo, para, só depois de já terem perdido o freguês, iniciarem aquilo que pudesse ter algum valor.

Não entendem que a exposição de cenários e objetos só faz sentido em textos teatrais, roteiros de cinema e sinopses televisivas, jamais numa narrativa onde o artista deve, no máximo, sugerir eventos e coisas.

Se a casa não é personagem, para que pintá-la de verde?! E que diferença faria o clima quente ou frio de uma cidade, se só desejo mostrar uma situação de momento relacionada a um indivíduo, um lance psicológico, um fragmento de vida? Se falo de bola, trave e linha de fundo, evidente que todos perceberão que o fato está acontecendo num campo de futebol.

Por conta de tolices desse tipo é que os analistas mais lúcidos perdem logo a paciência quando solicitados a lançar parecer sobre certos livros que andam circulando por aí. Sabem que jamais conseguiriam enfiar na cabeça de um rascunho que o ato de descortinar recintos ou introduzir objetos em narrativa curta só será razoável se o escrevinhador tiver competência para criar um ambiente original e atraente, que logo se incorpore à composição, a exemplo das paisagens sombrias de Dostoiévski ou iluminadas de Tchekhov, as muralhas e repartições de Kafka, o casario antigo e os escapulários de Moreira Campos, as botinas velhas e os becos da praça Mauá de Machado de Assis, os salões distintos e as pilhas de fichas cadastrais de Balzac ou Marcel Proust, os cabarés e esgotos de James Joyce etc.

Não condeno nem defendo a exclusão ou inclusão de artefatos ou estampas a uma narrativa, pois sei que em qualquer circunstância os melhores textos independem da sua extensão ou daquilo que, nele, estiver alocado.

A verdadeira arte, como já dizia o poeta maior, também pode brotar da lama ou da lágrima. "Dom Casmurro", por exemplo, que é não mais que um discurso sobre o ciúme, tema bastante frequente nas narrativas mais torpes, Machado, se quisesse, poderia tê-lo reduzido a quinze páginas, sem prejuízo do essencial, se bem que através de sua pena afiadíssima também pudesse acrescentar mais duzentas sem que saturasse o freguês em nenhum instante nem perdesse ele o seu brilho, como fez, aliás, nas cem páginas de "O Alienista" - um conto sobre a paranoia, já escrito por Edgar Allan Poe em pouco mais de dez ("O Experimento do Dr. Pena e do Professor Abreu"). Da mesma forma, aliás, como poderia obter se fizesse o inverso com o "Noite de Almirante" (aquele conto do "amor infinito enquanto dura"), dotando-o de pérolas até que adquirisse o formato de romance. Um exercício, contudo, que só seria possível aos grandes astros da escrita, tipo Tchekhov, que escreveu pelo menos cinquenta contos que se adequariam perfeitamente a longos enredos de romances não menos atraentes. 


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