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O MENINO QUE CUSPIU NA MÃE ALHEIA

Ou A víbora que planejava ser Clarice Lispector 


Por James Kafka


Na minha primeira juventude, quando um garoto queria desafiar outro para uma luta corporal e esse tinha o porte físico mais avantajado, dizia simplesmente: "a tua parte que passa de mim é podre".

Nessas ocasiões, também nunca faltava um adulto para incentivar o desigual combate, que logo traçaria dois riscos no chão e dizia sem esconder sua índole má: "essa é tua mãe e essa outra a tua", para ver quem ultrajaria primeiro a suposição de genitora do outro, com um pisão ou cusparada, dando início ao corpo-a-corpo.

Só mais tarde, lendo vagamente alguns filósofos, foi que comecei a decifrar o alcance psicológico das duas atitudes. O porquê de um garoto raquítico poder derrubar um brutamontes só na sugestão e encher-se de uma honradez que provavelmente nem distinguia ou almejava, enquanto o adulto, alheio à sua própria insignificância, apenas se comprazia diante da desgraça de uma criança.

Thomas Hobbes, por exemplo, compreendia tão perfeitamente essa deficiência moral dos humanos, que lapidou a frase que vem varando o tempo como a melhor definição de nossa hipocrisia: "O homem é o lobo do homem".

Sabia o grande pensador que a simples  imprevisibilidade do nosso caráter, nossa suprema capacidade de trair o semelhante nos punha na vil condição de o mais feroz e covarde dentre todos os animais do planeta, sempre disposto a decretar guerra ao seu semelhante em busca de uma supremacia utópica.

Uma constatação que, porém, não impossibilitaria de que também consagrasse em nós alguma qualidade, até para não negar outras correntes de pensamento que nos debitam máculas e virtudes de acordo com o ambiente em que moldamos a nossa personalidade.

Mas, a bem da verdade, devo esclarecer que só pude constatar o real significado da assertiva do filósofo inglês, quando, já na segunda juventude, tentei habitar o mundinho torpe da literatura provinciana.

Só aí pude verdadeiramente compreender que a nossa suposta capacidade de manusear palavras, estabelecer conceitos, criar situações fictícias etc, de modo algum nos desassemelharia ou nos concederia superioridade com relação aos outros animais. Muito pelo contrário: nos fazia  infinitamente piores, vez que nos dava marra não apenas para premeditarmos nossos desatinos e  dissimulá-los em livros, como também para detonarmos de forma impiedosa  todo aquele que se aventurasse desmistificar a nossa farsa.

Algozes de nós mesmos, e acima de tudo covardes. Pulei fora, se bem não abdicasse da minha condição de escritor autônomo, com visão bem realista sobre a insignificância de certos indivíduos que se dizem mais lúcidos que outros animais. Consciente de que o fragmento biológico que os distingue dos irracionais mais peçonhentos se constitui tão-somente aquela parte podre a que se referia o menino.

Se compararmos o cérebro de um chimpanzé ao de um escritor menor, por exemplo, veremos a grande semelhança na estrutura molecular de ambos.

A única diferença é que um macaco não teria como nos causar nenhum dano físico ou moral. Qualquer atitude hostil que esboçasse contra nossa pessoa já seria previsível, podendo ser rechaçada no ato, o que não seria possível, digamos, a um jovem e talentoso escriba diante de carcomido e rancoroso símio da literatura.

Essa promissora vocação também poderia se aproximar tranquilamente de uma víbora, enfrentar uma onça, mas não teria como se furtar ao abraço traiçoeiro de uma sutil meliante que se dissesse seguidora de Clarice Lispector.

E assim agiria com relação a qualquer outro irracional, fosse ele feroz, inconveniente ou apenas lhe causasse alguma repulsa.

Saberia conter um primata libidinoso diante de uma recatada senhora, impedir que um vira-lata defecasse em cima de uma brochura de James Joyce, um escorpião lhe sorvesse o sangue ou uma barata pusesse em aflição uma senhorita.

Para cada uma dessas previsíveis atitudes dos irracionais, o jovem e talentoso literato esboçaria reações também obvias. Não poderia, contudo, se resguardar de um prosador contaminado pela inveja - esse cancro moral que tem especial predileção pelos maus escritores.

Você duvida?

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