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O Mega-negócio Futebol e a Violência nos Estádios

Ilustração de ALima


Por James Kafka


Debitam como causa única da violência nos estádios de futebol a insensatez de torcidas organizadas, que estariam agindo como verdadeiras quadrilhas, pondo em risco a vida dos amantes desse esporte e maculando nossa imagem no cenário internacional.

Só não explicam que a instituição futebol saiu da esfera do entretenimento para o mega-negócio, comandado por um organismo apátrida cujas federações a esse filiadas se transformaram em governos autônomos dentro de cada país, todos com leis próprias e suas danosas ramificações pelos departamentos privados ou não, setores da mídia e outras obscuras corporações geradoras de fortunas provavelmente não declaradas, numa simbiose dantesca em que a vítima final será sempre o incauto consumidor/torcedor.

Penalizam times/torcidas, retiram-lhes o mando de campo por um eventual distúrbio de arquibancada, cobram preço exorbitante por um ingresso de pelada, porém nada fazem contra o feudo em que coronelões bilionários pintam e bordam, de pai para filho, sob proteção de comentaristas aloprados oriundos de poderosas estações de rádio/TV e aplauso dos aliciadores de jovens e promissores atletas negociados a toque de caixa para grandes clubes da Europa, de onde retornarão mais tarde já bichados e sem qualquer condição de praticarem um futebol pelo menos razoável, mas que serão reincorporados aos melhores times nacionais por somas absurdas, como se fossem a remissão de todas as mazelas desses infames dirigentes.

E o mais grave: chutando para escanteio aqueles jogadores que realmente doam o sangue pelo time e que ficarão estigmatizados como únicos responsáveis pelo fracasso de suas equipes em todas as competições, juntamente com os treinadores não referendados pelos falsos formadores da opinião esportiva incrustados na já referida banda podre da imprensa.

Sob amparo dessa tirânica corporação multinacional os mutreteiros tupiniquins tiraram do nosso jogador, inclusive, a condição de atleta e introduziram a de pseudo pop-star, daquele ser híbrido e melancólico que abastecerá o noticiário inútil de centenas de programas esdrúxulos da TV paga ou aberta, todos a se repetirem exaustivamente em dezenas de canais, ancorados por vaidosos apresentadores que pouco entendem da matéria, cada um querendo apenas "se dar bem".

Isso, sim, é que vem causando revolta no torcedor consciente e que acaba refletindo nas praças esportivas, gerando violência, pois nem todo mundo é trouxa, como imaginam esses perversos construtores de falsos ídolos que teimam em querer induzir uma galera já aporrinhada com tanta informação falsa e que nos fins de semana deseja apenas extravasar nas arquibancadas de um estádio.

Esses gigolôs da bola, portanto, é que merecem todo o repúdio da sociedade, sem dizer com isso que os baderneiros que se matam ou que depredam o patrimônio público ou privado também não mereçam os rigores da lei. Só não pode é um bando de hipócritas bilionários ficar batendo numa tecla só, como se o grande culpado por toda essa patifaria que está matando nosso futebol fosse o cidadão que frequenta os estádios, e não eles próprios, que passaram a controlar essa inesgotável mina de ouro. E o povão que se exploda!

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