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O Extraordinário Padre Ceberlon Verdeixa




Boca Profética



Por ALima


Nos estatutos da Padaria Espiritual, o genial Antonio Sales redigiu o seguinte artigo: "A Padaria tratará de angariar documentos para um livro contendo as aventuras do célebre e extraordinário Padre Verdeixa". 

Projeto que, infelizmente, não vingaria, sem que se saiba até hoje se por falta de material ou simplesmente pela má vontade que imperava na província com relação a tudo que dissesse respeito ao notável religioso-jornalista, fundador de jornais e crítico severo aos famigerados coronelões que dominavam a política local, dono que era o perspicaz Cerbelon Verdeixa de uma oratória altamente certeira e corrosiva.

Ao contrário do que propunha o nosso padeiro da modernidade, o que prosperaria na província sobre o combativo Verdeixa seria não mais que a pilhéria, o chiste, a calúnia, um sistemático e infame processo no sentido de vulgarizar o homem e minimizar sua importante atuação em conturbado e criativo contexto de nossa formação sócio-cultural. 

Pintam Verdeixa como um medíocre, escanchado em lombo de jumentos a perambular pelos sertões aplicando golpes na gente simples das caatingas, querendo apenas saciar a própria fome, desdenhar dessas infelizes criaturas, ou fugindo da polícia, vez que constantemente processado pelas "otoridades" de plantão. 

Nunca dizem do atuante político, deputado por duas legislaturas (1848 e 1864), e do não menos ativo articulista de inúmeros e consistentes artigos publicados tanto em seus jornais como em outros do Estado. 

Tampouco falam do livro-denúncia de José Bonifácio de Andrada e Silva (O Tráfico. Representação à Assembléia Geral Constituinte e Lesgislativa do Império do Brasil), que verdeixa fez circular na província, mandando-o imprimir em gráfica local, mostrando depois ao Governador sobre a importância dessa publicação repleta de denúncias contra a escravidão e contra o desmatamento desregrado que, se ocorria em outros estados, não era diferente no Ceará. 

Fez mais, o Verdeixa: sugeriu que o governante enviasse exemplares da obra para todas as Câmaras Municipais, para conscientizar o povo sobre a conservação das matas e uma melhor postura com relação ao solo. Imaginem os senhores: num tempo tão distante, a já preocupação ecológica.

Até mesmo o austero Barão de Studart - notável historiador - não foi menos mordaz, ou irõnico, ao biografar Verdeixa (Dicionário Biográfico Cearense). 

Enquanto que para outros ilustres cearense vale-se do termo "pseudônimo" para expressar-lhes um nome artístico por ventura adotado, para Verdeixa reserva um insolente "alcunha". Refere-o como "Canoa Quebrada", embora fosse esse mesmo o infame apelido com que os hipócritas distinguiam nosso nobre conterrâneo. 

Irônico em demasia, eu diria, Studart diz sobre o Padre, logo ao início de suas anotações: "Filho de Feliciana (e põe reticências. Não fala sobre o pai). Prossegue: "Nasceu no Crato, em 3 de janeiro de 1803, e nessa cidade, como em Quixeramobim, Lavras da Mangabeira, Jardim, Icó e outras por onde passou, deixou em sua meninice e juventude provas de completo desequilíbrio mental, que a idade não modificou para melhor nem os desenganos e desgostos a que deu origem sua vida de desregramentos de lutas contra todos e contra tudo..." 

Em seguida o Barão historiador fala sobre a ordenação de Verdeixa, em Pernambuco; do seu retorno ao Ceará e do desempenho à frente de alguns jornais, dentre esses: Juiz do Povo, um jornal de propaganda nativista; O Sete de Setembro, O Coelho, e A Liberdade. 

Mais adiante, Studart dirá que um "hábil" escrivão do Icó teria descoberto em antigos documentos a "origem" de Cerbelon Verdeixa: era filho de uma senhora por nome Feliciana, que se casara com um professor de Latim, quando já mãe do garoto cujo pai era ignorado. 

Como se percebe, todo esse preâmbulo do Barão de Studart seria apenas para acentuar em Verdeixa essa suposta condição de "filho bastardo", conforme já propagavam as bocas-podres por toda a cidade, se bem que, um pouco adiante desse traçado biográfico, o historiador ressalte o brilhantismo de Verdeixa como editor de jornais. O famoso articulista de panfletos altamente sarcásticos, e diga também de suas "brigas" com o renomado Padre José Martiniano de Alencar (Senador Alencar), então Presidente da província e homem poderoso, pai do escritor José de Alencar. 

Do que pude deduzir dos poucos textos que recolhi sobre essa marcante figura da nossa história, o Padre Verdeixa era simplesmente um cidadão muito à frente do seu tempo. 

Culto, espirituoso e livre pensador, fez balançar as frágeis estruturas em que se apoiava a casta dominante em nosso Estado. Os donatários das melhores Sesmarias, a falsa e hipócrita intelectualidade e, sobretudo, os eternos profissionais da política de conchavos.

Voltarei ao assunto.

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