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Machado de Assis e Moreira Campos: o vínculo perpétuo da genialidade




Machado e Moreira, quando a leitura é muio mais que um simples prazer


Por ALima


Não há exagero em afirmar que o contista Moreira Campos está no mesmo nível do contista Machado de Assis em sua fase mais criativa. Eu disse CONTISTA, ok?

A dessemelhança - se houver - ficaria apenas na forma de construção literária, mesmo porque são duas épocas e concepções distintas no modo de desenvolverem uma boa narrativa. 

Em Machado, a picardia Sterneana da composição livre, digressiva e fragmentária que pontua sua obra a partir do "Papeis Avulsos" (que, aliás, coincide com o nascimento de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", verdadeiro marco no romance de língua portuguesa); em Moreira, o descompromisso com o mirabolante, a simplicidade que instiga, se bem lhe seja constante uma preocupação de tornar menos ásperos os questionamentos de natureza moral, digamos assim, o que não se percebe com relação ao pai de "Dom Casmurro", muito mais seguro de si e pouco preocupado com o sectarismo da crítica encabrestada. 

A proximidade dos dois estaria na correção de estilo e na extrema habilidade em manusearem os temas corriqueiros e banais, sem que despenquem nunca para o lugar comum ou se dispersem do essencial. 

Do mestre Moreira, por exemplo, impossível não se deliciar com a história do casal de anões, em que um negro parrudo e escroto invade-lhe a casa para roubar seus parcos pertences: as pecinhas íntimas da minúscula mulher penduradas no varal, o anão querendo criar marra para cima do larápio, e esse, de pura cretinice, fazendo gestos obscenos para a anã, perguntando-lhe se o aguentaria. Depois, a moral do nanico peitando a autoridade policial, exigindo providências para aquilo que considerava grande desonra familiar. Pensem! 

Da mesma forma que impossível manter-se indiferente diante do marujo de Machado, corneado pela suburbana ordinária porém sincera ao formular a sentença definitiva: "sim, eu não menti quando disse que te amava"... Posto que o amor só é infinito na suposição do poeta. Enquanto dura, ora bolas!

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