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Guerra cruel contra o cidadão comum e não contra outros exércitos

Por James Kafka



Dizer que o militarismo, de certo modo, se constitui grande ameaça à paz no planeta, podendo levar ao extermínio de toda a humanidade, a uns parecerá afirmação obvia; a outros, simplista demais.

Para muitos, contudo, soará como despautério, algo inclusive digno de censura ou severa repreensão.

Seriam, de um lado, o pensamento do indivíduo comum inserido em uma sociedade milenarmente injusta, em que atua como mero instrumento de sustentação do Estado falido, e na outra ponta o discurso irado das elites dominantes -- alicerce desse mesmo Estado já fraudulento na origem e onde apenas aperfeiçoa seus métodos de dominação através de leis esdrúxulas, armamentos sofisticados e a complacência de mandatários a quem delegam poderes.

Se, nos primórdios, a guerra era necessária e por vezes compreensível até pelo ímpeto belicoso do animal homem a demarcar territórios, com o passar do tempo o Estado arbitrário incorporou a essa um caráter apenas ideológico, em que o militarismo passaria a ser o real poder, ilegalmente constituído, corporativista, atuando em defesa de causa indeterminada, onde o combate, não raro, passaria a ser tão-somente contra o cidadão comum e desarmado, em seu próprio território.

Uma força, portanto, desleal, porém legitimada pela casta dominante de qualquer país, dado que preservando dessa mesma casta todos os privilégios já conquistados na mão grande através dos tempos.

A escalada armamentista não mais como estratégia de defesa de uma nação e sim para equipar o organismo apátrida controlador geral de muitos exércitos espalhados pelo planeta.

O derramamento de sangue  patrocinado por forças invisíveis, com interesses geralmente destoantes aos das sociedades visadas, sob justificativa de exterminar a grande ameaça, que tanto poderia ser o comunismo como o capitalismo, dependendo do ângulo de visão de cada um, propiciando dessa forma a instalação de sanguinárias ditaduras por todo o depauperado terceiro mundo, sobretudo no continente sul-americano, esse portentoso manancial de reservas naturais, cobaias e mão de obra barata.

Evidente que eu não seria tão ingênuo a ponto de defender a desmilitarização do mundo como única forma de se encontrar a paz, tampouco prego a desnecessidade dos exércitos como forças de proteção aos países, se bem que Marx visualizasse a longo prazo uma sociedade voltada apenas para as artes.

Questiono tão-somente a exata definição do papel das forças armadas nas sociedades modernas e o porquê da Constituição, lei máxima de qualquer país, poder ser superada por um simples regulamento militar, sem que nenhuma autoridade jurídica civil possa ser voz contrária na defesa de um ex-militar (no caso, eu) que, embora cassado pela ditadura, teve seu pedido de anistia negado pela Comissão criada pelo governo, levando em conta apenas esse mesmo Regulamento Disciplinar Militar, em detrimento da lei máxima do país.


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