Pular para o conteúdo principal

A Desnecessidade do Saber

Por James Kafka



Estamos no tempo em que a máquina evolui e o o cérebro humano atrofia.

À primeira vista poderá até parecer um contra-senso que eu esteja aqui a verberar sobre avanço tecnológico, concomitante ao retrocesso da nossa mente, quando a evolução científica só se efetiva pela obstinação dos sábios, o desenvolvimento do  raciocínio e a persistência de visionários. Pelo menos, teoricamente, deveria ser assim.

Com o passar do tempo, tudo levaria ao aperfeiçoamento natural do indivíduo e um melhor modelo de convivência em sociedade: novos caminhos, modernas técnicas de trabalho, eficácia dos utensílios, aprimoramento dos maquinários, dos meios de comunicação, mais zelo na produção artística, excelência no ensino, e pela abertura, enfim, dos canais da cultura ao povão, com reflexo positivo na forma de governarmos e sermos governados. Não é o que ocorre, infelizmente.

Para certos indivíduos, a exemplo do cara da esquina que nesse exato instante curte no último volume um som totalmente incompreensível, numa quarta-feira de pacata rua e que me faz digitar às pressas o presente texto, viver bem seria apenas desrespeitar o direito alheio e ter livre acesso aos bens efêmeros que a industrialização globalizada e imbecilizante lhes propicia em forma de eletrônicos descartáveis, pseudo arte pasteurizada via TV, esdrúxulas vestimentas e tatuagens, música de no máximo três acordes, filmes de ações computadorizadas, literatura esotérica e cachaça.

Evidente que não estou aqui apenas para criticar a mediocridade de indivíduos que foram induzidos pela TV a determinado comportamento, sobretudo aqueles já naturalmente desnorteados por  uma série de outros fatores que não me cabe discutir aqui.

Compreendo, lógico, que muitas dessas pessoas jamais dispuseram de parâmetros com que pudessem aferir livremente a qualidade das coisas, o sentido das artes, da música, da literatura, da ética, da própria vida. Cresceram ouvindo trilhas sonoras de folhetins infames e assistindo big broher; entraram numa faculdade ordinária copiando textos da Wikipedia e imaginaram que somente o dinheiro lhes redimiria a estupidez. O problema é bem mais amplo e se alastra em todas as direções.

Hoje o cara se forma de qualquer maneira, sem que leia uma obra sequer que fuja do precário currículo que lhe foi apresentado no curso fajuto. No máximo fará um intensivo para passar num concurso público e estamos conversados.

Um advogado, hoje, por exemplo, que for reprovado no exame de ordem, poderá muito bem vir a ser um magistrado amanhã e decidir nossa sorte sobre algo da maior gravidade até para o país. Poderá estar na pele de um Procurador ou algo ainda superior, dependendo apenas da maré. Um cara que foi reprovado no vestibular de Medicina poderá simplesmente se matricular numa faculdade de outro país  menos exigente nos métodos de seleção e depois solicitar transferência para a melhor faculdade do seu lugar de origem. E aí? Será que esse indivíduo vai ser mesmo um bom médico ou tão-somente colocar em risco a vida do povo?

Isso sem dizer dos medíocrões que assentam os fundilhos nos altos cargos da administração pública por conta de vigaristas que compraram mandato parlamentar para legislarem em causa própria.

A coisa é séria, meu amigo!

Postagens mais visitadas deste blog

BUKOWSKI NUTRIA-SE DE POEMAS SUJOS E PROSTITUTAS DEPRAVADAS

Conto de Astolfo Lima

Aos treze anos, Bukowski disse, numa roda de garotos, que só haveria de se sentir plenamente realizado no dia em que acertasse uma bordoada de jeito na fuça do seu encardido genitor, um casca-grossa que costumava espichar-lhe o couro para escoar frustrações que lhe permeavam a vida chinfrim. "Let it be!"
Vociferou esse seu intento enquanto os colegas, um a um, perfilavam anseios mais brandos: um querendo se tornar aviador quando crescesse; outro, maquinista de trem; outro mais, artista de cinema, cantor de blues ou boxeur, e assim sucessivamente, como ocorre naquela fase inconsequente e pueril de todo adolescente. 
"Assim farei, ainda que necessite dar o fato como lastimável acidente doméstico, em que, postando-me ao corredor da casa, armado com fornido taco de beisebol, simularei rebatidas de bola como se desejasse não mais que aperfeiçoar jogadas para marcar presença no colégio, onde todos me discriminam por conta de minha pouca habilidade nesse …

T S ELIOT E AS EMANAÇÕES DELITUOSAS DE CHARLES BAUDELAIRE

Por Astolfo Lima


O casamento de T. S. Eliot e Vívien estava rachado desde 1922, porém os dois ainda se digeriam sob a mesma plataforma até o início da década de trinta. 
Ela, com fortes sinais de instabilidade mental, que se acentuara muito ao vir a público sua infidelidade ao marido, com Bertrand Russell. Eliot, insensível às coisas supostamente vãs, e uma crueldade que por vezes atingia pessoas mais próximas, como a desfeita a Ezra Pound, logo após o amigo adverti-lo de que "mutilar" as 92 linhas de "Death by Water", transformando-as em mísera estrofe, não fora ideia das melhores. 
Indignado com a intromissão do ex-amigo, Eliot simplesmente vociferou que o discurso de Pound apenas o incentivara a fazer as coisas do seu próprio jeito. 
O poeta Eliot, a esse tempo, como todo astro de maior envergadura, transitava entre seus pesadelos mais íntimos e a quase obsessão de agrupar em uma mesma arquitetura os emanações delituosas de Baudelaire, os slides etéreo-emblemáti…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: O PLAYBOY DA ALDEOTA

Por Astolfo Lima


Zé Bacurau andava mais afável ultimamente, algo raro num casca-grossa raivoso que tentava impor moral denunciando no Distrito Policial qualquer besteira que ocorresse no bairro. É que sua filha Zilá estava de namoro firme com o Valdecir, um ricaço da Aldeota, amigo de vários figurões da alta sociedade fortalezense, inclusive do prefeito. 
Mal apareceu em nossa rua, sob pretexto de procurar terreno para compra, o tal sujeito foi logo se enturmando com os frequentadores da bodega do Juarez, onde passou a comparecer nos fins de semana, oferecendo birita aos papudinhos, distribuindo balas pros meninos, e, claro, ganhando aos poucos todas as fanzocas de Wanderley Cardoso que havia nas imediações, inclusive a filha única do referido Bacurau, para desespero dos marmanjos mais velhos que babavam pela gostosona.
Zilá era, de fato, uma princesa: morena de olhos verdes, longos cabelos, corpo de sereia como se dizia naquele tempo, e também namoradinha secreta de nós outros, broch…