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Brasileiro, Profissão: Zé Mané

Por James Kafka


No começo éramos apenas aquela terra sem dono, imensa e desabitada, quando os invasores começaram a sangrar nosso ouro e enviar para cá os degredados europeus, num prenúncio assustador do que viria no rescaldo.

E abraçaríamos esse estigma, embora não fôssemos, germinando entre canalhas e ladrões, matando índios e escravizando negros, emprenhando mocinhas indefesas, formatando um arremedo de país em que celerados senhores de engenho passariam a controlar tudo, de pai para filho, até transformar nesse gigantesco reservatório de riquezas naturais para que os outros aventureiros que já haviam aprimorado seus armamentos tomassem conta de tudo, com gosto de gás.

Incapacitados por essa deficiência moral secular a nós imputada, também conhecida como espírito vira-lata, jamais conseguimos erguer um poderoso contingente de homens públicos que pudesse defender com armas e teses a nossa soberania, nosso solo e toda essa gente mentecapta, tampouco tivemos capacidade para desenvolver no indivíduo um sentido de nação, civilidade, fé e orgulho com relação à terra em que nasceu - como diria mais tarde um ufanista de plantão. Muito pelo contrário.

Travamos intelectualmente no mais precário da cultura européia e depois começamos a nos alimentar do lixo cultural norte-americano, até nos atolarmos de vez numa "dívida" descomunal, fictícia, que se arrastaria pelos séculos sem fim.

Jamais tivemos autonomia para traçar nossas próprias diretrizes enquanto nação civilizada. Até as guerras que por aqui se desenvolveram nunca foram no sentido de resguardar nossos interesses, e sim para exterminar seu próprio povo, seguindo sempre a orientação de patifes apátridas. Mesmo quando nos aventuramos ao combate além-fronteira, também não o fizemos para reafirmar a inegável valentia de nossos combatentes em defesa da própria pátria, mas tão somente para respaldar a hipocrisia alheia ou corrigir erros que não eram nossos. Êh, praga! 

E haveríamos de atingir a era moderna como um dos maiores territórios em toda face da terra, dos mais ricos em reservas naturais, embora na contra-partida, também o mais atrasado e injusto em direitos humanos, culturais, econômicos, na divisão de riquezas para seu povo embrutecido e violentado por absurdas lutas internas, golpes de Estado, massacres e, agora, pela chantagem midiática patrocinada por aqueles mesmos senhores que esfolavam índios e negros e que depois receberiam aval para também  massacrar estudantes, negros, pobres, gays, sindicalistas, prostitutas, artistas, religiosos, camponeses, simples donas de casa ou qualquer outro infeliz que se aventurasse levantar a voz contra os senhores do poder usurpado.

A força avassaladora do arbítrio, da mordaça e do conluio no Congresso, Judiciário e mídia, dos grupos de extermínio que invadiam Universidades, teatros, redações de jornais da resistência e igrejas, com a mesma facilidade com que penetravam os lares nacionais na calada da noite em busca de qualquer vestígio que pudesse comprometer o dono da casa.

Uma guerra estúpida, ilógica, desigual,  travada entre brasileiros, apenas por subserviência a mandatários de outras nações. Uma ignomínia a que muitos seriam levados apenas pelo ideal libertário e que outros a abarcariam pelo simples prazer de matar, torturar e locupletar-se na verba farta dos que patrocinavam a carnificina.

Morreríamos definitivamente ali como projeto de um grande país ou ainda haveria salvação?

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