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A Saga de um Povo Hospitaleiro e Bom

Ceará no foco do mundo


por ALimaS


"O sertanejo é, antes de tudo, um forte". Ao esculpir essa preciosa frase, Euclides da Cunha sintetizava a bravura do nordestino, habitante de uma terra inóspita; povo valente, bom e que ama como ninguém o seu torrão natal, mas que, muita vez, se obriga a correr mundo tentando escapar da seca implacável.

Dessa região, é o cearense, talvez, o que melhor representa esse destemor, dado que a todas essas virtudes acrescenta o seu espírito nômade, como tão bem já retrataram nossos ilustres escribas: Antonio Sales, em Aves de Arribação; Jáder de Carvalho, em Terra Bárbara; Herman Lima, em Tigipió e, sobretudo, Gerardo Melo Mourão em suas belas Odisséias sobre a saga de sua (e minha também) desbravadora família, a esquadrinhar cada centímetro do chão estéril dos Inhamuns, demarcando posições, impondo-se pelo bacamarte se necessário fosse, até que se erguesse o país dos Mourões - essa vértebra sacra do sertão nordestino.

Não somos melhores nem piores que os demais brasileiros que habitam outros estados da federação lá pras bandas do sul, ou nossos vizinhos, evidentemente, mas possuímos aquela força inquebrantável a que já se referiram os estudiosos mais atentos, aliando criatividade ao destemor, o que nos faz muito presentes nos mais auspiciosos fatos que delinearam a Geografia Humana e Cultural desta terra brasilis e que hoje ilustram os compêndios mais honestos.

É nosso, por exemplo, o pai do romance brasileiro --José de Alencar --, que, sem alarde ou pretenso vezo inovador, lapidou a virgem dos lábios de mel, nos inserindo em um contexto literário genuinamente nacional que abriria caminho para outros prosadores no porte de Domingos Olímpio, Adolfo Caminha e Oliveira Paiva. 

Da mesma forma nosso é o vate genial José Albano, camoniano que empolgou as academias com seus versos perfeitos; e também Juvenal Galeno, Álvaro Martins e todos os demais poetas da Padaria Espiritual que anteciparia em três décadas o movimento modernista em nosso país.

Ceará de Capistrano de Abreu, historiador maior do Brasil e base fundamental para futuros pesquisadores. Terra de Clovis Beviláqua, jurista notável que organizou os Códigos da Lei Brasileira, e também do nobre constitucionalista ainda presente Paulo Bonavides. 

Pátria do visionário Cícero Romão Batista, fundador de cidades e santo que redimia o pecado alheio. 

Ceará do reverendo Ibiapina que largou a toga e foi ser peregrino no sertão, a construir templos de salvação. Terra de Antonio Conselheiro - consolador dos aflitos, a semear esperanças pelos chapadões à fora. 

Ceará berço de Chico da Matilde, o jangadeiro abolicionista que virou Dragão do Mar por recusar-se a transportar escravos aos navios negreiros que os venderia no Sul do País. 

Terra notabilizada pelo espírito libertário de seu povo, sendo aqui a primeira província a abolir a escravidão. Berço de Jovita Feitosa e Bárbara de Alencar, dois extremos de uma mesma sociedade, porém rigorosamente iguais na bravura e força de caráter, porque no meu Ceará não tem essa de o herói ser apenas aquele que habita as castas mais privilegiadas ou que enverga o pomposo uniforme militar, como fizeram e também nos encheram de orgulho os valorosos generais Tibúrcio e Sampaio ou o civil Rodolfo Teófilo, que percorreu o Estado todo no lombo de um burro, para vacinar os irmãos desventurados que a peste dizimava.

Ah, Brasil! Nem mil blogs semelhantes a este seriam suficientes para expor a grandeza do meu povo. Sua Arte, seu folclore, sua música. De Alberto Nepomuceno a Eleazar de Carvalho, Lauro Maia a Humberto Teixeira, passando pelo Pessoal do Ceará (Fagner, Belchior, Ednardo e Fausto Nilo), com os quais legamos ao mundo algumas das mais belas páginas do cancioneiro deste pais, seja no campo erudito ou popular. 

Assim como à pintura legamos Antonio Bandeira, Raimundo Cela e Adelmir Martins, sem dizer que foi aqui que também se construiu a melhor TV ao vivo do Brasil quando ainda não havia videoteipe.

Ser cearense, portanto, é, antes de tudo, um estado de espírito - como já referiu alguém com relação ao carioca. Eu diria mais: é uma obstinação, um orgulho bom, uma vaidade amena. 

Se por ventura ou desventura um maluco qualquer resolvesse fragmentar o Brasil em várias repúblicas, evidente que não ficaríamos em desvantagem com relação às demais. 

Erra grosseiramente, portanto, quem ainda supõe que somos não mais que um apêndice a sobreviver das migalhas do decantado sul-maravilha, ou simplesmente das benesses governamentais. 

Temos, sim, inúmeras dificuldades como qualquer outro povo, mas também o inquebrantável orgulho de habitar uma terra abençoada por Deus e hoje bastante cobiçada pelos senhores e senhoras que povoam o moribundo centro nervoso das grandes metrópoles internacionais e que para cá debandam em busca de nossos verdes mares bravios e de nossas serras onde as flores cheiram mais. 

Sem mencionar que abrigamos o povo mais hospitaleiro de toda essa vasta região. Quer mais?

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