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A maior nação católica do mundo é também a que mais tem perdido seguidores

Por James kafka

Por que não há santo brasileiro? Estariam os cardeais da cúria romana alheios à realidade do mundo? Papa Francisco, o primeiro santo da modernidade?

Ilustração de James



Ao longo de toda nossa tradição cristã, como uma das maiores nações católicas do mundo, jamais conseguimos elevar aos altares um santo genuinamente brasileiro, que nos pudesse representar perante o Criador.

Claro, não sou estudioso do assunto nem católico praticante, tampouco me interessa que um santo seja brasileiro ou norte-americano.

Apenas reflito sobre as incoerências ou hipocrisias da cúpula eclesiástica, neste momento de extrema gravidade que abarca todos os povos do mundo, diante desse sombrio horizonte que se descortina, ameaçador, onde vem prevalecendo a inversão de valores, a disseminação do ódio e das drogas, a destruição da família, a ditadura midiática, mas, por outro lado, também bastante significativo para a chamada igreja de Cristo, quando o Papa Bento XVI acaba de protagonizar um feito de extrema importância e coragem, ao renunciar ao trono de São Pedro - algo cuja magnitude só poderá ser totalmente dimensionada daqui há alguns anos, quem sabe elevando ele próprio e seu sucessor Francisco à condição de primeiros santos da modernidade.

Dos muitos santos que conheço através de relatos ou biografias, não ousaria lançar dúvida quanto a retidão de caráter de nenhum, e, portanto, do merecimento em comporem essa abençoada galeria do catolicismo legitimada pelo Vaticano.

Em momento algum questionaria seus feitos extraordinários ou duvidaria de que o fato de serem santos não tivesse se motivado pelo desejo que cada um nutria de servir ao próximo, e a Deus, sobretudo.

Muito pelo contrário. Eu seria até capaz de entrar em acirrada discussão com qualquer um que se aventurasse em questionar a santidade, por exemplo, de São Francisco ou Santo Antonio, ou que se pusesse a tecer leviandades sobre a pureza de Maria ou que fizesse pilhérias sobre as sublimes e bem-aventuradas manifestações de Nossa Senhora.

Não me calaria nem diante de um afamado doutor, filósofo, teólogo, espiritualista, de nenhum senhor, afinal, que viesse a difamar qualquer uma dessas almas iluminadas que abraçaram as causas mais justas da humanidade, assim como rebateria no ato quem ousasse ultrajar o pensamento vivo de Santo Agostinho, Santa Teresa ou de qualquer outro ser iluminado do Cristianismo.

Creio, portanto, na pureza dessas almas que habitaram entre os ímpios, e a elas me curvo humildemente, ainda que imbuído de pouca fé. Ao menos pelo respeito de um reles pecador para com aqueles que habitaram um mundo de tanta sordidez e não cultivaram o egoísmo nem a soberba. Que souberam, acima de tudo, entender a fraqueza humana.

Só lamento não poder prestar esse mesmo culto a um santo brasileiro, que tivesse habitado entre nós e cuja retidão de caráter jamais pudesse ser contestada.

A bem dizer, não se trata propriamente de um lamento, mas apenas da não compreensão do fato.

Ora, como teria sido possível - pergunto-me -, ao longo de toda essa nossa epopeia de sofrimentos infinitos, dores e lágrimas, desse quase calvário perpétuo originado nas desigualdades sociais de que temos sido vítimas desde que Cabral aportou por aqui com sua frota, não tenhamos conseguido erguer um único mártir aos altares da Santa Sé?!

Mesmo depois da sórdida exploração colonial, do escravismo, de assassinatos covardes, da fome que castigou e ainda castiga os sertões, e de tantos outros flagelos que dilaceram o nosso povo, ainda assim não tenhamos conseguido forjar num único cidadão brasileiro o o venerável título de santo, fosse ao menos pela fé inquebrantável ou por algum gesto de misericórdia?!

Nada! Nenhum! Perante a Santa e Madre Igreja, nenhum de nossos sofridos irmãos  fez por merecer a glória de figurar nessa formidável hierarquia de bem-aventurados que semearam e ainda semeiam o mundo com suas virtudes.

Na visão dos mandatários eclesiásticos nossos heroicos guerreiros da paz seriam apenas farsantes. Nossos mártires não teriam sofrido o bastante para que o gesto pudesse ser reconhecido como abstinência ao pecado. Aceitação do sofrimento como desígnio de Deus. Exemplo de fé e misericórdia para com os miseráveis.

Diante desses absurdos, resta-me apenas perguntar se teria valido a pena o gesto grandioso daquele rústico caboclo do mar, que, enfrentando os poderosos, determinou que não mais se desembarcariam escravos em terras alencarinas.

Ou daquela frágil irmã de caridade a lamber a ferida dos atirados à sarjeta. Ou ainda daquele erudito pregador sacro que abdicou dos salões distintos onde atuava com jurista para se embrenhar pelos sertões a erguer templos da fé.

Ou daquele outro visionário que carregava pesada cruz para redimir não apenas os próprios pecados, mas sobretudo para rogar misericórdia aos não menos desafortunados que o acompanhavam.

Ou ainda do venerando padre Cícero Romão Batista, o santo vivo que, simplesmente, ergueu uma cidade e que, mesmo após sua morte, ainda conserva o dom de conduzir  formidáveis legiões de romeiros, dando-lhes esperança, transmitindo-lhes fé, guiando-os para o caminho da paz.

Isso sem referir, evidentemente, as centenas ou talvez milhares de criaturas anônimas que só fizeram o bem durante a vida, difundindo a palavra de Deus, doando-se pelo irmão. Todos brasileiros. Oriundos da maior nação católica do mundo. Nenhum santo?

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