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A Força Inquebrantável que Moverá Multidões. Ou não...




Por James Kafka

Cidadão padeceu a vida inteira a gerar riquezas para o Estado. Um dia adoeceu, buscou socorro hospitalar, não foi atendido, morreu na calçada, sem que ninguém fosse responsabilizado. 

Outro, entrou em paranoia pelo fato de já ter sido assaltado em trinta oportunidades, até ser ferrado de vez, deixando a família na mais absoluta miséria; ninguém sabe, ninguém viu. 

Outro mais, por diversas circunstâncias que renderiam extenso tratado sociológico, não conseguiu dar encaminhamento satisfatório a meia dúzia de rebentos seus e acabou perdendo-os, todos, para o crime, sendo que as autoridades, agora, deliberam sua reclusão a um presídio, para aprender como cuidar da família. 

O senhor de olhar grave, intelectual pobre, relembra seu passado de lutas contra a tirania, as muitas prisões por motivação política porém todas disfarçadas como meras punições disciplinares do indesejável praça da Armada Nacional, enquanto amarga indeferimento do seu pedido de anistia depois de o processo mofar por onze anos numa Comissão que, supostamente, repararia os crimes da ditadura. 

Ainda um senhor rústico, usufrutuário de terreno que lhe servia como roça provedora das necessidades familiares mais urgentes, teve o pedaço de terra invadido por bilionários especuladores que ali ergueram luxuoso condomínio, sem que o processo contestatório se desloque um milímetro sequer nas empoeiradas prateleiras do judiciário, levando o referido cidadão e sua respectiva família a se acomodarem sob viaduto da periferia, de onde aguardam pacientemente o pronunciamento da justiça, que imaginam vir um dia, nem que seja por determinação do Altíssimo. 

Tem também o caso do operário negro que foi eliminado por um bólido a 150 km/h, dirigido por jovem magnata que, se quisesse, ainda poderia enquadrar a viúva do miserável por danos morais, vez que o defunto estaria ébrio e se locomovia de bicicleta, atrapalhando o tráfego. 

Ou aquele da menininha repleta de sonhos que ralava duro para custear o curso de Letras e foi deflorada pelo patrão cheio da grana que agora se diz vítima de assédio moral, tese que provavelmente será acatada sem maiores subterfúgios nas altas cortes do país. 

Diante desses brutais eventos que mais se assemelham a lances de sórdidos folhetins televisivos e que, no entanto, são apenas fragmentos de uma realidade mil vezes mais atroz, o que pensar da pregação de que a lei faculta isso e aquilo ao magistrado no ato de libertar um criminoso altamente nocivo à sociedade? Um grande corrupto? Um chefe de tráfico? Um canalha endinheirado?

Quem explicaria tão gravíssima decisão que frustra não apenas colegas de instâncias subordinadas e corretos policiais responsáveis pela captura de bandidos, como tmbém toda uma sociedade já massacrada pela ineficiência do Estado até nas questões catalogadas como cláusulas pétreas da Constituição Federal?

Alguma coisa está flagrantemente em desconformidade com o bom senso e precisa ser corrigida com urgência, sob pena de retroagirmos ao estado primitivo, quando a justiça se fazia através das próprias mãos do ofendido. 

A não ser que os mandatários assumam de público a hipocrisia e estabeleçam por decreto que neste país os grandes patifes terão sempre tratamento diferenciado nas esferas judiciárias. 

Façam isso, senhores donos do poder! Rápido! Porque, só assim, nós outros, cidadãos de bem à beira do ataque de nervos, saberemos como reagir, seja por intermédio de instituições que, por ventura, não se tenham deixado corromper, ou por conta mesmo daquela força terrível e incontrolável que poderá explodir dentro de cada indivíduo a qualquer momento - conforme nos advertia Roberto Arlt. 

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