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Mostrando postagens de Julho, 2016

Brasileiro, Profissão: Zé Mané

Por James Kafka

No começo éramos apenas aquela terra sem dono, imensa e desabitada, quando os invasores começaram a sangrar nosso ouro e enviar para cá os degredados europeus, num prenúncio assustador do que viria no rescaldo.

E abraçaríamos esse estigma, embora não fôssemos, germinando entre canalhas e ladrões, matando índios e escravizando negros, emprenhando mocinhas indefesas, formatando um arremedo de país em que celerados senhores de engenho passariam a controlar tudo, de pai para filho, até transformar nesse gigantesco reservatório de riquezas naturais para que os outros aventureiros que já haviam aprimorado seus armamentos tomassem conta de tudo, com gosto de gás.

Incapacitados por essa deficiência moral secular a nós imputada, também conhecida como espírito vira-lata, jamais conseguimos erguer um poderoso contingente de homens públicos que pudesse defender com armas e teses a nossa soberania, nosso solo e toda essa gente mentecapta, tampouco tivemos capacidade para desenvolve…

A Desnecessidade do Saber

Por James Kafka


Estamos no tempo em que a máquina evolui e o o cérebro humano atrofia.

À primeira vista poderá até parecer um contra-senso que eu esteja aqui a verberar sobre avanço tecnológico, concomitante ao retrocesso da nossa mente, quando a evolução científica só se efetiva pela obstinação dos sábios, o desenvolvimento do  raciocínio e a persistência de visionários. Pelo menos, teoricamente, deveria ser assim.

Com o passar do tempo, tudo levaria ao aperfeiçoamento natural do indivíduo e um melhor modelo de convivência em sociedade: novos caminhos, modernas técnicas de trabalho, eficácia dos utensílios, aprimoramento dos maquinários, dos meios de comunicação, mais zelo na produção artística, excelência no ensino, e pela abertura, enfim, dos canais da cultura ao povão, com reflexo positivo na forma de governarmos e sermos governados. Não é o que ocorre, infelizmente.

Para certos indivíduos, a exemplo do cara da esquina que nesse exato instante curte no último volume um som…

Que se fará com o lixão literário do mundo virtual

O mestre foi o primeiro a dar o toque

 por James Kafka


Quase toda a literatura que tem sido produzida no mundo desde o início da idade moderna até o presente momento não passa de embuste.

Quem melhor intuiu a fraude foi Fernando Pessoa, muito embora fosse ele próprio, também, meio farsante - no bom sentido, evidentemente.

Dizia, por exemplo, que nem 5% das obras publicadas chegariam à mão do destinatário e que nenhum escritor deveria escrever mais de um livro, não tivesse ele a sutileza de expressar-se de forma distinta em cada composição, valendo essa assertiva para antigos e novos.

Ia além o poeta ao decretar que toda a literatura do mundo haveria de se resumir a uma antologia, em que as nações cultas apenas abrigariam seus escribas mais representativos, num singelo registro meramente histórico.

Claro, o inquieto Pessoa não desferiu a sentença de modo assim tão indolor e despido de imagens, como tento repercutir nesse instante.

Foi incisivo, eu diria até que um tanto cruel em determi…

A maior nação católica do mundo é também a que mais tem perdido seguidores

Por James kafka

Por que não há santo brasileiro? Estariam os cardeais da cúria romana alheios à realidade do mundo? Papa Francisco, o primeiro santo da modernidade?



Ao longo de toda nossa tradição cristã, como uma das maiores nações católicas do mundo, jamais conseguimos elevar aos altares um santo genuinamente brasileiro, que nos pudesse representar perante o Criador.

Claro, não sou estudioso do assunto nem católico praticante, tampouco me interessa que um santo seja brasileiro ou norte-americano.

Apenas reflito sobre as incoerências ou hipocrisias da cúpula eclesiástica, neste momento de extrema gravidade que abarca todos os povos do mundo, diante desse sombrio horizonte que se descortina, ameaçador, onde vem prevalecendo a inversão de valores, a disseminação do ódio e das drogas, a destruição da família, a ditadura midiática, mas, por outro lado, também bastante significativo para a chamada igreja de Cristo, quando o Papa Bento XVI acaba de protagonizar um feito de extrema importânc…

A Força Inquebrantável que Moverá Multidões. Ou não...

Por James Kafka
Cidadão padeceu a vida inteira a gerar riquezas para o Estado. Um dia adoeceu, buscou socorro hospitalar, não foi atendido, morreu na calçada, sem que ninguém fosse responsabilizado. 
Outro, entrou em paranoia pelo fato de já ter sido assaltado em trinta oportunidades, até ser ferrado de vez, deixando a família na mais absoluta miséria; ninguém sabe, ninguém viu. 
Outro mais, por diversas circunstâncias que renderiam extenso tratado sociológico, não conseguiu dar encaminhamento satisfatório a meia dúzia de rebentos seus e acabou perdendo-os, todos, para o crime, sendo que as autoridades, agora, deliberam sua reclusão a um presídio, para aprender como cuidar da família. 
O senhor de olhar grave, intelectual pobre, relembra seu passado de lutas contra a tirania, as muitas prisões por motivação política porém todas disfarçadas como meras punições disciplinares do indesejável praça da Armada Nacional, enquanto amarga indeferimento do seu pedido de anistia depois de o proc…

Pichadores das Letras Banalizam o Conto

Por James Kafka


Os meio-poetas costumam referir o conto como expressão menor na atividade literária. Diferente do romance ou novela - vociferam -, em que o sujeito necessitaria de fôlego extra, e muito aquém da poesia, que elevaria o espírito em sublime comunhão com os deuses, algo acessível somente aos iluminados. Sei...

Qualquer mente mais lúcida será capaz de construir meia dúzia de estrofes e desdobrá-las em centenas de versos soltos - esse providencial adjutório que veio para socorrer os que ignoram os rudimentos da boa poética. Já o conto, quero é ver! Trata-se da composição mais ágil, moderna e difícil no ramo da literatura, superando inclusive, em termos de complexidade criativa, os melhores textos de longo curso, ainda que também possa ser extenso em ocasiões muito especiais.

O que ocorre é que estão banalizando o gênero, de tal modo, que aqui na província até os analistas de relatórios passaram a se dizer contistas apenas por conseguirem formatar uns causos e publicá-los via…

O MENINO QUE CUSPIU NA MÃE ALHEIA

Ou A víbora que planejava ser Clarice Lispector 


Por James Kafka


Na minha primeira juventude, quando um garoto queria desafiar outro para uma luta corporal e esse tinha o porte físico mais avantajado, dizia simplesmente: "a tua parte que passa de mim é podre".

Nessas ocasiões, também nunca faltava um adulto para incentivar o desigual combate, que logo traçaria dois riscos no chão e dizia sem esconder sua índole má: "essa é tua mãe e essa outra a tua", para ver quem ultrajaria primeiro a suposição de genitora do outro, com um pisão ou cusparada, dando início ao corpo-a-corpo.

Só mais tarde, lendo vagamente alguns filósofos, foi que comecei a decifrar o alcance psicológico das duas atitudes. O porquê de um garoto raquítico poder derrubar um brutamontes só na sugestão e encher-se de uma honradez que provavelmente nem distinguia ou almejava, enquanto o adulto, alheio à sua própria insignificância, apenas se comprazia diante da desgraça de uma criança.

Thomas …

O Mega-negócio Futebol e a Violência nos Estádios

Por James Kafka


Debitam como causa única da violência nos estádios de futebol a insensatez de torcidas organizadas, que estariam agindo como verdadeiras quadrilhas, pondo em risco a vida dos amantes desse esporte e maculando nossa imagem no cenário internacional.

Só não explicam que a instituição futebol saiu da esfera do entretenimento para o mega-negócio, comandado por um organismo apátrida cujas federações a esse filiadas se transformaram em governos autônomos dentro de cada país, todos com leis próprias e suas danosas ramificações pelos departamentos privados ou não, setores da mídia e outras obscuras corporações geradoras de fortunas provavelmente não declaradas, numa simbiose dantesca em que a vítima final será sempre o incauto consumidor/torcedor.

Penalizam times/torcidas, retiram-lhes o mando de campo por um eventual distúrbio de arquibancada, cobram preço exorbitante por um ingresso de pelada, porém nada fazem contra o feudo em que coronelões bilionários pintam e bordam, de p…

Guerra cruel contra o cidadão comum e não contra outros exércitos

Por James Kafka


Dizer que o militarismo, de certo modo, se constitui grande ameaça à paz no planeta, podendo levar ao extermínio de toda a humanidade, a uns parecerá afirmação obvia; a outros, simplista demais.

Para muitos, contudo, soará como despautério, algo inclusive digno de censura ou severa repreensão.

Seriam, de um lado, o pensamento do indivíduo comum inserido em uma sociedade milenarmente injusta, em que atua como mero instrumento de sustentação do Estado falido, e na outra ponta o discurso irado das elites dominantes -- alicerce desse mesmo Estado já fraudulento na origem e onde apenas aperfeiçoa seus métodos de dominação através de leis esdrúxulas, armamentos sofisticados e a complacência de mandatários a quem delegam poderes.

Se, nos primórdios, a guerra era necessária e por vezes compreensível até pelo ímpeto belicoso do animal homem a demarcar territórios, com o passar do tempo o Estado arbitrário incorporou a essa um caráter apenas ideológico, em que o militarismo pass…

Reflexões Ligeiramente Filosóficas de um Cronista Pós-nada

Você é o subproduto de uma sociedade trash!

Por James Kafka


Meus amigos, se esquecêssemos por um instante o computa, jogássemos fora o celular e déssemos de presente o aparelho de TV ao cidadão que recolhe lixo para reciclagem, todo dia, em nossa calçada, certamente lucraríamos muito.

Teríamos um pouco mais de tempo para refletirmos quão insensatos temos sido todos nós ao longo do tempo permitindo que reduzida fração de espertos humanoides determine o que devemos ou não fazer de nossas vidas.

O que consumir ou não, o tipo de leitura a que devemos nos deter, o filme a assistir, a novela, a música, os "astros" a cultuar, os cartões de dívidas, o plano de saúde, o apartamento onde morar, o estilo de vida que devemos ter, o banco que engolirá mossa grana, o supermercado que nos encherá de supérfluos e ainda nos imprá a obrigação de pagarmos a eles uma taxa por esse "direito" que nos dão de consumir. Já imaginaram?  Reflitamos!

O nosso escasso dinheiro, ganho com o suor …

A Saga de um Povo Hospitaleiro e Bom

Ceará no foco do mundo


por ALimaS


"O sertanejo é, antes de tudo, um forte". Ao esculpir essa preciosa frase, Euclides da Cunha sintetizava a bravura do nordestino, habitante de uma terra inóspita; povo valente, bom e que ama como ninguém o seu torrão natal, mas que, muita vez, se obriga a correr mundo tentando escapar da seca implacável.
Dessa região, é o cearense, talvez, o que melhor representa esse destemor, dado que a todas essas virtudes acrescenta o seu espírito nômade, como tão bem já retrataram nossos ilustres escribas: Antonio Sales, em Aves de Arribação; Jáder de Carvalho, em Terra Bárbara; Herman Lima, em Tigipió e, sobretudo, Gerardo Melo Mourão em suas belas Odisséias sobre a saga de sua (e minha também) desbravadora família, a esquadrinhar cada centímetro do chão estéril dos Inhamuns, demarcando posições, impondo-se pelo bacamarte se necessário fosse, até que se erguesse o país dos Mourões - essa vértebra sacra do sertão nordestino.
Não somos melhores nem pio…

Machado de Assis e Moreira Campos: o vínculo perpétuo da genialidade

Machado e Moreira, quando a leitura é muio mais que um simples prazer


Por ALima


Não há exagero em afirmar que o contista Moreira Campos está no mesmo nível do contista Machado de Assis em sua fase mais criativa. Eu disse CONTISTA, ok?
A dessemelhança - se houver - ficaria apenas na forma de construção literária, mesmo porque são duas épocas e concepções distintas no modo de desenvolverem uma boa narrativa. 
Em Machado, a picardia Sterneana da composição livre, digressiva e fragmentária que pontua sua obra a partir do "Papeis Avulsos" (que, aliás, coincide com o nascimento de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", verdadeiro marco no romance de língua portuguesa); em Moreira, o descompromisso com o mirabolante, a simplicidade que instiga, se bem lhe seja constante uma preocupação de tornar menos ásperos os questionamentos de natureza moral, digamos assim, o que não se percebe com relação ao pai de "Dom Casmurro", muito mais seguro de si e pouco preocupado com o…

Reflexões de um macaco marrento e pré-histórico

Ou o chimpanzé formidável


Por ALima

Não questiono a forma com que o criacionista afirma ter chegado à conclusão de que somos feitos à semelhança de Deus e sujeitos, portanto, a determinados códigos que tanto poderão nos levar ao paraíso quanto ao inferno, a depender de nossas atitudes enquanto seres vagantes, perplexos e ilógicos nesta vastidão de mundo.
Tampouco me interessa que o evolucionista veja em mim não mais que um fragmento irracional pré-histórico, submisso apenas à ordem natural das coisas, ao imponderável circulo que movimenta a grande roda. 
Reivindico tão somente o meu inalienável direito de absolvição pela dúvida, a partir do instante em que nenhuma corrente se mostrou capaz de desvendar, pelo menos para mim, esse grande mistério.
A eterna busca de si mesmo já levou o indivíduo a descobertas extraordinárias, evidentemente, porém nenhuma que nos indicasse a chave da felicidade, que, em última instância, se constitui o real motivo de toda essa inquietude que envolve a raça…

Ladrões de Literatura Atacam Novamente

A grande farra em cima do livro-brinquedo


Por ALimaS


Em uma sociedade refém da mídia e condenada ao consumismo ilógico, a indústria do logro só prospera, sobretudo a que envolve o universo da obra impressa de domínio público e isenta de impostos, em que editores mequetrefes mutilam capítulos inteiros de um livro para ajustá-lo a interesses de ordem meramente mercantilista, num total desrespeito ao artista. 
Verdadeiros ladrões de literatura, com habeas corpus previamente fornecido pelo Estado, a transformarem rapidamente um clássico universal de 500 páginas em simples brochura de 70 para ser vendida a 30 dólares ou mais como paradidático a ser adotado pelas maiores redes de ensino mercantilizada. É mole?
Não bastasse tal afronta, esses larápios insaciáveis vislumbraram agora um novo e promissor mercado, constituído pelos tolos essenciais que se habituaram ao texto fantasmagórico, esotérico ou similar. 
A trama, planejada com requintada astúcia pelos PHDs em Economia e Marketing, sob o…

O Extraordinário Padre Ceberlon Verdeixa

Boca Profética


Por ALima

Nos estatutos da Padaria Espiritual, o genial Antonio Sales redigiu o seguinte artigo: "A Padaria tratará de angariar documentos para um livro contendo as aventuras do célebre e extraordinário Padre Verdeixa". 
Projeto que, infelizmente, não vingaria, sem que se saiba até hoje se por falta de material ou simplesmente pela má vontade que imperava na província com relação a tudo que dissesse respeito ao notável religioso-jornalista, fundador de jornais e crítico severo aos famigerados coronelões que dominavam a política local, dono que era o perspicaz Cerbelon Verdeixa de uma oratória altamente certeira e corrosiva.
Ao contrário do que propunha o nosso padeiro da modernidade, o que prosperaria na província sobre o combativo Verdeixa seria não mais que a pilhéria, o chiste, a calúnia, um sistemático e infame processo no sentido de vulgarizar o homem e minimizar sua importante atuação em conturbado e criativo contexto de nossa formação sócio-cultura…