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Meganhas queriam mesmo era os 100 contos de reis que Lampião carregava na cinta

Virgulino Ferreira, o Lampião - Herói Brasileiro?


por ALima

O cearense Leonardo Mota, obstinado pesquisador do folclore nordestino, produziu livros interessantes, dentre os quais eu destacaria "Sertão Alegre", "Violeiros do Norte", "Cantadores" e "No Tempo de Lampião".

Nesse último, o autor envereda pelo relato caboclo das estrepolias do temido "bandoleiro", cujas façanhas também estão retratadas em inúmeras outras obras de diversos escribas, inclusive estrangeiros.

Curioso, contudo, na narrativa de Leota (pseudônimo pelo qual o escritor era mais conhecido) é que, mesmo tendo ele vivenciado período riquíssimo da nossa História e sido contemporâneo do famoso cangaceiro, assim como de outras figuras importantes como Padre Cícero, Luís Carlos Prestes, Floro Bartolomeu etc, não tenha ele próprio, Leonardo, emitido o seu parecer referente ao contexto social em que habitavam todas essas fascinantes criaturas, traçando para nós posteriores a verdadeira personalidade de Virgulino Ferreira.

Quem teria sido, afinal, Lampião? Herói ou bandido?

Inebriado pelas coisas matutas, inusitadas, sobretudo pelo pitoresco e patético, ao escrever sobre o famosos cangaceiro, L. M. preferiu amparar-se tão-somente naquilo que já entrara para o anedotário fragmentado em interpretações descasadas, acabando por construir um trabalho despido de qualquer relevo sociológico, credenciais que, por certo, as teria, vez que era ele bom leitor, formado em Direito e com destacada atuação na Promotoria Pública de diversas comarcas da Terra do Sol.

Ao invés dessa análise inteiramente sua sobre Lampião, em forma de crônica histórica, Leonardo optou por deixar fluir apenas o que já se encontrava em domínio público: o chiste, a pintura surrealista de um suposto facínora que barbarizava pelos sertões, a despeito da "perseguição implacável que lhe moviam as tropas do Governo".

Ou seja: um verdadeiro atentado ao bom senso, pois como teria sido possível a um grupo de supostos mentecaptos, todos enfiados na caatinga, em precárias condições, resistir por tanto tempo ao sistemático ataque de tropas  federais?! 

Infelizmente nosso ilustre Leota não quis investigar esse aspecto. Para ele seria pouco significativo o longo depoimento que lhe prestou famoso coronel do sertão cearense, em que dizia temer muito menos os cangaceiros que os meganhas, por serem esses últimos infinitamente mais covardes, e que toda a desgraceira que se atribuía a Lampião era, isto sim, praticada por esses famigerados "homens da Lei", que além da pilhagem que faziam de modo ininterrupto por toda a região nordestina, ainda viviam de olho nos cem contos de reis que o "cego dum oi" carregava inquirido na cintura.

Ao pesquisador, também passaria em branco o fato de que um simples funcionário público tivesse assinado a patente de capitão para Virgulino Ferreira, no sentido de que combatesse a Coluna Prestes, a mando de Padre Cícero, que por sua vez seguia orientação de um Floro Bartolomeu que mais tarde haveria de morrer naturalmente no Rio de Janeiro, com honras de General, condecorado que fora por Artur Bernardes pelo excelente serviço prestado à legalidade.

Lampião, aliás, jamais combateria a Luís Carlos Prestes, por quem, provavelmente, nutriria enorme simpatia, ainda que não conhecesse em profundidade qual fosse a causa do Cavaleiro da Esperança.

Há um episódio, lido por mim, de relance, num livro antigo que me foi subtraído por um "colecionador" que prefiro omitir o nome, sem que eu tivesse concluído a sua leitura, em que a tropa de Virgulino presencia, do alto da serra do Araripe, a Coluna Prestes movimentando-se não muito distante. Se quisesse preparar uma emboscada, teria sido fácil demais.

Leonardo sequer se tocou quando, face a face com o Patriarca de Juazeiro do Norte, nosso padim Ciço lhe tenha dito que Lampião era um menino bom; apenas doido.

O termo "doido" referia-se, evidentemente, a "destemido", "corajoso", que enfrentava qualquer perigo confiando muito mais no próprio taco.

É isso aí.

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