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Fase de Ouro da Cultura Cearense - Homens e Livros



Por ALima

A inteligência do cearense é reconhecida e respeitada no mundo todo, em diferentes áreas do conhecimento humano, sobretudo nas ciências jurídicas, artes e filosofia. 

Da mesma forma como notória também é a saga do nosso sertanejo, secularmente refém de desalmados que sempre recolheram dividendos na desgraça alheia. 

Não quero, porém, tratar de infortúnios. Minha análise refere-se apenas aos movimentos literários que tiveram curso em Fortaleza a partir da segunda metade do século XIX, assim como falar de livros e escritores que elevaram o nome de nosso Estado, sem esquecer aqueles que foram sempre discriminados pelas castas que povoaram e povoam os grêmios e academias. 

Até a criação do Liceu, em 1845, que marca efetivamente o começo da evolução cultural do Ceará, nenhuma de nossas cabeças pensantes havia adquerido ainda qualquer visibilidade literária, fosse na prosa ou na poesia. 

Os rapazes bem nascidos debandavam todos para Olinda, em busca do canudo, muitos dos quais ganhariam notoriedade mais tarde. 

Para terem ideia, "dos 555 diplomados em ciências jurídicas e sociais pela Academia pernambucana, até 1845, quarenta e dois eram do Ceará", conforme observou o historiador Raimundo Girão em artigo sobre Cultura Cearense publicado na Antologia Cearense, em 1957. 

Jovens que, ao retornarem à província sentiam-se mais à vontade nos embates partidários, atuando paralelamente no magistério ou na advocacia. Livro que é bom, nada publicado até então. 

Dos Oiteiros, em 1813, até a inauguração desse conceituadíssimo estabelecimento de ensino (Liceu) que exerceria importante papel na formação intelectual de nossas figuras de maior destaque, houve uma espécie de vácuo literário no Estado do Ceará. 

Digno de nota, talvez, nesse longo e tenebroso verão, as peripécias do controvertido e desassombrado Padre Verdeixa, autor de versos pantomímicos, aos quais recorria no ato de cutucar um desafeto, fosse nas páginas dos vários jornais que fundou, ou nas performances no Tribunal do Juri, quando se travestia de advogado para ferrar um figurão, como fez no julgamento do facinoroso tenente Antonio Cavalcante do Lago e Albuquerque, que espancara brutalmente um adversário - de acordo com relato de João Brígido no seu precioso livro O Ceará (Lado Cômico). 

Período, portanto, marcado apenas por desordens e tragédias, embates militares e políticos, barbarismos de toda ordem e, notadamente, calamidades oriundas da seca de 1825 e das guerrilhas de Pinto Madeira. 

Nem livraria havia em Fortaleza. Apenas em 1849 o português Manuel Antônio da Rocha Júnior teria a ideia de abrir uma seção em sua loja, dedicada à venda ou aluguel de livros, já que a Biblioteca Pública da Província só começaria a funcionar a partir de 1876 - ainda de acordo com a já citada matéria de Raimundo Girão.

Com o Liceu, que tinha à frente o ilustre Padre Tomás Pompeu de Sousa Brasil (mais tarde Senador), finalmente, a luz. 

Ordenado no Seminário de Olinda e abraçado ao diploma de bacharel em Direito, poderia esse nosso renomado conterrâneo por em prática os seus vastos conhecimentos em favor do Ceará. "Dar rumo e sistema ao adiantamento intelectual de sua terra" - nas palavras do referido Raimundo Girão. 

Tanto assim, que em 1850 publicou o primeiro livro didático cearense ("Princípios Elementares de Cronologia para uso do Liceu do Ceará") e, no ano seguinte, os "Elementos de Geografia", sendo que em 1856 lançaria seu livro de maior projeção e que seria adotado oficialmente no Colégio Pedro II, da Corte e em mais 1208 seminários e liceus do Império: o seu famoso "Compêndio de Geografia".

Em 1856, José de Alencar, nossa maior expressão literária de todos os tempos, lança no Rio de Janeiro o livro "Cinco Minutos"; em 1857, mais dois: "A viuvinha" e "O Guarani"; em 1862 seria a vez "Lucíola"; em 1864, de "Diva", culminando com a publicação de "Iracema", em 1865, uma obra grandiosa que marcaria nova fase no romance brasileiro, inserindo-nos definitivamente no cenário culto do país. 

Cá em Fortaleza, Juvenal Galeno dava a conhecer os seus "Prelúdios Poéticos", que, daí para frente, passaria a receber de todos os analistas a denominação de literatura genuinamente cearense, o verdadeiro marco inicial das atividades literárias no Estado.

 Porque no Ceará é assim: querem alguns, por excesso de zelo ou bairrismo exagerado, que tenhamos a nossa própria literatura, dissociada da Brasileira. Tanto os comentaristas de ontem quanto os de hoje rejeitam como nossa toda a produção de autores da terra que tenha sido desenvolvida em outros lugares e que abordem temas não relacionados à província, estabelecendo assim um verdadeiro cisma na Literatura Nacional. 

Por essa ótica, José de Alencar, Franklin Távora e Domingos Olímpio (para citar apenas os mais antigos) estariam banidos da literatura cabeça-chata. 

Isso, contudo, não influi nem contribui no enfoque que pretendo dar ao livro em preparo, ou seja: de simples e sincero relato sobre autores cearenses e livros, resgatando, quanto possível, os que foram ficando à margem pelo simples fato de não pertencerem ao andar de cima - conforme já falei em outros artigos.

Partindo desse princípio, chega-se à conclusão de que as atividades literárias no Ceará, com relevantes ganhos culturais para o Estado e projeção além-fronteira de algum filho da terra, só se iniciam pra valer mesmo em 1873, com a criação de um grêmio lítero-filosófico que marcaria época, equiparando-se à famosa Padaria Espiritual, que viria mais tarde com Antonio Sales e sua turma. 

Refiro-me à Academia Francesa do Ceará, uma entidade que abrigou nomes como Capistrano de Abreu, Rocha Lima, Felino Barroso, João Lopes, Araripe Júnior e tantos mais, se bem que na década anterior - vale ressaltar - o próprio Araripe Júnior já houvesse publicado"Contos Brasileiros" (1868) e "Cartas Sobre a Literatura Brasileira" (1869), no Rio de Janeiro, dando mostras do grande ensaísta que haveria de firmar nome na Corte, ao lado de José Veríssimo e Sílvio Romero, com os quais formaria a denominada trindade crítica do Naturalismo Brasileiro. 

Seus ensaios posteriores, sobre Gregório de Matos, Raul Pompéia e José de Alencar, ainda hoje se mostram atualíssimos e indispensáveis nos estudos sobre literatura brasileira. 

Capistrano de Abreu, por sua vez, se revelaria um dos principais Historiadores de nosso país, publicando obras fundamentais: "Estudo sobre Raimundo da Rocha Lima" (1878); "José de Alencar" (1878); "O Descobrimento do Brasil (1883); "A língua dos Bacaeris" (1897); "Os Caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil"; "Capítulos de História Colonial" (1907); "Dois documentos sobre Caxinauás" (1911-1912), aqui devendo incluir-se os livros póstumos: "Ensaios e Estudos (1931-33), e Correspondência (1954). 

Quanto a Rocha Lima, quis o destino que não vivesse o suficiente para deixar registrado todo o brilhantismo do seu pensamento. Provavelmente teria superado a todos os demais dessa expressiva geração, fosse pela consistência de suas análises humanístico-literário-filosóficas, quanto pela originalidade do seu estilo. 

Na década seguinte, em São Paulo, Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho (Dr. Jaguaribe) começava a projetar-se nas letras, publicando obras que, embora não vindo a ter o mesmo destaque daquelas que eram produzidas por seus contemporâneos acima citados, nem por isso devem ser ignoradas pelas novas gerações. Dentre essas, cito: "Reflexões sobre a colonização no Brasil"; "Questões sociais"; "Os herdeiros de Caramuru"; "Arte de formar homens de bem"; "Carta a Sua majestade o Imperador"; "Canalização do Rio São Francisco para o Ceará"; "O Município e a República"; "Propaganda em favor do Município"; "O veneno moderno"; "O Império dos Incas"; "Atlântide"; "As Bases da Moral"; "O Brasil antigo" - que seria traduzido para o francês pela Societá dês Antiquités Americanes, merecendo medalha de ouro. 

Domingos José, era filho do Visconde de Jaguaribe, um aracatiense, bacharel em direito formado pela Academia de Olinda (claro), tendo se tornado Senador pelo Ceará, em 1870, e Ministro da Guerra em 1871, condecorado com a medalha da Campanha do Paraguai. Foi um grande pesquisador de história, juntamente com seu amigo Capistrano de Abreu.

Voltarei ao assunto.

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